O presidente da Argentina, Javier Milei, suspendeu uma viagem a Londres prevista para o final de outubro em meio a uma crise com o Reino Unido pela soberania das Ilhas Malvinas, território em disputa entre os dois países há quase 200 anos.
Uma visita ao país europeu estava nos planos do ultraliberal desde o início de seu governo, quando o arquipélago não era uma prioridade de sua política internacional, mas foi finalmente cancelada na tarde desta quinta-feira (10), segundo informações da imprensa argentina confirmadas por uma funcionária da gestão à Folha.
O governo não justificou a mudança repentina, mas a decisão ocorre uma semana após Milei fazer um pronunciamento em rede nacional para afirmar que as Malvinas são argentinas "por história e por direito" e anunciar medidas mais duras contra violações à soberania do país.
Desde então, o governo afirmou ter iniciado o processo para sancionar 60 empresários ou companhias pela exploração de recursos naturais do arquipélago, anunciou denúncias penais contra petrolíferas que atuam nas ilhas e disse que priorizaria o desenvolvimento de uma base naval no orçamento de 2027.
O incentivo para a mudança de rota na diplomacia internacional foi um dos principais aliados de Milei, Donald Trump. No começo da semana passada, o presidente americano disse não descartar uma revisão da neutralidade que Washington adota em relação à soberania do arquipélago.
Essa possibilidade já havia sido aventada pela imprensa americana após o republicano entrar em choque com o Reino Unido no início do ano. O motivo da discordância, na época, foi o apoio hesitante de Londres à guerra que Washington lançou contra o Irã.
O país europeu, por sua vez, já respondeu à retórica de Milei. Na sexta (4), um dia após o pronunciamento de Milei, o ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, afirmou que o compromisso com as Ilhas Malvinas é "absoluto e inamovível.
Nesta quarta (9), o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, foi questionado sobre o assunto no Parlamento e disse que sempre respeitará o desejo dos habitantes locais —em um referendo de 2013, 99,8% da população das ilhas votou para permanecer como um território ultramarino do Reino Unido.
Vamos ser implacáveis ao defender isso", afirmou o trabalhista. Ao questionamento de uma parlamentar sobre o orçamento para defesa, prometeu aumentar verbas para a área.
Este ministro, como todos os ministros, vai disponibilizar o dinheiro para a defesa. Este é o meu compromisso com o país", disse.
Essa é justamente uma das razões pelas quais Trump entra em choque não apenas com o Reino Unido, mas também com outros aliados europeus. O republicano afirma reiteradamente que os gastos dos Estados Unidos na Otan, da qual Londres também faz parte, é desproporcionalmente superior em relação ao investimento dos outros membros da aliança militar ocidental.
Agora, essa preocupação ganha novos contornos. Na semana passada, o também ex-premiê britânico Boris Johnson cobrou Burnham em sua coluna de opinião no jornal Daily Mail.
Ele precisa afirmar com veemência que as Ilhas Malvinas são britânicas", afirmou. "Acima de tudo, ele precisa demonstrar a viabilidade prática desse compromisso, enviando reforços agora.
Não importa se são mais aviões, tropas ou navios. Os argentinos precisam entender agora que (...) o Reino Unido tem um compromisso profundo e inabalável com a defesa da democracia", continuou, em referência à votação na qual os ilhéus decidiram que querem continuar sendo governados pelo país europeu.
Trata-se do mesmo político que, em 2024, visitou Milei durante uma viagem a vários países da região para promever seu livro de memórias. Durante a reunião de mais de uma hora, o britânico teria prometido providenciar um encontro entre o presidente argentino e Mick Jagger —o ultraliberal, que teve uma banda cover dos Rolling Stones durante a juventude, é fã do cantor.
Milei é anglófilo e thatcherista", disse Johnson em seu artigo no Daily Mail, em referência à admiração do argentino por Margaret Thatcher, no poder do Reino Unido durante a Guerra das Malvinas, em 1982.
Não acredito nem por um segundo que ele queira um confronto com o Reino Unido sobre essa questão. Mas ele também enfrenta uma difícil campanha de reeleição e pode achar necessário inflamar o sentimento público da maneira nacionalista tradicional.
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