Planícies remotas da África do Sul e da Austrália Ocidental vão receber alguns dos radiotelescópios mais sensíveis alguma vez concebidos; no entanto, aumento da interferência terrestre poderá dificultar identificação de sinais de origem cósmica, comprometendo a escuta do Universo.
Em algum lugar*, nas vastas profundezas do espaço, uma partícula de luz abandona uma fonte distante, atravessa milhares de anos-luz de espaço vazio e é finalmente captada por um radiotelescópio no planeta Terra.
Mas e se essa fonte de emissão não tiver uma origem natural? Há mais de 70 anos que os radioastrónomos observam o céu em busca de sinais provenientes de estrelas distantes, procurando responder a uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos sós no Universo.
A procura de inteligência extraterrestre, conhecida pela sigla Seti, poderá estar prestes a entrar no capítulo mais ambicioso da sua história recente.
Nas planícies remotas da África do Sul e da Austrália Ocidental, o Square Kilometre Array, SKA, um observatório internacional, está a construir dois dos radiotelescópios mais sensíveis alguma vez concebidos.
Com milhares de antenas e antenas parabólicas a trabalhar em conjunto, o SKA irá aumentar significativamente a sensibilidade e a velocidade de observação do cosmos, possibilitando a escuta de uma vasta extensão da nossa galáxia ainda por descobrir.
No entanto, este novo capítulo depende inteiramente de um recurso cada vez mais escasso: um céu livre de interferências radioelétricas.
Os sinais procurados pelo Seti são ténues, milhares de vezes mais fracos do que o sinal de um telemóvel. Um único transmissor mal filtrado, em órbita ou no solo, é suficiente para inviabilizar milhares de horas de observação.
Os satélites constituem outro desafio para a observação. Para além das transmissões intencionais, muitos emitem também sinais eletromagnéticos não intencionais, sobrepondo-se aos sinais cósmicos reais em todo o céu.
Sem um céu limpo de interferências, a probabilidade de falsos positivos, causados por interferência terrestre aumentará, dificultando a identificação de sinais de origem cósmica.
No próximo ano, a Conferência Mundial de Radiocomunicações, WRC-27, organizada pela União Internacional de Telecomunicações, UIT, em Xangai, na China, moldará o silêncio do céu durante décadas.
A agenda conta com a proteção das zonas livres de interferência em torno de observatórios de referência e das bandas atribuídas à radioastronomia, entre outros pontos críticos para a radioastronomia mundial.
A comunidade astronómica está a trabalhar com reguladores, operadores e agências espaciais para encontrar compromissos que permitam a coexistência entre conectividade e descoberta.
A WRC-27 e as medidas adotadas nos próximos anos poderão decidir até que ponto a humanidade consegue continuar a escutar com atenção suficiente para finalmente captar uma resposta do espaço que nos rodeia.
Fontes
Informação baseada em material público de ONU News, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.