Recuperação judicial: entenda o instrumento usado pelo Grupo Casas Bahia.
Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, GPA, Dia, St Marche. A lista de grandes redes que, nos últimos anos, recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial, fecharam lojas ou frearam a expansão física só cresce e já atinge diferentes segmentos do varejo brasileiro, dos supermercados às redes de móveis e eletrodomésticos.
Em comum, elas têm um modelo de crescimento baseado na abertura acelerada de lojas que perdeu força diante dos juros altos, do crédito mais caro e de um consumidor mais cauteloso.
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No varejo alimentar, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) seguiu outro caminho: optou por uma recuperação extrajudicial e por uma ampla reestruturação, que levou ao fechamento e à conversão de dezenas de lojas Extra.
Um dos gargalos foi a expansão desordenada de lojas físicas. Em 2020, o GPA chegou a ter cerca de 800 lojas, mas reduziu sua presença física após a venda de unidades do Extra Hiper para o Assaí, em 2021.
A operação marcou uma mudança de estratégia do grupo, que passou a concentrar esforços em formatos menores e considerados mais rentáveis, como supermercados de bairro e lojas de proximidade.
Ao fim de 2025, a companhia tinha cerca de 700 lojas no país.
Outras redes também passaram a rever o modelo de crescimento baseado na abertura acelerada de unidades. Empresas como Dia, St Marche e Grupo Mateus encontraram dificuldades para sustentar operações maiores.
As redes passaram a priorizar a rentabilidade das unidades existentes, reduzir custos e tornar a operação mais eficiente.
Durante anos, a expansão física foi vista como um dos principais caminhos para ganhar mercado no varejo alimentar.
🏪 A lógica era simples: redes maiores tinham mais capacidade de negociar com fornecedores, ampliar a presença regional e conquistar consumidores.
Uma loja física exige gastos com aluguel, funcionários, logística, estoque, manutenção e tecnologia. Em um setor marcado por margens de lucro apertadas, qualquer aumento relevante de custos pode prejudicar o resultado das empresas.
Segundo ele, a estratégia da loja física só funciona quando a operação também tem ganho de eficiência. “O varejo físico ainda funciona, mas não para qualquer formato.
A expansão faz sentido quando existe alta conveniência, baixo custo operacional e giro rápido de estoque”, afirma Reis.
Além dos custos operacionais, a mudança no comportamento do consumidor reduziu a vantagem de simplesmente estar mais perto do cliente.
Com mais acesso a informações de preço, comparação de produtos e compras digitais, o consumidor passou a escolher menos pela localização e mais pela combinação entre preço, conveniência e experiência.
Juros altos mudaram a conta da expansão.
O ambiente econômico do país também não ajudou, principalmente com o fim de um período de juros mais baixos, quando as companhias conseguiam empréstimos mais baratos para financiar as novas unidades, aumento de estoques e de operações.
Em agosto de 2020, durante a pandemia de Covid-19, a Selic, a taxa básica de juros, chegou a 2%, menor nível da história. Mas, com a inflação mais alta após a reabertura econômica, o Banco Central (BC) precisou subir novamente os juros.
Em julho de 2025, a Selic chegou a 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas — patamar que segue pesando sobre companhias endividadas, caso da própria Casas Bahia, cujo passivo bilionário reflete justamente essa combinação de juros elevados e crédito mais restrito.
Segundo ele, o risco aumenta quando a expansão da rede é financiada por empréstimos. Nesses casos, o crescimento das vendas, por si só, não garante que a empresa esteja em uma situação financeira melhor, já que os custos e as dívidas também aumentam.
💰 Uma empresa pode vender mais e, mesmo assim, enfrentar dificuldades se a estrutura criada para sustentar esse crescimento consumir uma parcela cada vez maior do resultado.
Diante desse cenário, muitas redes de supermercados precisaram mudar de estratégia. Algumas reduziram o ritmo de abertura de novas lojas.
Outras fecharam unidades que davam pouco retorno, renegociaram dívidas ou passaram a investir em formatos menores e mais eficientes, movimento que, em graus diferentes, também aparece agora nos planos anunciados por Casas Bahia e Marabraz.
Um dos principais fatores por trás da transformação do setor está no comportamento do consumidor. Com o orçamento mais apertado, os brasileiros passaram a buscar preços menores, comparar mais antes de comprar e trocar marcas tradicionais por alternativas mais baratas.
A proximidade da loja deixou de ser o único fator decisivo, uma vez que preço e conveniência ganharam ainda mais peso.
Essa mudança aparece em pesquisas de mercado. Segundo levantamento da NielsenIQ (NIQ) publicado em junho deste ano, diante da pressão sobre o orçamento.
66% dos consumidores afirmam buscar opções de menor preço;45% dizem escolher produtos mais baratos independentemente da marca;80% afirmam planejar as compras com antecedência.
Além disso, 47% dos consumidores brasileiros pretendiam comprar mais produtos de marca própria — itens vendidos com a marca da própria rede de supermercados, que costumam ter preços mais baixos do que os de fabricantes tradicionais.
Essa nova postura do consumidor favoreceu formatos como os atacarejos, que oferecem preços menores para compras em maior volume, e aumentou a importância das marcas próprias.
🔎 O autosserviço representa o varejo alimentar tradicional, que inclui principalmente supermercados, hipermercados e outros formatos de lojas em que o cliente entra, pega os produtos nas gôndolas e passa pelo checkout.
Também acelerou a busca por canais digitais, que permitem comparar preços e pesquisar avaliações sem depender exclusivamente da loja física.
Essa mudança aumentou a concorrência pelo consumidor. Além dos supermercados tradicionais, empresas como Mercado Livre, Amazon, iFood e 99 passaram a disputar esse espaço, oferecendo a compra de alimentos e bebidas por meio de aplicativos, lojas online e serviços de entrega rápida.
A estratégia ganha ainda mais relevância em um cenário de endividamento elevado, orçamento mais apertado e maior preocupação das famílias com os gastos.
Com menos espaço no bolso, consumidores passaram a buscar alternativas que permitam comparar preços, encontrar promoções e economizar nas compras do dia a dia.
GPA busca reorganizar dívidas após anos de pressão financeira.
O caso do Grupo Pão de Açúcar representa um dos exemplos mais conhecidos dos desafios enfrentados por redes que construíram uma grande presença física ao longo dos anos.
🔎 A recuperação extrajudicial permite que a empresa renegocie dívidas diretamente com os credores, sem recorrer ao processo tradicional. Nesse modelo, as negociações ocorrem fora da Justiça, diferentemente da recuperação judicial adotada por Casas Bahia e Marabraz.
A crise do GPA foi resultado de uma combinação de fatores. A empresa acumula prejuízos desde 2022, pressionada pela queda no consumo, pelo aumento dos juros — que encareceu suas dívidas —, pelos custos de reestruturação e pela saída de lojas com baixo desempenho.
Nos últimos anos, a companhia passou por mudanças na gestão e na estrutura societária. O Grupo Coelho Diniz assumiu a posição de principal acionista, com 24,6% das ações, enquanto o grupo francês Casino, antigo controlador, manteve participação de 22,5%.
Segundo o GPA, o plano de recuperação busca melhorar o perfil da dívida, reduzir a pressão sobre o caixa e criar condições para a sustentabilidade financeira da companhia.
Enquanto isso, as lojas seguem funcionando normalmente e que os pagamentos a fornecedores e parceiros estão em dia.
St Marche e Dia apostam em reestruturação.
A companhia atribuiu parte das dificuldades ao aumento do endividamento, aos juros elevados e à redução das linhas de crédito.
A estratégia foi concentrar a operação em São Paulo, onde estavam as unidades consideradas mais rentáveis. A rede anunciou a saída da recuperação judicial em junho.
Para Ulysses Reis, esses movimentos indicam uma mudança estrutural no setor. Segundo ele, o varejo tende a abandonar o modelo baseado apenas em grandes lojas e expansão acelerada e deve apostar em formatos menores, mais próximos do consumidor e integrados ao ambiente digital.
Redes como o Oxxo seguem essa estratégia, com lojas compactas voltadas para compras rápidas e de conveniência.
Segundo o especialista, as unidades físicas devem funcionar cada vez mais como pontos de conveniência, retirada de produtos e apoio logístico, enquanto estoques menores e maior eficiência ganham importância.
Casas Bahia e Marabraz apostam em reestruturação para reduzir dívidas.
A recuperação judicial é a principal aposta de Casas Bahia e Marabraz para reorganizar as finanças e garantir a continuidade das operações.
🔎 O mecanismo permite que empresas em dificuldades renegociem suas dívidas sob supervisão da Justiça, enquanto mantêm as atividades e apresentam um plano de recuperação aos credores.
No caso da Casas Bahia, a empresa afirma que pretende reduzir despesas, otimizar a operação e concluir a reestruturação iniciada em 2024, quando renegociou parte de suas dívidas por meio de uma recuperação extrajudicial.
Segundo a varejista, o objetivo agora é preservar o caixa, adequar o perfil da dívida e criar condições para retomar o crescimento.
Segundo o presidente da empresa, Renato Franklin, os fechamentos de lojas foram concentrados em uma única etapa para eliminar unidades menos rentáveis e evitar novos ajustes.
A estratégia também prevê priorizar vendas com maior margem de lucro, inclusive no comércio eletrônico.
Franklin afirmou ainda que a empresa trabalha com um cenário econômico mais difícil em 2027 do que em 2026. Segundo ele, o elevado endividamento das famílias deve continuar pressionando o consumo e as condições de crédito.
Questionado sobre as parcerias da Casas Bahia com marketplaces, Franklin afirmou que a rede vai priorizar as margens de lucro nos canais on-line e reduzir o volume de vendas que não são rentáveis.
No ano passado, a Casas Bahia firmou uma parceria com o Mercado Livre para reforçar sua operação on-line.
Já a Marabraz informou que a recuperação judicial faz parte de uma estratégia para reequilibrar as contas, renegociar dívidas com credores, preservar empregos e manter o atendimento aos clientes durante o processo.
Fechar lojas ajuda, mas não resolve imediatamente.
Uma das medidas adotadas por empresas em dificuldade é o fechamento de unidades consideradas pouco rentáveis. No entanto, a estratégia não gera alívio imediato no caixa.
Segundo o próprio pedido apresentado à Justiça de São Paulo e obtido pelo g1, a Casas Bahia atribui suas dificuldades principalmente aos juros elevados, à queda do consumo de bens duráveis, ao aumento da inadimplência, às pressões do setor nos últimos anos e aos impactos da transformação digital no comércio.
As primeiras medidas de reestruturação teriam sido adotadas já em 2023, diante da piora do cenário econômico, com redução de estoques, corte de investimentos e ajustes nos centros de distribuição.
Só em agosto deste ano, o grupo demitiu cerca de 3 mil funcionários e fechou quase 300 lojas.
Somadas as duas etapas de reestruturação citadas no processo, a companhia reduziu aproximadamente 11,6 mil postos de trabalho e fechou cerca de 355 lojas — mas afirma que ainda mantém mais de 20 mil empregados e uma rede com mais de 700 lojas físicas em funcionamento.
Segundo Thomas Felsberg, a redução da estrutura envolve custos, principalmente relacionados a contratos e funcionários.
Para o advogado, reconhecer o problema rapidamente é fundamental em processos de reestruturação.
Para os especialistas, a crise atual não representa o fim das lojas físicas, mas uma mudança no modelo de crescimento.
A expansão baseada apenas na abertura de novas unidades perdeu força. O varejo passa a buscar formatos menores, mais digitais e com maior eficiência operacional.
O g1 procurou o GPA e o St Marche, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
Em nota, o Grupo Dia afirmou que o varejo alimentar continua enfrentando um “cenário desafiador”.
Segundo a empresa, a combinação de juros elevados, pressão sobre o orçamento das famílias e um consumidor "cada vez mais criterioso" exige das companhias "gestão disciplinada, eficiência operacional e capacidade de adaptação constante.
A cautela também aparece nos indicadores de confiança. Em junho, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), ficou praticamente estável em 88,7 pontos.
Segundo a instituição, apesar de as famílias avaliarem melhor sua situação financeira atual, elas seguem mais pessimistas em relação aos próximos meses, principalmente sobre a própria condição financeira e a intenção de comprar bens duráveis.
Em números
- Só em agosto deste ano, o grupo demitiu cerca de 3 mil funcionários e fechou quase 300 lojas
- Mas afirma que ainda mantém mais de 20 mil empregados e uma rede com mais de 700 lojas físic
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Negócios, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.