Em 2021, os Estados Unidos voltaram a conviver com inflação alta pela primeira vez em quatro décadas, num episódio que obrigou o Federal Reserve a subir juros em ritmo acelerado.
Cinco anos depois, Washington enfrenta outro problema que costuma ser associado a economias emergentes: a dificuldade de financiar a dívida em prazos longos a um custo aceitável.
Os papéis de 30 anos reagiram de imediato, mas devolveram os ganhos no dia seguinte e não saíram do lugar mesmo após o discurso duro do presidente do Fed.
O problema persiste, e a próxima alavanca está dada, segundo analistas: cortar a emissão de títulos com dez anos ou mais, com risco elevado de redução nos leilões de 20 e 30 anos já em novembro.
Na avaliação de Mark Cabana e Meghan Swiber, do Bank of America, o que está em jogo é o abandono do arcabouço “regular e previsível” que rege a gestão da dívida americana desde os anos 1980.
A estabilidade das emissões longas ainda é o cenário-base dos analistas, mas a mera possibilidade de mudança de perfil da dívida por lá deixa os americanos em sobressalto: papéis de prazo mais curto exigem menos prêmio, o que melhora a taxa paga hoje, mas transformam a dívida numa sequência de rolagens em que o custo é redefinido a intervalos curtos.
O encurtamento da dívida é comum em países como o Brasil, onde o movimento está em estágio mais avançado. Metade da dívida pública federal está atrelada à Selic, e o Tesouro Nacional revisou nesta semana o plano de financiamento para elevar a até 53% a fatia esperada desses títulos ao fim do ano.
O mecanismo é diferente, porque no caso brasileiro o encurtamento vem da indexação e não do vencimento do papel, mas o resultado converge: o governo perde a capacidade de travar o custo do endividamento por períodos longos.
Mas as diferenças entre os dois casos permanecem grandes. Os EUA se financiam na moeda de reserva internacional e operam o mercado de títulos mais líquido do mundo, condições que o Brasil não tem.
Além disso, embora o encurtamento no perfil da dívida seja comumente associado a emergentes, o Merrill Lynch Wealth Management, braço de gestão de patrimônio do BofA, aponta que nem sempre esse é o caso.
Os estrategistas lembram que as emissões curtas foram também o caminho seguido pelo Japão, que vem reduzindo o déficit primário ao tomar emprestado em larga escala na ponta curta a juros próximos de zero e gastar para elevar o PIB nominal, o que faz a arrecadação crescer mais rápido.
E diz seguir dando pouco peso às preocupações com enfraquecimento da demanda por Treasuries.
Os precedentes históricos também sugerem cautela. O Tesouro americano descontinuou o papel de 20 anos em 1986 e suspendeu o de 30 anos em 2001. Nos dois episódios a curva achatou, mas o juro de dez anos não caiu de forma duradoura.
Apesar disso, há poucas ferramentas à disposição do Fed, diante do temor de que o trade anti-dólar que ameaçou voltar nos últimos dias acelere de vez. Segundo cálculos do professor Arvind Krishnamurthy, da Stanford Graduate School of Business, a fuga do investidor estrangeiro dos títulos americanos sairia caro: em um cenário simulado de desaparecimento completo da demanda estrangeira por ativos em dólar, a moeda americana se depreciaria em cerca de 7,6%, e os rendimentos dos títulos disparariam ainda mais.