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O truque do beija-flor para sobreviver à própria fome noturna

Beija-flor bate asas dezenas de vezes por segundo e, à noite, entra em torpor para não morrer de fome. Entenda o mecanismo

4 min de leitura
O truque do beija-flor para sobreviver à própria fome noturna

O beija-flor bate as asas entre 50 e 80 vezes por segundo, o suficiente para produzir o zumbido que ouvimos quando próximos a ele. Esse ritmo consome tanta energia que, à noite, o coração da ave quase para.

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Isso acontece para ela não morrer de fome enquanto dorme. Essa pausa se chama torpor: o metabolismo despenca até 95%, os batimentos cardíacos caem de mais de mil por minuto para cerca de 40.

Bater asas rápido custa caro em energia.

O beija-flor tem o metabolismo mais acelerado entre os vertebrados terrestres. Voando, ele consome oxigênio a um ritmo cerca de dez vezes maior que o de um atleta humano em pico de esforço.

O coração acompanha essa demanda. Em repouso, bate entre 250 e 500 vezes por minuto; em voo, pode passar de mil batimentos por minuto.

Para sustentar esse ritmo, o beija-flor precisa se alimentar o dia inteiro, dezenas de vezes. Ele se alimenta principalmente do néctar das flores, líquido rico em açúcar que vira combustível quase instantâneo.

Insetos e aranhas completam a dieta, fornecendo a proteína que o néctar não tem. Mesmo assim, o corpo não consegue guardar energia suficiente para passar a noite inteira ativo.

Se mantivesse a temperatura corporal normal, de cerca de 40°C, o beija-flor gastaria as reservas rápido demais. O risco de morrer de fome antes do amanhecer seria real.

A noite quase mata o beija-flor de fome.

É aí que entra o torpor, um estado parecido com uma mini-hibernação que se repete todas as noites. Nele, o beija-flor reduz drasticamente o metabolismo, a respiração e a temperatura do corpo.

Pesquisadores das universidades do Novo México (EUA) e de Pretória (África do Sul) registraram uma queda extrema em beija-flores dos Andes peruanos. A temperatura corporal de um exemplar chegou a 3,26°C, a mais baixa já medida em uma ave ou em um mamífero não hibernante.

O estudo saiu no periódico científico Biology Letters, em 2020.

A intensidade do torpor varia entre espécies e depende da temperatura do ambiente. Em locais mais quentes, como boa parte do Brasil, a queda costuma ser bem menos extrema.

Mas o mecanismo básico de economia de energia é o mesmo. Pela manhã, o beija-flor “liga” o próprio motor de novo, tremendo os músculos até gerar calor suficiente para voar.

No Brasil, esse jogo se repete em quintais.

O Brasil concentra a maior diversidade de beija-flores do planeta, com cerca de 80 das 320 espécies conhecidas. Entre as mais comuns em jardins urbanos estão o beija-flor-tesoura e o beija-flor-de-fronte-violeta.

Quem instala comedouros com água e açúcar em casa participa direto dessa história energética. A proporção recomendada é de quatro partes de água para uma de açúcar, próxima da concentração do néctar natural.

O risco não está no açúcar em si, mas na falta de limpeza. Sem troca diária, a mistura fermenta e cria fungos que se instalam no bico e na língua da ave. Esse tipo de contaminação pode impedir a ave de recolher a língua, levando-a à morte por inanição.

Mel e corantes artificiais devem ficar de fora, porque fermentam ainda mais rápido.

Um comedouro limpo, com a solução trocada todo dia, ajuda o beija-flor a chegar à noite com energia de sobra. Isso faz diferença real na hora de encarar mais uma rodada de torpor.

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Fontes consultadas

  • Olhar Digitallink