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Antonelli ou Ferrari? Ascensão do piloto cria dilema na torcida italiana para o GP da Itália

Corrida em Monza costuma ser reduto dos apaixonados ferraristas, mas crescimento meteórico do piloto da Mercedes chacoalha a percepção dos fãs, com adesão dos j

9 min de leitura
Antonelli ou Ferrari? Ascensão do piloto cria dilema na torcida italiana para o GP da Itália

Historicamente, falar do GP da Itália de Fórmula 1 é falar da Ferrari. A escuderia de Maranello é tratada quase como religião no país, e os tifosi – apaixonados fãs da equipe – costumam pintar as arquibancadas do Autódromo Nacional de Monza de vermelho.

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Ferrari revela pintura inspirada em Michael Schumacher para o GP da Itália.

Porém, a corrida deste fim de semana no Templo da Velocidade terá um novo elemento: Kimi Antonelli.

Novo mesmo. Aos 20 anos de idade, o italiano da Mercedes lidera a F1 2026 com 59 pontos de vantagem. Ainda novato em 2025, Antonelli construiu um protagonismo marcante com seis vitórias em 12 provas nesta temporada, o que fez com que uma discussão fosse inaugurada no país: para quem torcer na corrida em casa.

A Itália vive um jejum de 73 anos sem um campeão mundial de pilotos na F1 – o último título foi de Alberto Ascari, em 1953. A última vitória de um italiano no GP da Itália aconteceu em 1966, com Ludovico Scarfiotti.

A Ferrari, por sua vez, não vence o campeonato de construtores desde 2008. Diante desse cenário, o ge conversou com jornalistas e torcedores para entender o impacto da chegada de um prodígio do país ao topo da Fórmula 1.

A reportagem do ge falou com Roberto Chinchero, do site "Motorsport", e com Giulia Toninelli, do jornal "Gazzetta dello Sport". Ambos comentaram que, no ano passado, não havia a distinção de torcida entre ferraristas e fãs de Kimi Antonelli.

Como o piloto ainda era novato e a Mercedes era bem menos competitiva em relação a essa temporada, o foco no calouro era significativamente menor.

Neste ano, entretanto, o panorama se transformou. A Mercedes iniciou o ano como favorita ao título e, ao menos por enquanto, Antonelli vem levando vantagem sobre o companheiro de equipe George Russell, mais experiente, e contra o próprio ferrarista Lewis Hamilton, a quem o italiano substituiu na Mercedes.

O grande momento vivido por Kimi mudou o olhar dos torcedores italianos e, na visão de Roberto Chinchero, causou até mesmo um racha entre os torcedores mais fanáticos da Ferrari.

Este ano é bem diferente, porque o Kimi virou um candidato ao título, não apenas um candidato a potencialmente ganhar uma ou outra corrida. Em todo o final de semana ele é um candidato à vitória.

E isso claramente o tornou um adversário direto de Hamilton e Leclerc. Olhando as redes sociais da Itália, ainda que eu não seja um expert no assunto, é óbvio que houve uma ruptura entre os tifosi mais fervorosos.

Quem torce para a Ferrari nunca vai torcer para o Antonelli nesse momento, e quem torce para o Antonelli nunca vai torcer pra Ferrari – opinou.

A jornalista Giulia Toninelli, por sua vez, ressaltou que Kimi Antonelli conseguiu atrair um novo público para a Fórmula 1, de torcedores que nunca tinham ouvido falar do piloto há pouco tempo.

De acordo com a repórter, o aumento de popularidade do jovem se assemelha ao de Jannik Sinner, italiano e atual número 1 do mundo no tênis.

Este ano, tudo mudou. Desde a China, quando Kimi venceu sua primeira corrida, ficou imediatamente claro que os italianos haviam descoberto uma nova joia. A partir desse momento, Antonelli começou a atrair o interesse não só dos fãs mais fervorosos da Fórmula 1, que já conheciam seu talento e talvez acompanhassem sua carreira desde as categorias de base, mas também do público italiano em geral, muitos dos quais nunca tinham ouvido falar dele – iniciou, acrescentando.

Algo semelhante aconteceu na Itália com (Jannik) Sinner alguns anos atrás: os italianos nunca tinham tido um tenista com o seu nível de talento e começaram a descobrir também a pessoa por trás do atleta.

O mesmo está acontecendo com Kimi, que está se tornando uma figura extremamente popular para além de seus resultados individuais, embora esses resultados tenham sido, obviamente, a força motriz por trás de sua apresentação ao público em geral.

Toninelli acredita que Kimi conquistou uma parte do público que extrapola os ferraristas, especialmente entre os fãs mais novos. Afinal, trata-se de um piloto de 20 anos ocupando um espaço de protagonismo no país, amplificado pelo jejum de 18 anos da Ferrari sem o título mundial de construtores.

Antonelli obviamente conquistou uma grande parte do público que vai além dos fãs da Ferrari. Muitos jovens na Itália nunca viram a Ferrari ganhar um Campeonato Mundial, mas agora eles têm esse cara, que tem mais ou menos a mesma idade que eles, fazendo coisas extraordinárias.

Ele é um ótimo exemplo para eles. Por isso ele está conquistando um público tão grande, tanto entre os fãs mais jovens quanto entre as gerações mais velhas – acrescentou.

Neste momento, o panorama parece tender para a tradicional maioria ferrarista em Monza, enquanto Antonelli ainda consolida uma base de fãs. Mas o assunto virou uma questão importante, seja nas redes sociais ou na imprensa.

Em seu site, a Gazzetta dello Sport até abriu uma enquete para que os italianos escolham se vão torcer por Ferrari ou Kimi, e o resultado não é tão discrepante: no momento da publicação desta matéria, 58,3% dos participantes da enquete optavam pela escuderia de Maranello, e 41,7% pelo piloto.

Em julho, uma pesquisa divulgada pela revista Sportweek, com participação de 1. 835 italianos, terminou empatada na pergunta: "Pensando na F1 de hoje, por quem você sente maior envolvimento ou torcida.

Antonelli e a Ferrari receberam 33,1% dos votos cada um. No entanto, Kimi lidera em preferência entre os mais jovens, com 44,2% dos votos entre adolescentes de 14 a 17 anos e 36,2% entre os entrevistados de 18 a 24 anos.

Na Itália, o sentimento é de que não existe uma rivalidade generalizada entre ferraristas e torcedores de Kimi Antonelli, mas isso não quer dizer que um vá torcer pelo outro.

Mariangela Scaringi, torcedora da Ferrari, mantém uma página sobre Fórmula 1 nas redes sociais e acredita que comemoraria, sim, uma vitória de Kimi Antonelli, mas não enxerga os torcedores do piloto fazendo o movimento contrário.

A Ferrari é uma religião por si só, por isso é muito raro as pessoas mudarem de equipe. Claro, muitos fãs também torcem pelo Kimi. Como italiana, eu também comemoraria uma vitória do Kimi, mas não acho que os fãs do Kimi comemorariam uma vitória da Ferrari – disse ela.

A visão de Mariangela é parecida com a de Julian Bello, de 20 anos de idade e fã de Kimi Antonelli. Para o italiano, que cresceu sendo ferrarista e hoje mantém uma página dedicada ao piloto da Mercedes, comemorar uma vitória da escuderia de Maranello não seria um problema.

No entanto, embora tenha ressaltado que as discussões são mais exaltadas nas redes sociais do que fora delas, Julian também não crê que o movimento contrário seja fácil.

Sinceramente, eu comemoraria. Cresci torcendo pela Ferrari, apesar do meu amor pelo Antonelli. Por outro lado, não tenho certeza se 100% dos torcedores da Ferrari comemorariam.

Seria algo histórico, um piloto italiano vencendo a única corrida italiana do calendário depois de tanto tempo sem isso acontecer, mas deixaria um sentimento agridoce em alguns, já que Monza é considerada há muito tempo a corrida de casa da Ferrari.

É o primeiro ano do Kimi lidando com esse novo tipo de pressão: a de líder do campeonato. A rápida transição de presa para predador ainda deixou muita gente chocada – analisou o torcedor.

Embora Kimi Antonelli seja uma figura em ascensão no imaginário do público italiano, a ponto de desafiar a fervorosa torcida ferrarista em Monza, os jornalistas ouvidos pelo ge concordam que o piloto ainda não pode ser considerado uma superestrela no país – apesar de estar se tornando mais e mais popular.

Há um consenso de que Antonelli precisa percorrer um caminho gradual até atingir o patamar de outros ícones do esporte no país, como o próprio Jannik Sinner e a lenda da motovelocidade Valentino Rossi.

Mas os resultados do piloto da Mercedes e o perfil pé no chão contribuem para melhorar a percepção do público geral.

O que as pessoas gostam é que Kimi ainda vive a vida como um jovem normal. Ele passa tempo com a família e a irmãzinha, comemorou aniversário em um parque aquático e não tem interesse real no mundo do glamour ou do luxo.

Ele é um jovem da idade dele que faz o que ama: dirigir. — Giulia Toninelli, jornalista da Gazzetta dello Sport – Obviamente, porém, seu perfil está crescendo muito rápido, e acredito que continuará assim durante toda esta temporada.

Será interessante ver em Monza quantos fãs ele terá e quão alto será o interesse do público em geral. Claro, ele ainda não está no nível dos grandes ícones esportivos italianos, como Valentino Rossi, Alberto Tomba (ex-esquiador) ou Federica Pellegrini (nadadora), em termos de popularidade.

Mas mesmo nos casos deles, tudo começou gradualmente – completou Giulia.

Na opinião de Roberto Chinchero, a popularidade de Antonelli vai alcançar um novo patamar se o piloto chegar ao fim da temporada ainda na liderança do campeonato.

No entanto, fixar um espaço nos corações tomados há tanto tempo pela Ferrari será mais difícil.

Eu penso que aos poucos, quando chegar o fim da temporada, a Itália vai entender a importância histórica do que o Antonelli está fazendo. Porque um piloto italiano não vence o Mundial desde 1953, e nunca estivemos tão perto.

Quando a Itália se der conta, espero a uma ou duas corridas do fim, de que ele poderá conquistar o título, acho que nesse ponto a sua popularidade vai crescer muito.

Mas vamos lembrar que o Antonelli mora no país da Ferrari, e se foi fácil para os italianos que o Sinner entrasse em seus corações porque joga tênis, para o Antonelli sempre vai ser mais difícil, porque claramente existe uma base de fãs fortíssima da Ferrari – concluiu.

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