Esse é o esquema investigado pela Polícia Civil que levou à prisão do influencer Eduardo Razuk, do irmão dele, Rafael Razuk, e de outros dois homens na Operação Rodas da Sorte.
Segundo o delegado Pedro Henrique Pilar Cunha, responsável pela investigação, Razuk promovia desde 2019 uma modalidade de sorteio que a polícia classifica como loteria não autorizada e teria arrecadado valores multimilionários com a atividade.
A investigação aponta ainda que o dinheiro era alvo de lavagem, por meio da ocultação ou dissimulação da origem dos valores, utilizando empresas em outros estados, sem autorização regular.
A defesa de Eduardo e Rafael afirma que os sorteios eram legais e respeitavam as regras específicas do setor. Os advogados disseram que ainda não tiveram acesso à investigação nem à decisão judicial.
Leia a nota na íntegra no fim da reportagem.
Mas uma dúvida ganhou espaço após as prisões: se os carros eram sorteados e entregues aos vencedores, por que a polícia considera a atividade ilegal.
A diferença entre uma rifa e uma promoção comercial autorizada ajuda a entender o caso.
Segundo o Ministério da Fazenda, rifas são proibidas no Brasil. O órgão define rifa como sorteio feito por meio da venda de bilhetes numerados. A exceção indicada pelo governo para sorteios com venda de bilhetes envolve entidades beneficentes, dentro das condições previstas na legislação.
Atualmente, a Secretaria de Prêmios e Apostas ( A), do Ministério da Fazenda, é responsável por regular, autorizar e fiscalizar as promoções comerciais no país.
Os pedidos são feitos pelo Sistema de Controle de Promoção Comercial (SCPC), que emite o certificado de autorização.
É justamente nesse ponto que entra a investigação contra Razuk. Segundo Cunha, as cotas vendidas nas redes sociais faziam parte de uma modalidade de sorteio que não era permitida e não tinha uma autorização considerada válida pela polícia.
Na versão apresentada pela Polícia Civil, portanto, não bastava existir uma suposta autorização: a entidade apresentada como responsável por concedê-la não teria competência para isso.
Para a investigação, como os recursos teriam sido obtidos por meio de uma atividade considerada ilícita, a tentativa de ocultar ou dissimular a origem desse dinheiro configura a suspeita de lavagem.
Na tese da polícia, portanto, a suspeita de lavagem não está simplesmente no fato de Razuk arrecadar muito dinheiro. Ela está na tentativa de esconder ou disfarçar a origem de valores que, para os investigadores, vinham de uma atividade ilegal.
A investigação também apura associação criminosa, relacionada, segundo o delegado, à atuação conjunta dos envolvidos na suposta lavagem.
Como as rifas ganhavam aparência de legalidade.
A Polícia Civil identificou uma mudança na forma de atuação do grupo ao longo dos anos.
De 2019 a 2025, segundo Cunha, as rifas e a suposta lavagem dos valores estavam concentradas em Campo Grande, com pessoas ligadas ao grupo na capital.
A mudança teria ocorrido em 2025, depois que operações policiais em diferentes estados passaram a atingir outros influenciadores envolvidos com rifas consideradas ilegais.
Foi nesse contexto, conforme a investigação, que Razuk teria se associado a uma empresa do Rio de Janeiro e outra da Paraíba.
Segundo o delegado, a empresa do Rio funcionaria como intermediária entre influenciadores digitais e a empresa da Paraíba. A polícia encontrou indícios de que a atuação da empresa carioca não estaria restrita a Razuk e alcançaria outros influenciadores do país.
Por meio dessa estrutura, seria apresentada uma suposta autorização para os sorteios.
Na tese da polícia, eram duas frentes: fazer uma rifa considerada ilegal parecer regular e sofisticar a lavagem do dinheiro obtido com ela.
Segundo Cunha, a intenção seria fazer com que os valores multimilionários arrecadados com os sorteios passassem pela estrutura e retornassem aos destinatários com aparência de origem lícita.
Outros dois investigados foram presos no RJ e na PB.
A estrutura investigada ultrapassava Mato Grosso do Sul, segundo a Polícia Civil. Dos quatro mandados de prisão preventiva cumpridos na Operação Rodas da Sorte, dois foram em Campo Grande, um em João Pessoa (PB) e outro no Rio de Janeiro (RJ).
Além de Eduardo e Rafael, um outro homem, de 43 anos, foi preso em João Pessoa, enquanto outro suspeito, de 46, foi preso no Rio. Os nomes completos dos dois não foram divulgados pela polícia.
A Polícia Civil afirma ainda ter encontrado indícios de que a empresa do Rio de Janeiro prestava supostas “soluções de sorteios” para outros influenciadores digitais investigados em casos de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas.
A polícia não afirmou que o dinheiro movimentado no caso de Razuk tenha relação com o tráfico. Na Operação Rodas da Sorte, a investigação relaciona a suspeita de lavagem aos valores provenientes das rifas consideradas ilegais.
Até agora, a Polícia Civil afirma que não identificou fraude nos resultados dos sorteios.
Essa distinção é importante. Segundo a investigação, a ilegalidade apontada não depende de o carro ter sido ou não entregue ao vencedor. A suspeita está na modalidade do sorteio, na ausência de uma autorização considerada válida e na suposta lavagem dos valores arrecadados.
Cunha afirma que a falta de autorização também impede a fiscalização dos sorteios.
O delegado afirmou ainda que a falta de fiscalização pode permitir que valores provenientes de outros crimes sejam misturados ao dinheiro movimentado pelas rifas e posteriormente submetidos à lavagem.
Cunha não afirmou que isso tenha ocorrido no caso de Razuk. A possibilidade ainda será apurada com a análise do material apreendido.
Quem comprou uma rifa pode responder.
Segundo o delegado, quem apenas comprou cotas ou recebeu um prêmio, a princípio, não será responsabilizado criminalmente.
Conforme Cunha, a situação pode ser diferente caso a investigação encontre indícios de envolvimento efetivo dessas pessoas com os crimes apurados.
A Operação Rodas da Sorte cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 11 mandados de busca domiciliar. Foram quatro buscas em Campo Grande, quatro na Paraíba e três no Rio de Janeiro.
Celulares e outros dispositivos foram apreendidos durante as buscas. O material será analisado pela Dercc para verificar a existência de outros possíveis envolvidos ou novas práticas ilícitas.
Os advogados Tiago Bunning e Heitor Matos, que representam Eduardo e Rafael Razuk, enviaram uma nota ao g1. Veja na íntegra.
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Fontes
Informação baseada em material público de G1 MS, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.