Pela primeira vez em 20 anos, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) aprovou nesta quarta-feira (9) uma resolução denunciando o Irã ao Conselho de Segurança da ONU por não cumprir as obrigações de transparência em relação ao seu programa nuclear.
A medida foi proposta pelo governo dos Estados Unidos, cuja guerra inconclusa contra a teocracia iniciada em fevereiro tinha como uma de suas premissas a necessidade de impedir Teerã de fabricar a bomba atômica.
Os americanos tiveram apoio de aliados europeus na AIEA, órgão ligado, mas não subordinado à ONU. Segundo diplomatas, a votação fechada no ente executivo da agência, o Conselho de Governadores, teve 23 votos a favor, 8 abstenções incluindo o Brasil e 3 contra —Rússia, China e Níger.
A decisão é política, já que a AIEA não tem poderes de impor penalidades. Ainda assim, ao encaminhar a queixa ao Conselho de Segurança, aumenta-se a pressão sobre Teerã, embora na prática isso possa ser inútil.
Russos e chineses, aliados do Irã, são 2 dos 5 votos com direito a veto no colegiado da ONU.
Assim, fica estabelecido um arcabouço técnico contra os iranianos em uma negociação.
O Irã, que havia ameaçado retaliar em caso de aprovação da resolução, apenas se queixou de seus termos. Disse que "a situação atual é resultado dos atos criminosos de agressão pelos EUA e pelo regime israelense", sua representação em Viena, sede da AIEA, escreveu no X.
Os iranianos disseram que o governo de Donald Trump busca um "objetivo ilusório" de forçar o país persa a "se render e a tomar seu petróleo.
A medida ocorre quando as trocas pontuais de fogo entre os rivais voltaram a ocorrer no estreito de Hormuz, centro nervoso da disputa que era via de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo antes da guerra.
A queixa da AIEA decorre da falta de inspeções da agência nas instalações nucleares iranianas. Elas eram previstas tanto pela adesão do país ao Tratado de Não Proliferação Nuclear como pelas provisões do acordo com os EUA e outros países de 2015.
Trump, no seu primeiro mandato, retirou-se do arranjo em 2018. De lá para cá, segundo a última conta da AIEA, o Irã acumulou 440,9 kg de urânio enriquecido a 60%, suficiente para produzir ogivas nucleares rudimentares.
Se o material for elevado a 90%, pode armar até dez bombas de capacidade plena.
Como disse à Folha em junho o diretor-geral da AIEA, o argentino Rafael Grossi, nenhum país do mundo tem tal estoque e ele deixou de ser fiscalizado depois que Israel e EUA atacaram o Irã brevemente em 2025 —continuando o conflito neste ano.
O Irã alega que a inspeção não é possível justamente devido à guerra, criando um impasse. Grossi diz que apenas a volta das inspeções poderá garantir que o país não está desenvolvendo a bomba.
O país também diz que a AIEA trabalha em conluio com os EUA, o que Grossi nega. No ano passado, os ataques contra o regime começaram um dia após a agência denunciar o estado de não cumprimento de obrigações de verificação por Teerã, algo reforçado em nova medida aprovada em junho.
Nesta quarta também foi divulgado um estudo de imagens de satélite pelo americano Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) sobre o principal conjunto de instalações nucleares do Irã.
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