O reluzente novo arranha-céu de vigilância ergue-se sobre a cidade mexicana de Ciudad Juárez, perto da fronteira com os Estados Unidos, concebido como símbolo de uma cooperação mais estreita contra os cartéis, cujo tráfico mata dezenas de milhares de pessoas todos os anos.
Neste verão, operários davam os últimos retoques na Torre Centinela, que tem como objetivo centralizar as equipes e a coleta de inteligência do estado mexicano de Chihuahua, em uma iniciativa de alta tecnologia para proteger o comércio e reduzir as altíssimas taxas de homicídio.
Seu 18º andar abrigará um centro de integração de dados de inteligência, incluindo uma sala de situação, onde representantes de governos estrangeiros poderão trabalhar ao lado da polícia estadual.
Enquanto a torre era construída, a governadora de Chihuahua, Maru Campos, reuniu-se com diversos órgãos americanos e afirmou que o projeto permitiria o compartilhamento de informações em tempo real entre os dois países.
Mas a torre, em vez disso, contempla um cenário de tensões crescentes tanto entre as duas nações quanto entre os maiores partidos políticos do México, em meio aos esforços para combater os cartéis que dominam grandes áreas do território do país.
Autoridades de segurança já começaram a trabalhar na torre, mas moradores dizem que ela é apenas um começo. "Juárez não tem muitos prédios altos, ficou bonita e tudo mais.
é um bom esforço, mas tem alcance limitado", disse um empresário. "O crime organizado ainda tem muito poder.
O governo do presidente republicano, Donald Trump, tem adotado um tom cada vez mais confrontador diante das alegações de colaboração entre políticos e quadrilhas de narcotraficantes, enquanto os próprios mexicanos divergem sobre até que ponto devem dar aos americanos poder para agir contra os traficantes em seu território.
O estado de Chihuahua —por onde redes do Cartel de Sinaloa e de outros grupos levam drogas para os EUA, enquanto organizações menores disputam o mercado local— é governado pelo oposicionista Partido Ação Nacional (PAN), que defende uma cooperação mais estreita com Washington.
Não dá para ver os Estados Unidos da Cidade do México. Nós os vemos todos os dias", disse Gilberto Loya, chefe da segurança estadual de Chihuahua. "Não os vemos como imperialistas, mas como parceiros comerciais.
Porém, a presidente Claudia Sheinbaum deixou de buscar laços mais estreitos com Trump e adotou uma postura mais hostil desde que a Casa Branca apresentou acusações de narcotráfico contra um governador mexicano em exercício, em abril, levantando a possibilidade de que outros políticos enfrentem denúncias semelhantes.
No início do mesmo mês, um acidente de carro matou dois agentes americanos infiltrados na região montanhosa de Chihuahua, expondo a atividade secreta dos EUA contra o narcotráfico em território mexicano.
Podemos colaborar, coordenar, mas não pode haver operações conjuntas em terra, porque é para isso que existem as autoridades mexicanas", disse Sheinbaum em maio.
Nenhum governo estrangeiro pode fazer coisas no México à margem da lei.
Em toda a América Latina, Trump tem pressionado por uma maior participação militar dos EUA no combate ao crime.
Embora os mexicanos queiram reduzir a violência ligada aos cartéis, a intervenção direta da Casa Branca é uma questão politicamente explosiva em um país que foi invadido três vezes pelos americanos e perdeu metade de seu território no século 19.
Pouquíssimos políticos apoiam abertamente a presença de agentes dos Estados Unidos em território mexicano.
O antecessor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador, passou seis anos restringindo a cooperação com os americanos no combate aos cartéis. Ela adota um discurso semelhante sobre soberania, mas, na prática, seu ministro da Segurança, Omar García Harfuch, recebeu elogios entusiasmados de autoridades americanas por sua ampla cooperação.
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…