O republicano voltou à Casa Branca prometendo reduzir gastos, diminuir o tamanho do governo e estimular a economia para colocar as contas públicas em ordem. Até agora, porém, a dívida continuou crescendo.
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- 🔎 Além de a dívida ter aumentado, o custo para financiá-la também subiu, à medida que os rendimentos de alguns títulos do governo americano chegaram aos níveis mais altos em quase duas décadas.
- 🔎 Trump, portanto, enfrenta uma contradição que também aparece em outros países, inclusive no Brasil: reduzir impostos pode estimular a economia, mas, se a queda na arrecadação não vier acompanhada de uma redução equivalente nos gastos, a dívida tende a continuar crescendo.
- 🔎 Juros mais altos encarecem financiamentos imobiliários, enquanto a inflação reduz o poder de compra quando os preços sobem mais rapidamente que os salários.
Trump defende avanço da economia e política de imigração.
Mas o problema não começou com Trump. A dívida americana vem aumentando há décadas, sob governos republicanos e democratas. Entre os fatores estão cortes de impostos, guerras, programas de estímulo à economia e, mais recentemente, o envelhecimento da população.
Em janeiro de 2025, Trump assumiu novamente a Presidência prometendo mudar essa trajetória, mas também ampliou os gastos e reduziu impostos. O resultado é uma dívida cada vez maior e uma conta mais pesada para o governo.
Especialistas em orçamento alertam que, sem mudanças, o governo poderá ser pressionado a tomar medidas politicamente impopulares, como aumentar impostos ou reduzir benefícios sociais, incluindo a Previdência Social.
Para ela, Trump não é o único responsável pela situação atual, mas ocupa um papel central por definir a agenda do governo.
Trump prometeu cortar gastos. A dívida continuou subindo.
A promessa de reduzir o tamanho do governo esteve no centro da campanha de Trump. Durante o primeiro ano do segundo mandato, milhares de funcionários federais foram demitidos e programas considerados pelo governo como desperdício foram eliminados.
O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou que Trump foi o “primeiro presidente a combater seriamente o desperdício, a fraude e os abusos generalizados em todo o governo federal”.
O déficit anual — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta — chegou a cair em 2025, mas apenas marginalmente. A dívida total, por sua vez, continuou aumentando.
A trajetória da dívida americana atravessa governos dos dois partidos. Presidentes republicanos como Ronald Reagan e George W. Bush ampliaram os déficits com cortes de impostos, enquanto as guerras durante os governos Bush também aumentaram os gastos.
Já os democratas Barack Obama e Joe Biden adotaram grandes pacotes de estímulo depois da crise financeira de 2008 e durante a pandemia de Covid-19, respectivamente.
Bill Clinton foi uma exceção. Em seu segundo mandato, o governo registrou modestos superávits anuais, em um período de forte crescimento econômico e de reformas nos programas de assistência social, resultado de um acordo com um Congresso controlado pelos republicanos.
Por isso, é difícil atribuir a dívida a um único presidente ou partido. Republicanos e democratas, em diferentes momentos, aumentaram os gastos ou reduziram as receitas do governo.
Há ainda uma pressão sobre as contas públicas que não depende de quem está na Casa Branca: o envelhecimento da população.
A geração conhecida como baby boom, nascida nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, está se aposentando. Com isso, aumentam os gastos com benefícios sociais, enquanto a arrecadação de impostos sobre os salários não é suficiente para cobrir os pagamentos futuros.
É um problema semelhante, em sua lógica, ao desafio enfrentado por outros países que estão envelhecendo: mais pessoas passam a receber benefícios do governo, enquanto proporcionalmente há menos trabalhadores contribuindo para financiá-los.
Nos EUA, gerações anteriores de republicanos defenderam mudanças nesses programas. Trump, porém, levou o partido a se afastar dessa posição ao criar novos programas de proteção social, como contas de investimento apoiadas pelo governo para recém-nascidos.
A aposta de Trump: crescer para pagar a conta.
A estratégia de Trump parte de uma ideia antiga entre os conservadores americanos: impostos menores e menos intervenção do governo poderiam estimular investimentos e crescimento econômico.
Com uma economia maior, a arrecadação aumentaria e seria possível reduzir o peso da dívida sem recorrer a aumentos de impostos ou a cortes profundos nos programas sociais.
Trump resumiu essa aposta em agosto: “O crescimento vai resolver isso com muita facilidade”.
No fim de agosto, no Salão Oval, ele afirmou que suas políticas poderiam elevar a produção econômica dos EUA em 20% ao ano.
Segundo o texto, esse ritmo de crescimento foi alcançado apenas uma vez desde 1947, no terceiro trimestre de 2020, quando a economia se recuperou após o fim das restrições relacionadas à Covid-19.
O otimismo de Trump contrasta com o alerta de Kevin Warsh, chefe do Federal Reserve (Fed), o banco central americano.
Segundo Warsh, o volume recorde de investimentos em inteligência artificial e grandes empresas de tecnologia indica uma disputa por capital e pode pressionar as taxas de juros para cima, aumentando também o custo de financiamento do governo.
O corte de gastos ficou longe da promessa.
Durante a campanha, Trump prometeu que os cortes de impostos seriam acompanhados por grandes reduções nos gastos públicos. Para isso, encarregou Elon Musk de comandar o agora extinto Departamento de Eficiência Governamental.
Segundo o Escritório de Responsabilidade Governamental, porém, esse cálculo se baseava em alegações exageradas ou que não podiam ser verificadas. A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário sobre as conclusões.
Para MacGuineas, o problema não está necessariamente em reduzir impostos, mas em fazê-lo sem cortar gastos na mesma proporção.
O mecanismo é conhecido também no Brasil: quando o governo gasta mais do que arrecada por um período prolongado, a conta não desaparece. Em algum momento, é preciso aumentar receitas, cortar despesas ou conviver com uma dívida maior e mais cara.
No caso americano, porém, essa escolha se tornou especialmente difícil porque envolve programas que atendem milhões de pessoas e decisões acumuladas por governos de diferentes partidos.
Autoridades atuais e ex-integrantes do governo afirmam que a Casa Branca não recebe o devido reconhecimento pelos avanços econômicos e pelas medidas para reduzir os preços ao consumidor, que, segundo eles, poderão melhorar a situação fiscal.
William Emmons, ex-vice-presidente de sistemas do Federal Reserve de St. Louis, vê a situação de outra maneira. Para ele, Trump herdou um cenário fiscal ruim, mas suas políticas o agravaram.
* Com informações de Jacob Bogage, da agência de notícias Reuters.
Em números
- Dívida dos EUA passa de R$ 200 trilhões
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