Mãe de três filhos, ela estava sentada em um centro de reabilitação ucraniano, agarrada ao telefone, torcendo que ele tocasse, tentando juntar os cacos de sua família.
Liliia Prutian, 55, trabalhava como paramédica militar quando as tropas russas invadiram o país, em fevereiro de 2022. Ela foi capturada, sofreu abusos, foi acusada de terrorismo e permaneceu presa por dois anos e meio.
Após ser libertada, passou boa parte do tempo nesse centro de reabilitação, em uma floresta nos arredores de Kiev, comparecendo a entrevistas com autoridades, consultas médicas, sessões de terapia em grupo, aulas de equitação e esqui, massagens, aulas de ioga e uma cirurgia de reconstrução do tímpano direito.
Mas o que Prutian realmente queria era recuperar o filho mais novo, Dima Zahrebaiev, que não via havia três anos. Agora com 20 anos, ele vivia sozinho na casa da família, no vilarejo ocupado pela Rússia desde 2022.
Temendo que ele fosse obrigado a servir no Exército russo, ela estava desesperada para resgatá-lo, embora a operação fosse complexa e perigosa.
Por fim, pouco antes das 19h de um domingo, o telefone tocou, e ela atendeu antes que o primeiro toque terminasse. Esforçando-se para manter a voz firme, mediu as palavras com cautela, sem saber quem poderia estar ouvindo.
Dima, oi, como você está?", perguntou. "Está tudo bem.
A separação dos dois é a história de muitas famílias nos 20% do território ucraniano controlados por Moscou. Milhões de pessoas fugiram dessas áreas ocupadas, mas outros milhões ficaram, por não quererem ou não conseguirem partir.
Enquanto cidades eram reduzidas a escombros, famílias como a de Prutian foram divididas —uma fonte permanente de angústia e uma das razões pelas quais a Ucrânia resiste a ceder território nas eventuais negociações de paz.
O pai dos três filhos de Prutian morreu anos atrás. O mais velho servia no Exército ucraniano. O filho do meio entrou para o Exército russo, deixando Dima, de longe o caçula, entregue à própria sorte.
Em questão de dias, Dima deixaria a única casa que conhecera para encontrar a mãe em Kiev, cidade onde nunca estivera. Arrumou uma grande bolsa esportiva, dobrando dois dos vestidos favoritos da mãe —um rosa e outro azul—, além de algumas camisetas e blusas de frio.
Enfiou também sua bola de futebol e seu boné.
Dima escondeu o passaporte temporário dentro da mochila. E esperou.
Prutian criou os filhos na casa de blocos de concreto que seus pais haviam construído em Blizhnie, um vilarejo de cerca de 750 habitantes na região de Donetsk, com silos de grãos, fazendas e construções baixas.
Em 2014, manifestantes derrubaram o presidente pró-Rússia da Ucrânia, Viktor Yanukovich, e Moscou retaliou deflagrando uma guerra no leste do país. O Kremlin apoiou milícias separatistas e enviou suas próprias forças às regiões de Donetsk e Lugansk, na área conhecida como Donbass.
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mundo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.