Espanha já está com os olhos postos no céu. Ou, pelo menos, pronta para isso. Mas nem todo o país vai poder ver o mesmo. O eclipse total do Sol de 12 de agosto é, segundo meteorologistas e astrónomos, um fenómeno que vai literalmente dividir o território em dois: os que vão ver o Sol desaparecer por completo e os que ficam à porta.
Fora da faixa: Madrid, Barcelona e grande parte do sulA faixa de totalidade, o corredor estreito onde a Lua cobre 100% do Sol, atravessa a Península de oeste para este e passa por capitais como A Corunha, Oviedo, Leão, Bilbau, Saragoça, Valência ou Palma.
Fora desse traçado, o resto do país verá um eclipse parcial, mais ou menos profundo consoante a distância à linha central. Madrid e Barcelona são as duas grandes ausentes.
A faixa passa mesmo entre as duas cidades, por isso os seus habitantes vão assistir a uma tarde com o Sol quase totalmente encoberto, até 99% nalguns pontos, mas sem aqueles segundos de escuridão total que tornam o fenómeno algo diferente de tudo o resto.
Huesca e Zamora ficam mesmo no limite da totalidade, pelo que as irregularidades do relevo lunar podem tornar o momento-chave imperceptível a olho nu. E toda a metade sul da Península, pura e simplesmente, terá de se contentar com um eclipse parcial.
Inimigo que ninguém controla: as nuvensEstar na faixa certa também não garante nada se o céu não ajudar. A costa cantábrica, litoral da Galiza, Astúrias e Cantábria, traz um histórico meteorológico pouco favorável nesta altura, com probabilidades de céu limpo que, em algumas análises, não chegam aos 50%.
As previsões mais recentes apontam para melhores hipóteses no oeste e interior da Galiza, Castela e Leão ou Baleares, embora os modelos ainda possam mudar até à última hora.
Para quem tenha viajado centenas de quilómetros em busca da totalidade, uma nuvem mal colocada sobre o horizonte oeste pode estragar em segundos aquilo que a geografia lhe tinha concedido.
Quem continua a trabalhar enquanto o céu escureceEm Espanha não existe qualquer autorização especial para abandonar o posto de trabalho durante o eclipse, nem a legislação laboral o contempla como motivo de força maior.
Assim, motoristas, trabalhadores da hotelaria ou da construção que estiverem de serviço esta tarde vão, em princípio, manter a jornada enquanto à sua volta tudo pára para olhar para cima.
Na melhor das hipóteses, é possível encaixar o momento de totalidade, pouco mais de um minuto nos melhores locais, na pausa de 15 minutos prevista no Estatuto dos Trabalhadores para jornadas superiores a seis horas, mas isso exige acordo prévio com a empresa.
A DGT, aliás, montou um dispositivo especial perante a previsão de filas nas zonas de maior afluência, pelo que grande parte do pessoal das estradas terá esta tarde bem mais trabalho do que o habitual.
Por segurança, melhor não olhar diretamenteHá quem pudesse vê-lo e opte por não o fazer, ou simplesmente não deva fazê-lo. Os oftalmologistas têm insistido há semanas que olhar para o Sol sem óculos certificados ISO 12312-2, nem sequer por alguns segundos, e nem com óculos de sol comuns, radiografias ou filtros improvisados, pode provocar retinopatia solar: uma queimadura da retina que não dói, não se nota no momento e pode demorar entre 4 e 48 horas a manifestar-se com uma mancha escura no centro do campo de visão.
O Grupo Social ONCE distribuiu cerca de dois milhões de óculos certificados por todo o país precisamente para evitar acidentes, e as sociedades de oftalmologia recomendam que os mais novos, em particular, não observem o fenómeno sem supervisão direta de um adulto.
Quem não tiver proteção homologada à mão tem, na prática, duas opções seguras: ou não olhar ou fazê-lo através de um ‘streaming’. A ESA vai oferecer duas transmissões.
A primeira será a emissão oficial, realizada a partir do Observatório Astrofísico de Javalambre, em Teruel. Incluirá entrevistas em direto, explicações, imagens e informação sobre eclipses, além da transmissão da totalidade às 20:31.
Será em inglês e poderá ser seguida através da ESA Web TV e do YouTube. A segunda transmissão da ESA mostrará imagens captadas por telescópios, sem comentários nem explicações: apenas o eclipse em direto, também disponível no YouTube.
Por sua vez, a NASA também terá o seu próprio ‘streaming’, que começará às 19:15. A emissão mostrará diferentes vistas do eclipse à medida que avança na sua trajetória e incluirá entrevistas com especialistas.
Poderá ser seguida tanto no site da NASA como através do YouTube, com ligações a vários pontos onde se poderá observar a totalidade, como a Islândia às 19:45 ou Espanha às 20:28.
Fenómeno que também se pode ouvirPara as pessoas cegas ou com baixa visão, o eclipse tem sido tradicionalmente um espetáculo do qual ficavam excluídas por definição.
Isso muda este ano com o projeto Eclipse Inclusivo, promovido pelo CSIC, que está a distribuir dispositivos LightSound em vários pontos de observação do país. O aparelho traduz em tempo real a intensidade da luz solar em som: um tom que se vai apagando e tornando mais grave à medida que a Lua cobre o disco solar, até desaparecer quase por completo durante a totalidade.
Não é o mesmo que ver, mas é uma forma de acompanhar, no mesmo instante, aquilo que milhões de pessoas vão estar a olhar no céu para partilhar esta tarde. Quem não o quer verNem toda a gente que fica sem eclipse esta tarde é porque não possa: há quem, pura e simplesmente, prefira não sair para o ver.
Nas últimas semanas circularam nas redes sociais vários boatos que misturam o fenómeno com teorias da conspiração, desde avisos sobre alegados problemas neurológicos por observá-lo até à afirmação, sem qualquer base científica, de que a Terra perderia a gravidade durante sete segundos, atribuída a um inexistente documento confidencial da NASA.
Os verificadores andam há dias a desmontar estas mensagens, mas elas continuam a repetir-se, e algumas chegam a advertir literalmente para “não sair” durante o eclipse.
Para uma parte da população, esse ‘zum-zum’ basta para ficar em casa com as persianas corridas. Depois há quem não tema o fenómeno, mas sim tudo o que o rodeia.
As localidades situadas na faixa de totalidade registaram um aumento de mais de 800% nas pesquisas turísticas face a um ano normal, e muitos moradores dessas localidades já avisam que vão passar a tarde longe da multidão, deixando os melhores locais para ver o Sol aos milhares de visitantes que têm chegado ao ponto de colapsar estradas e alojamentos.
Para eles, o eclipse não é tanto um espetáculo astronómico como uma invasão anual que preferem evitar.
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Fontes
Informação baseada em material público de Euronews PT, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.