Ir para o conteúdo
Mundo Revisado por ULTRA AI

'Acreditei em tudo o que disseram': a mulher que alugou apartamento a condenados pelos ataques do 11 de

Americana fala pela primeira vez sobre como conviveu com envolvidos nos atentados de 2001

7 min de leitura
Mundo — imagem padrão

Holly Ratchford ainda não consegue acreditar que aquele homem que morou no complexo residencial administrado por ela seria acusado de envolvimento no dia mais sombrio da história recente dos Estados Unidos.

É quase impossível para mim conciliar quem ele disse que era e quem ele realmente é", conta ela à BBC. "Ainda tenho dificuldade com isso.

O homem em questão é o cidadão saudita Omar al-Bayoumi. Com pouco mais de 40 anos de idade, ele se mudou com sua família para o complexo habitacional em San Diego, no estado americano da Califórnia, em setembro de 1999.

O novo morador dos Apartamentos Parkwood, número 152, rapidamente se tornou presença regular nas festas de Ratchford na piscina.

Ele era muito animado e sorridente", relembra ela. "Simplesmente muito, muito simpático.

Poucos meses depois, Bayoumi apresentaria Ratchford a dois homens "educados", aparentemente modestos, que também passariam a ser seus vizinhos.

A dupla ficaria famosa por ter sequestrado o voo 77 da American Airlines e levado a aeronave a se chocar contra o Pentágono, nos atentados de 11 de setembro de 2001.

Ratchford é assombrada pela sua conexão com os três homens há 25 anos. Ela sente ter sido adotada por Bayoumi desde o princípio.

Sempre que eu promovia festas, ele vinha e participava das atividades", relembra ela.

E a família dele a convidava para as refeições. "Eu gostava de ir.

No dia 11 de setembro de 2001, 19 membros da rede extremista islâmica al-Qaeda sequestraram quatro aviões de passageiros nos Estados Unidos.

Além do avião que se chocou contra o Pentágono (o quartel-general militar americano, perto de Washington DC), dois outros se dirigiram às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, causando o colapso dos dois edifícios.

Um quarto avião caiu em campo aberto na Pensilvânia, após a resistência dos passageiros a bordo.

Ao todo, morreram quase 3. 000 pessoas, incluindo cerca de 300 bombeiros e outros socorristas no World Trade Center.

Bayoumi é acusado de ter facilitado o plano do 11 de Setembro, fornecendo apoio para que os dois primeiros sequestradores chegassem aos Estados Unidos.

Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar moraram em Parkwood por vários meses, antes dos ataques.

O juiz federal encarregado da ação judicial das famílias do 11 de Setembro em Nova York concluiu, um ano atrás, que as evidências criaram "inferência razoável" de que Bayoumi e um diplomata saudita nos Estados Unidos mantiveram "coordenação com o governo saudita, fornecendo assistência aos sequestradores.

A decisão do juiz permitiu que o caso das famílias tivesse prosseguimento. A Arábia Saudita está recorrendo e, ao lado de Bayoumi, sempre negou as acusações.

Desde os ataques, Bayoumi é objeto de reportagens e especulações. Ratchford observou sua interação com os sequestradores e estava presente quando ele forneceu um ato fundamental de apoio para eles.

Ela ofereceu uma declaração secreta à Justiça de Nova York, mas nunca havia falado em público sobre o que havia visto.

Encontrar Holly Ratchford não foi uma tarefa fácil.

Após ter se envolvido involuntariamente na investigação sobre o que o governo americano descreve como "o mais grave ato criminoso ocorrido em solo americano na história moderna", ela se afastou o máximo que pôde da humanidade, dentro dos Estados Unidos.

Eu a encontrei em pleno deserto no Oeste americano, uma região dominada pelas cascavéis.

Ela me disse que evitava o noticiário e decididamente não falava com jornalistas. Mas, para minha surpresa, ela concordou em conversar comigo.

Sua entrevista apresenta dúvidas sobre a versão dos fatos contada por Bayoumi à polícia, ao FBI e à Justiça de Nova York.

Ela foi incluída no programa Intrigue: A 9/11 Story ("Intriga: uma história do 11 de Setembro), da BBC Radio 4, e no documentário de TV 9/11: The Saudi Connection ("11 de Setembro: A Conexão Saudita), ambos em inglês.

No início de 1999, Holly Ratchford havia dado a volta por cima. Ela havia se libertado da sua vida anterior.

Ratchford havia se mudado de um lugar para outro, se casado, engravidado e divorciado antes de completar 21 anos de idade. E, aos 27, ela tinha um emprego que adorava e uma casa.

Como a nova administradora de imóveis do Parkwood Apartments, um complexo ocupado de 175 apartamentos em prédios baixos e casas nos subúrbios de San Diego, ela conta que se sentia realizada.

Os imóveis nunca ficavam vazios por muito tempo. Mas não era a papelada, nem o alto salário, que fazia do seu emprego um sonho. Eram as pessoas.

Ratchford não só trabalhava em Parkwood, mas também morava ali. Seus clientes eram também seus vizinhos e muitos deles eram mais do que isso. Ela conta que eles haviam se tornado seus amigos.

Eu sempre dizia à minha equipe: 'Se vocês os fizerem se sentir em casa, eles ficarão", relembra ela.

Ratchford criou sua marca em Parkwood. Ela se sentia feliz e segura no mundo que construiu —um mundo onde ela conhecia tudo e todos.

Até que o sonho se desfez, de forma dramática e inesperada.

Omar al-Bayoumi se mudou para Parkwood afirmando ser um estudante em idade madura.

Eu sabia que ele ia para a escola", conta Ratchford. "Além disso, não sei ao certo o que ele fazia.

Mais de duas décadas depois, documentos do FBI tornados públicos e arquivos judiciais revelariam que Bayoumi, na verdade, interrompeu os estudos em 1998. Ele passava muito mais tempo organizando atividades religiosas na comunidade muçulmana, muitas vezes gravadas em vídeo.

Mas suas constantes filmagens e questionamentos levantaram suspeitas.

Era consenso entre as pessoas da comunidade muçulmana de San Diego que Bayoumi operava para o serviço de inteligência saudita", conta Richard Lambert, que chefiou as investigações do escritório local do FBI na cidade após o 11 de Setembro.

Mas se intrometer não fazia parte das funções de Ratchford. O que interessava para ela era se ele conseguia pagar o aluguel. E pagava.

Omar al-Bayoumi se apresentava como um homem de família comum.

O Bayoumi que Ratchford conheceu foi filmado nos vídeos domésticos, que nunca haviam sido transmitidos pela TV anteriormente. Neles, ele jogava bola com a família na piscina de Parkwood, rindo quando ela atingia a água.

Outro vídeo mostra Bayoumi em uma excursão para Las Vegas com sua família. Vestindo uma camisa floral, ele aponta para a montanha-russa no hotel cassino New York, New York.

Acreditei em tudo o que ele me disse", conta Ratchford. "Eu realmente pensava que ele era aquela pessoa.

Mas esta versão de Bayoumi não coincide com o homem que surge em outros vídeos.

No verão de 1999, Bayoumi filmou o Capitólio dos Estados Unidos, em Washington DC, de diferentes ângulos. Ele observou um "plano" e voltava a câmera para si próprio, falando como se fosse para uma reportagem.

Os advogados das famílias do 11 de Setembro afirmam que ele estaria examinando o edifício como um possível alvo para os ataques. Já o Reino da Arábia Saudita defende que aquele é um vídeo de turista.

No julgamento de agosto de 2025, o juiz de Nova York concluiu que "tudo o que o tribunal pode concluir" do vídeo é que Bayoumi "visitou Washington DC e filmou a cidade.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Fontes consultadas

  • Folha Mundolink

Leia também

Mais em Mundo