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Musica Revisado por ULTRA AI

Como ‘Blonde’, de Frank Ocean, moldou (e continua moldando) o R&B

No aniversário de dez anos do disco, um mergulho no que ele é, de onde veio, o que disse — e o que ainda diz

6 min de leitura
Como ‘Blonde’, de Frank Ocean, moldou (e continua moldando) o R&B

No aniversário de dez anos do disco, um mergulho no que ele é, de onde veio, o que disse — e o que ainda diz.

Dez anos atrás, na madrugada de 20 de agosto de 2016, Frank Ocean lançou Blonde de surpresa. O disco simplesmente surgiu nos streamings um dia depois de Endless, o álbum visual usado para encerrar o contrato com a Def Jam.

Desde então, Ocean praticamente desapareceu, virando quase uma lenda (com fãs tratando-o como o Saci ou o Pé Grande, chegando a criar compilações de todas as vezes em que ele apareceu em câmera), enquanto o álbum que ele deixou para trás só cresceu.

Para entender Blonde, é preciso olhar para o que veio antes. Em 2012, Christopher Breaux, nome de batismo do cantor, lançou Channel Orange, ganhou dois Grammys e virou uma estrela.

Em julho daquele mesmo ano, publicou no Tumblr uma carta sobre seu primeiro amor, um homem. O gesto foi impactante (não preciso lembrar que o R&B e, principalmente, o hip hop sempre tiveram uma relação complicada com a homossexualidade): Ocean não só quebrou esse padrão, como fez questão de tornar tudo público na internet.

Depois disso, vieram quatro anos de silêncio pontuados por datas de lançamento anunciadas que nunca se concretizaram, nada de singles ou novidades. A espera foi tão longa que virou parte da narrativa do disco antes mesmo de ele existir.

Quando finalmente chegou, já era, por si só, um acontecimento.

Blonde habita o território daquele momento de 2012 de forma muito mais complexa do que Channel Orange, já que a sexualidade dele, aqui, é parte do conceito. Os pronomes são ambíguos, as histórias de amor não dizem quem é quem e tudo fica no imaginário.

Em “Good Guy”, por exemplo, há a descrição direta de um encontro num bar gay. “Seigfried” é um mergulho nos conflitos de alguém que não sabe se deseja amor ou solidão.

Ele escreve sobre a própria vida, e você sente que é sobre a sua.

Mas, acima de tudo, o disco é sobre o tempo e o que ele carrega. Sobre relações que não funcionaram, amores que nasceram em horas erradas, a dor de tentar segurar algo que já foi embora.

É justamente esse o cenário que a capa nos apresenta: alguém no banheiro, pego de surpresa, chorando — e tentando disfarçar as lágrimas na água do chuveiro. A imagem, feita pelo fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans, conhecido por décadas de trabalho com temáticas queer, mostra Ocean cobrindo o rosto, tomado pela vergonha.

O marcante cabelo verde completa a metáfora. Fãs teorizam que a cor representa a perda de inocência, já que, quando alguém que tingiu o cabelo de loiro (blonde, em inglês) entra em contato com cloro, o cabelo fica verde — e Blonde seria exatamente isso, um registro do momento em que a tinta saiu, em que a inocência foi embora e Ocean se tornou uma pessoa nova.

No indicador, um band-aid — referência direta à briga com Chris Brown em 2013 num estúdio de gravação, confronto em que, segundo todos os relatos, Ocean levou a melhor.

No mindinho, um anel de luto: saudade de alguém que se perdeu, ou de uma versão anterior de si mesmo que não existe mais.

Outro detalhe chamativo da capa é a grafia do nome do álbum: acima da foto, lê-se “Blond”, sem o “e”, enquanto nos serviços de streaming o título aparece como “Blonde”, com a letra final.

Em francês, “blond” é o adjetivo masculino para “loiro”, e “blonde”, o feminino. A interpretação mais aceita entre fãs é que essa dualidade ecoa a bissexualidade de Ocean — masculino e feminino convivendo no mesmo espaço, sem hierarquia, sem resolução, sem a obrigação de escolher um lado.

Voltando a falar sobre o álbum, musicalmente, Blonde é uma das obras mais difíceis de classificar da última década. É, tecnicamente, Pop (segundo classificação do Apple Music), mas passa por indie rock, R&B, psicodelia, trip hop, baladas quase clássicas e uma faixa de quase dez minutos que é parte entrevista, parte poesia, parte fluxo de consciência.

Os produtores formam um elenco improvável: Pharrell Williams, James Blake, Jon Brion, Rostam Batmanglij (do Vampire Weekend), Tyler, the Creator e o próprio Ocean.

Numa era em que o R&B dependia de produções densas para dominar a pista, Ocean escolheu o etéreo, vazio, o silêncio como elemento musical.

Existe ainda uma estrutura oculta no disco. Blonde se divide exatamente ao meio na virada de beat dentro de “Nights”: a primeira parte é um synth pop do presente; a segunda, um trip hop do passado.

É como se Ocean virasse o álbum de lado ali, no ponto exato. A teoria que circula é que o álbum é um espelho: as faixas antes da virada seriam o dia, mais animadas, abertas, voltadas para fora, e as de depois, a noite, mais íntimas, densas, voltadas para dentro.

Dois discos em um. A cada escuta, uma perspectiva diferente.

Além desse segredo, Blonde não revela de cara as participações presentes em si. Quando o disco saiu, a revista Boys Don’t Cry, lançada como complemento, listava mais de 40 colaboradores sem explicar quem fez o quê.

Os créditos completos só apareceriam meses depois, com o lançamento físico. O que veio à tona: Beyoncé canta em “Pink + White”. Kanye West é coautor de “White Ferrari”, ao lado de John Lennon e Paul McCartney, porque a faixa interpola os Beatles.

E Yung Lean, o rapper sueco que redefiniu o rap sentimental, aparece como vocalista em “Godspeed”.

Dez anos depois, a influência do álbum é difícil de medir, e ainda mais de delimitar, porque ela não se apresenta como “influência”; ela virou parte da rotina. O disco abandonou estruturas pop tradicionais, refrões óbvios e produções densas em favor de algo minimalista, abstrato e experimental — misturando soul, psicodelia e vanguarda num momento em que o R&B mainstream caminhava justamente na direção oposta.

Abriu espaço para a vulnerabilidade masculina na música negra de um jeito que o gênero raramente tinha visto. E foi lançado de forma totalmente independente, pela própria gravadora de Ocean, a Boys Don’t Cry, depois de anos em uma grande major, sem distribuição física convencional, sem campanha, sem nada do que a indústria dizia ser necessário para o sucesso.

E funcionou. Isso, por si só, mudou o que artistas passaram a acreditar ser possível.

A influência não ficou apenas na teoria. Na prática, SZA, Daniel Caesar, Steve Lacy, Brent Faiyaz, Omar Apollo, Giveon, Tems e Khamari — entre tantos outros — constroem sobre o terreno que Ocean abriu.

Quando Breaux publicou aquela carta, em 2012, e lançou Blonde anos depois, não estava tentando inaugurar um movimento nem escrever um manifesto; só queria ser honesto.

E isso foi o gesto mais poderoso que ele poderia ter feito.

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Fontes

Informação baseada em material público de Rolling Stone Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • Rolling Stone Brasillink

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