O desgaste causado pela revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, "decantou" e já não causa mais tanto estrago entre o segmento evangélico, afirma o bispo Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra.
Mais do que perdoar Flávio, os evangélicos compreenderam que ele não cometeu um crime, diz Rodovalho. "Foi infeliz da forma com que foi abordado, uma forma desajeitada, de relatar isso para a imprensa.
Deveria ter sido mais claro. Mas já passou, as pesquisas mostram isso", opina.
Em entrevista à Folha, Rodovalho conta que Flávio passou a buscar uma aproximação com os líderes das igrejas após ser criticado pelo distanciamento. O grupo agora discute estratégias para ajudá-lo, como um ato unificado para mostrar o apoio e construir uma rede de informações para divulgar as propostas dele.
Rodovalho afirma que o presidente Lula (PT) não perseguiu o segmento nem fez nenhum "gesto extensivamente à esquerda", mas também não se esforçou para se aproximar dos líderes.
Para ele, a pauta de costumes continuará um tema na eleição, mas a carestia pesará mais no voto.
Escolhido por Jair Bolsonaro (PL) para prestar assistência religiosa enquanto estava na prisão, o bispo não fala com o ex-presidente desde que ele voltou para a prisão domiciliar, em maio.
Ele diz acreditar que não haverá autorização para visitas até o fim da campanha.
Agora, com o calor da campanha, eu nem sei se o ministro [Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal] vai liberar isso, para não se tornar talvez um instrumento político.
A gente compreende, mas esse período termina daqui uns dias, e aí acho que ele vai estar num outro estado muito mais confortável.
O senhor criticou Flávio há dois meses pela falta de interlocução com os líderes evangélicos. Ele mudou depois disso? Mudou e mudou muito. Estou otimista em relação a tudo o que eu estou vendo desabrochar na campanha.
O acerto do Flávio com a Michelle [Bolsonaro], com seu próprio time interno, com a escolha do vice, que esvaziou o tema ali [sobre quem seria]. Acabou, definiu.
O vice foi acusado pela oposição de estupro de vulnerável e de engravidar uma adolescente. O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) se diz inocente, e o caso está sob investigação, mas não foi um erro escolher um vice com essa polêmica.
Para quem o conhece, é uma acusação sem muita força, meio leviana. Ele rebateu muito bem, inclusive com provas, e já já se vê que realmente não procede. O sentimento que eu tenho é de que não colou.
E foi uma escolha boa por ser do Nordeste, pela carreira que ele construiu no Ministério Público.
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Voltando aos evangélicos, o Flávio passou a procurá-los para conversar? É diferente do pai dele, que era católico, mas tinha uma relação conosco de muitos anos.
O Flávio não, e ele entrou agora nessa missão de ser candidato a presidente. Então ele está procurando [os líderes] para se aproximar. Falamos algumas vezes, e a tendência é o segmento se unir.
Qual será a participação dos evangélicos na campanha? O segmento é gigante. A ideia é ter o maior número de líderes junto com ele para propagar a mensagem dos programas, do que ele defende, da família.
Construir uma rede de informação. Estamos pensando também num ato unificado, para potencializar isso. O Flávio precisa sair com o segmento forte, unânime e transferindo o maior número possível de votos.
O eleitor evangélico perdoou ele pelo episódio do Dark Horse? Já compreendeu, mais do que perdoar, porque até agora ninguém viu um crime. O tema decantou, as prestações de contas estão com a procuradoria e realmente se viu que a parte dele foi bater na porta [do Vorcaro] e pedir o patrocínio, que não era dinheiro público, para fazer um filme.
Foi infeliz da forma com que foi abordado, uma forma desajeitada, de relatar isso para a imprensa. Deveria ter sido mais claro. Mas já passou, as pesquisas mostram isso.
Após quase quatro anos de governo Lula, qual é o balanço da relação entre os líderes evangélicos e o presidente? Não tivemos um relacionamento oficial. O que tivemos foi uma boa relação com o ministro Jorge Messias [da Advocacia-Geral da União].
Não houve nenhum movimento [do presidente], nenhuma energia para construir qualquer ponte, né.
O governo Lula adotou ações que desagradaram o segmento? Não houve nenhuma ação que nós poderíamos dizer: "Ah, isso aí de alguma maneira violou nossos princípios.
Até porque a gente entende que isso foi um compromisso do Messias também, e ele honrou isso de um modo geral, não fez nenhum gesto extensivamente à esquerda. Fora alguns momentos, como a criminalização das irmãzinhas de coque, com Bíblia na mão, do 8 de Janeiro.
Considerado esse histórico, então essa pauta de valores, de acusação sobre perseguição a igrejas ou o discurso contra a liberação do aborto, não vai ser tema desta eleição.
Vai ter o seu espaço. Não acabou não, de jeito nenhum. Mas estou sentindo que o ponto central será a pauta da carestia, do aumento dos preços para os mais pobres.
É o que está dando a oscilação nas pesquisas. Essa faixa de quem ganha de um a três salários mínimos está em dúvida de votar no Lula.
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Poder, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.