Em meados de agosto, a China comprou pouco mais de meio milhão de toneladas de soja dos Estados Unidos para o próximo ano comercial. Essa quantidade, no entanto, representa apenas uma parte do total de suas importações: segundo a agência de notícias Reuters, em outubro passado, a China concordou em comprar aproximadamente 25 milhões de toneladas de soja anualmente dos EUA.
Pequim quer fortalecer sua segurança alimentar, mas esbarra na limitação de terras e recursos agrícolas.
Embora o 15º Plano Quinquenal estabeleça como objetivo produzir cada vez mais alimentos dentro do próprio país, a China não consegue substituir todas as importações, como a soja.
Essa leguminosa rica em proteínas serve não apenas como alimento para humanos, mas principalmente como ração para as enormes criações de suínos, aves e peixes da China.
A agricultura chinesa dificilmente conseguirá superar essa dependência devido aos recursos limitados de terra e água disponíveis.
A tentativa de garantir seu próprio abastecimento alimentar de forma mais eficaz é motivada, sobretudo, por um cenário internacional cada vez mais incerto. A guerra na Ucrânia demonstrou a rapidez com que o abastecimento agrícola e as rotas comerciais podem ser interrompidos.
A isso se somam os conflitos comerciais e as consequências das mudanças climáticas. Para a China, a segurança alimentar é, portanto, também uma questão de segurança nacional.
Outro desafio são os recursos limitados do país. “Com quase 18% da população mundial, a China é o 2º país mais populoso depois da Índia, mas dispõe de apenas cerca de 7% das terras aráveis do planeta”, aponta Christina Otte, especialista econômica da agência alemã de comércio exterior Germany Trade & Invest na China.
Ao mesmo tempo, os riscos climáticos estão aumentando. Um estudo recente publicado na revista científica Nature mostra que eventos combinados de calor e seca aumentaram na China e estão impactando particularmente as colheitas de milho e arroz.
Em seu 15º Plano Quinquenal para o período de 2026 a 2030, a liderança chinesa aposta sobretudo no aumento da produtividade agrícola. O plano visa aumentar a proporção de terras agrícolas de alta qualidade, de aproximadamente 70% para 75%.
Ao mesmo tempo, busca desenvolver variedades de sementes mais resistentes, aumentar o nível de mecanização e expandir a agricultura inteligente. O uso da água também deve se tornar mais eficiente.
Pequim também mira na modernização tecnológica, com investimento em novas variedades de sementes, biotecnologia, agricultura de precisão, digitalização e inteligência artificial.
As máquinas serão utilizadas com maior precisão com o auxílio de sistemas de navegação, e sensores fornecerão alertas precoces de doenças ou eventos climáticos.
Também estão previstos sistemas de irrigação mais eficientes e maior uso de fertilizantes orgânicos.
Ao mesmo tempo, Pequim busca diversificar seus fornecedores. O think tank britânico Chatham House descreve a combinação do aumento da produção doméstica, fontes de importação diversificadas e grandes estoques como componentes-chave da estratégia de segurança alimentar da China.
Isso também inclui investimentos em novas rotas de transporte e cadeias de suprimentos, como infraestrutura portuária e ferroviária.
Para os países que exportam produtos agrícolas para a China, a mudança na demanda chinesa provavelmente terá consequências variadas. Uma análise publicada em meados de agosto na Fulcrum, uma revista voltada para os desenvolvimentos políticos asiáticos do Instituto Iseas-Yusof Ishak, em Cingapura, conclui que alguns países da Associação das Nações do Sudeste Asiático, em particular, podem ser afetados.
De acordo com a análise, Camboja, Laos, Mianmar, Tailândia e Vietnã estão entre os países com dependência comparativamente alta do mercado chinês.
A China já é amplamente capaz de garantir ou expandir ainda mais sua autossuficiência em arroz, aves e carne suína. A produção doméstica de trigo e milho também deve aumentar.
No entanto, o país continua dependente de importações de soja, carne bovina, laticínios e óleos vegetais.
Por isso, para os países da Asean, o Iseas prevê tanto uma diminuição nas oportunidades de exportação quanto uma demanda contínua ou crescente, a depender do produto.
O Iseas aponta para o aumento da demanda por alimentos de maior valor agregado e já processados, incluindo café e cacau, bem como peixes e frutos do mar. Ao mesmo tempo, os requisitos de segurança alimentar, rastreabilidade e sustentabilidade provavelmente ganharão mais importância.
Tecnologia agrícola como novo setor de exportação.
A estratégia chinesa não se limita à produção doméstica. O Iseas destaca que a China já se tornou um fornecedor significativo de tecnologia agrícola, sementes melhoradas, sistemas de agricultura digital, tecnologia de irrigação e máquinas para processamento de alimentos.
Isso pode criar oportunidades para transferência de tecnologia e cooperação para a Asean.
O Chatham House também prevê repercussões internacionais para os investimentos chineses em tecnologia agrícola. Técnicas para aumentar a produtividade, reduzir o desperdício de alimentos e regenerar o solo poderiam, segundo o think tank, ser utilizadas também fora da China.
Em números
- Cia de notícias Reuters, em outubro passado, a China concordou em comprar aproximadamente 25 milhões de toneladas de soja anualmente dos EUA