Slawomir Krupa, diretor-presidente do francês Société Générale, mantém um ímã sobre sua mesa. “Stop Basel Endgame!” (“Parem o Basel Endgame!”), diz a mensagem, lembrando-o diariamente da campanha de lobby bancário mais bem-sucedida da história.
Para frustração de Krupa, que também preside a Federação Bancária Europeia (EBF), a vitória ocorreu do outro lado do Atlântico.
Wall Street também se beneficiou de uma supervisão menos intrusiva e de revisões em outras regras, enquanto a administração do presidente Donald Trump prometia libertar os bancos do que considera restrições excessivas impostas após a crise financeira de 2008.
Para Krupa e seus colegas europeus, os ventos da desregulamentação demoraram demais para cruzar o Atlântico. Agora, porém, os bancos da região estão mais otimistas após a Comissão Europeia prometer, no mês passado, enfrentar algumas de suas principais reclamações.
Magnata venezuelano vira peça-chave de Trump para negócios de petróleo no país.
Enquanto grandes petroleiras evitam o país, empresário atua para aproximar produtores independentes e investidores americanos de oportunidades na Venezuela.
Pedido de recuperação judicial confirma cenário já antecipado pelo mercado após prejuízo bilionário, patrimônio líquido negativo e alerta da auditoria sobre a continuidade operacional da varejista.
O pacote apresentado pelo braço executivo da União Europeia foi impulsionado por políticos e bancos que exigem medidas para preservar a “igualdade de condições” global, especialmente em relação aos concorrentes americanos, que há anos levam vantagem e agora contam com o impulso adicional da agenda de corte de regulações de Trump.
Mas, embora os líderes políticos estejam alinhados, os reguladores europeus, receosos de futuras crises financeiras e de seus impactos econômicos, mostram muito menos disposição para flexibilizar regras.
Isso prepara o terreno para disputas globais sobre como afrouxar as normas existentes de forma responsável e sobre a necessidade de criar novas regras para lidar com ameaças emergentes, como inteligência artificial e mercados privados.
Quando Krupa assumiu a presidência da EBF, em fevereiro de 2025, a ofensiva da indústria bancária americana contra a regulação já estava em pleno andamento.
Na Europa, por sua vez, as atenções estavam voltadas para dois relatórios de referência, elaborados pelo ex-presidente do BCE Mario Draghi e pelo ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta, que apontaram desafios de financiamento e crescimento na região.
Os bancos aproveitaram essas discussões para defender reformas voltadas à “competitividade”, argumentando que elas ampliariam a capacidade de concessão de crédito.
O resultado mais concreto até agora foi o adiamento, pela União Europeia, de parte das novas regras globais conhecidas como Fundamental Review of the Trading Book (FRTB), até que haja clareza sobre os planos dos Estados Unidos.
O FRTB aumenta as exigências de capital para operações de negociação, área na qual os bancos europeus competem diretamente com Wall Street e poderiam sair em desvantagem caso adotassem as regras antes dos rivais americanos.
Os bancos europeus continuam negociados em bolsa com desconto em relação às instituições americanas, embora essa diferença tenha diminuído nos últimos anos.
A direção apontada pelo mais recente pacote da UE não é tão agressiva quanto a flexibilização adotada nos Estados Unidos ou no Reino Unido e tampouco ataca diretamente as exigências de capital.
Ainda assim, lobistas consideram as medidas americanas um importante catalisador para mudanças na Europa.
Os 27 países da União Europeia não querem ser vistos como simples imitadores dos EUA. Em vez disso, apresentam sua estratégia como uma tentativa independente de tornar o sistema bancário europeu mais eficiente e permitir que os bancos alcancem escala para competir globalmente.
Durante a divulgação dos resultados do Deutsche Bank no mês passado, o CEO Christian Sewing afirmou estar “encorajado” pelo foco crescente em “simplificação e crescimento”.
Já Wim Mijs, responsável pela gestão diária da EBF, classificou a iniciativa europeia como uma “ruptura” e disse ter ficado especialmente surpreso, e satisfeito, ao ver a Europa abrir espaço para mudanças no chamado output floor, um dos componentes mais controversos do pacote regulatório global.
Criado para impedir que bancos manipulem modelos internos para reduzir artificialmente suas exigências de capital, o output floor tornou-se peça central das regras finais de Basileia e também um dos pontos de maior resistência por parte do setor.
No início deste ano, os Estados Unidos anunciaram que não adotariam a medida. O impacto doméstico foi pequeno, já que os bancos americanos já não utilizam modelos internos para calcular o risco de suas carteiras de crédito.
O principal efeito foi fortalecer o argumento dos bancos europeus, muito mais afetados pela regra, em favor de uma revisão em nome da igualdade competitiva. A Comissão Europeia aceitou iniciar essa revisão.
Um grande obstáculo continua sendo o Banco Central Europeu (BCE), cujos dirigentes acreditam que o output floor deve permanecer inalterado, segundo pessoas familiarizadas com o posicionamento da instituição.
Enquanto os bancos europeus pressionam seus governos a acompanharem os Estados Unidos, as reformas na indústria financeira americana continuam avançando, em sintonia com a agenda mais ampla de desregulamentação de Trump em setores como tecnologia, combustíveis fósseis e automóveis.
Esse espírito de flexibilização preocupa alguns dirigentes de bancos centrais e órgãos reguladores europeus. Em conversas reservadas com a Bloomberg, eles afirmaram que a postura americana tem contaminado discussões tensas em fóruns internacionais como o Comitê de Basileia.
Segundo um formulador de políticas europeu experiente, em quase duas décadas de participação nessas negociações globais ele nunca viu divergência tão grande entre autoridades americanas e europeias sobre os riscos para a estabilidade financeira.
As preocupações se concentram especialmente nos riscos associados ao sistema bancário, à inteligência artificial e ao mercado de crédito privado, além do afrouxamento da supervisão nos Estados Unidos.
Tucker classificou como um possível “erro confuso” os planos do Federal Reserve de reformar regras-chave de liquidez, o que poderia permitir aos bancos migrar recursos de ativos de baixo retorno, como títulos do Tesouro americano, para aplicações mais arriscadas.
Autoridades americanas defendem publicamente a necessidade de “modernizar” a regulação global, expressão que alguns europeus interpretam como sinônimo de “desregulamentar”.
Nos bastidores, os EUA também têm questionado se reguladores financeiros deveriam expandir sua atuação para novos temas, segundo pessoas que acompanham as discussões.
Neil Esho afirmou não esperar mudanças substanciais que dependam de acordos internacionais.
Em depoimento ao Senado americano em fevereiro, Michelle Bowman criticou problemas de governança no Comitê de Basileia, incluindo o que chamou de concentração de liderança em determinadas jurisdições.
Embora os Estados Unidos continuem participando ativamente de encontros bilaterais e multilaterais com seus pares, Esho teme que a coordenação internacional em momentos de crise possa se tornar mais difícil.
Fontes
Informação baseada em material público de InfoMoney, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.