Kevin Warsh e Scott Bessent ocupam os dois cargos que ancoram a confiança do mercado financeiro global: a presidência do Fed e a Secretaria do Tesouro dos EUA. Dessas duas cadeiras saem sinais que ajudam a determinar o custo do dinheiro no mundo, inclusive no Brasil.
Os dois são amigos de longa data, compartilham um mentor, o investidor Stanley Druckenmiller, e se encontram semanalmente para tomar café da manhã.
Recentemente, porém, o que ambos comunicam gera mais dúvida do que segurança e virou preocupação central de agentes econômicos mundo afora. O motivo: duas decisões tomadas quase ao mesmo tempo, em lados opostos de Washington.
Bessent disse que as recompras poderiam crescer ainda mais.
O célebre investidor Stanley Druckenmiller chamou a manobra de um erro; outros investidores e economistas também criticaram a iniciativa. Para os críticos, o precedente pesa mais do que o tamanho da operação: o Tesouro tentando influenciar diretamente o preço dos títulos longos, tradicionalmente determinado pelo mercado e afetado pela política monetária do Fed.
O silêncio de Warsh - Warsh assumiu o Fed em 22 de maio prometendo falar menos. Decidiu reduzir o uso de indicações explícitas sobre o rumo da política monetária —o chamado forward guidance— e deixar que o mercado reagisse mais aos dados do que às pistas do banco central.
Na entrevista coletiva de 29 de julho, recusou-se a oferecer uma orientação clara sobre o próximo movimento dos juros, enquanto a inflação permanecia acima da meta.
Naquela reunião, três dos integrantes do Fomc votaram a favor de uma alta, algo incomum tão cedo no mandato de um novo presidente.
Paul Krugman foi duríssimo em sua avaliação. Em texto publicado em 31 de julho, sob o título The Bond Market Doesn't Like Bullshit, afirmou que a atuação de Warsh na entrevista coletiva havia sido confusa e evasiva e sustentou que o presidente do Fed havia fracassado em oferecer ao mercado a clareza necessária sobre a política monetária.
O Treasury de 30 anos chegou a níveis não vistos desde 2007, pressionado pela incerteza sobre a trajetória dos juros e por preocupações com inflação, déficit e oferta de dívida.
É a combinação das duas decisões, mais do que cada uma isolada, que incomoda os mercados. O Tesouro empurra os juros longos para baixo ao recomprar dívida; o Fed, por ora, mantém os juros de curto prazo sem elevá-los, embora a inflação permaneça acima da meta.
E isso preocupa: se os juros permanecerem baixos enquanto a inflação continua elevada, aumenta o risco de que ela se acomode em um patamar mais alto, obrigando o Fed posteriormente a elevar os juros mais do que teria sido necessário para contê-la desde o início, como argumentou Krugman.
Há também um risco estrutural: se o Tesouro passar a intervir sistematicamente para conter a alta dos juros quando a dívida cresce, enfraquece um dos freios de mercado contra o excesso de gastos —o próprio aumento do custo de financiamento.
A postura de Warsh perde força justamente porque o Tesouro mexe nos mesmos juros que ele pretende deixar o mercado determinar. Bessent e Warsh são amigos de longa data e compartilham um mentor, Druckenmiller, o que torna essa divergência ainda mais notável.
Bessent confirmou, aliás, que os dois se encontram para tomar café da manhã semanalmente.
Riscos e mais riscos - O pano de fundo agrava o quadro: a inflação segue acima da meta de 2% do Fed, com o PCE em 3,7% em julho, enquanto o núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, ficou em 3,3%.
Warsh chega a Jackson Hole nesse ambiente: no primeiro discurso como presidente do Fed, na sexta (28), terá de responder à pergunta que vem evitando: até onde está disposto a levar os juros.
O mercado, que já atribui uma probabilidade relevante a uma alta em setembro, espera algum sinal sobre o próximo passo.
Sou melhor quando vejo a injustiça e posso ir atrás dela: eu vejo aqui e sinto aqui. Eu sabia, mas não tinha estado aqui, não tinha visto as cenas que vi hoje. Saio mais determinado a fazer alguma coisa.