JG entrevista Felipe Nunes, diretor da Quaest, sobre temperatura nos estados para eleição presidencial.
Lista completa
- O que pensam eleitores independentes de MG, estado 'termômetro' de eleições.
- VÍDEO: como funcionam as pesquisas eleitorais? Felipe Nunes explica.
- Pesquisas da Quaest mostram como está a disputa presidencial nos estados.
As pesquisas estaduais da Quaest divulgadas ao longo desta semana revelam uma eleição que se movimenta pouco onde mais importa.
Há oscilações nas intenções de voto, mudanças de intensidade entre os estados e efeitos produzidos por candidaturas locais. Mas, quando observamos o conjunto, o quadro é de estabilidade.
A disputa presidencial de 2026 continua calcificada, polarizada entre Lula e o campo político de Jair Bolsonaro, agora representado por Flávio.
Calcificação não significa que nada muda. Significa que as mudanças acontecem dentro de limites estreitos, sem alterar a estrutura que organiza a escolha dos eleitores.
Lula preserva a força no Nordeste. Flávio herda a vantagem bolsonarista no Sul e em parte do Centro-Oeste. São Paulo continua dividido, com inclinação à direita.
E Minas Gerais permanece como o estado mais próximo do equilíbrio nacional.
A comparação com 2022 ajuda a dimensionar essa estabilidade. Para fazê-la corretamente, é preciso colocar os dois números na mesma base: a intenção de voto atual deve ser comparada com os votos obtidos em 2022 sobre o total de eleitores aptos, e não com os votos válidos.
As pesquisas representam todos os eleitores, inclusive aqueles que poderão se abster ou votar em branco e nulo. Mudar o denominador muda o significado do resultado.
Feito esse ajuste, Lula aparece dentro da margem de erro do seu desempenho de 2022 em 16 das 25 unidades da Federação incluídas na consolidação. Está acima em cinco e abaixo em quatro.
Ou seja, em quase dois terços dos estados pesquisados, não há evidência estatística de mudança em relação à eleição passada.
Mesmo as diferenças significativas reforçam a ideia de movimentos regionais, não de uma onda nacional. Lula melhora no Maranhão, em Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Rondônia.
Piora em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As perdas estão concentradas especialmente no Sul e no estado que decidiu a eleição passada por uma diferença mínima.
Os ganhos, por sua vez, aparecem sobretudo em áreas nas quais o petismo já era competitivo ou dominante.
O Nordeste continua sendo o principal pilar eleitoral de Lula. Na Bahia, ele registra 53% das intenções de voto no cenário consolidado, praticamente repetindo o patamar de 2022 quando se considera o total de eleitores aptos.
Em Pernambuco, chega a 54%, três pontos acima do desempenho anterior. No Rio Grande do Norte, avança de 49% para 54%. Não se trata apenas de liderança. É a preservação de uma vantagem regional sem a qual Lula dificilmente consegue compensar as derrotas no Sul e em parte do Sudeste.
No outro extremo, Flávio reproduz a geografia eleitoral construída por seu pai. Em Santa Catarina, tem 45% no primeiro turno, contra 20% de Lula. No Paraná, mantém uma vantagem ampla.
No Rio Grande do Sul, lidera por 34% a 28%. A intensidade varia de um estado para outro, mas o alinhamento permanece: o Sul continua sendo o território mais favorável ao bolsonarismo.
Nos três maiores colégios eleitorais, a estabilidade assume a forma de equilíbrio. Em São Paulo, Flávio tem 30% e Lula 29%. Em Minas Gerais, são 31% a 30%. No Rio de Janeiro, 31% a 29%.
Os números estão dentro das respectivas margens de erro.
Isso significa que, mesmo depois de quatro anos de governo, mudanças econômicas, crises políticas e da substituição de Jair por Flávio Bolsonaro, os dois campos chegam ao início da campanha praticamente nivelados nos estados que concentram a maior parcela do eleitorado.
Estes são dados de 1º turno, revelam a força base de cada candidato nos diversos estados. Não se deve extrair daqui projeções para a eleição, já que este é o retrato do momento.
Tampouco dá para ampliar a análise e considerá-la proporcional ao que pode acontecer no segundo turno. Disputas de segundo turno dependem, em grande medida, de como a eleição termina no primeiro turno.
O dado mais importante talvez seja justamente a capacidade de transferência do voto bolsonarista. Flávio não tem a trajetória nem o grau de relevância nacional do pai.
Ainda assim, consegue ocupar o mesmo espaço político e reconstruir boa parte de sua coalizão eleitoral. O sobrenome funciona como um atalho: oferece identidade, organiza adversários e reduz o custo de coordenação da direita.
A polarização brasileira depende cada vez menos da presença dos dois personagens originais e cada vez mais das identidades políticas que eles consolidaram.
Isso também ajuda a explicar por que as candidaturas alternativas encontram tanta dificuldade. Somados, Lula e Flávio concentram cerca de 60% das intenções de voto em São Paulo e Minas Gerais, superam esse patamar no Rio de Janeiro e ocupam parcelas ainda maiores nos estados em que um dos dois é dominante.
Aos demais candidatos resta disputar um eleitorado menor, menos convicto e frequentemente atraído de volta aos dois polos quando aumenta a percepção de risco eleitoral.
Goiás é a principal exceção. No estado, Ronaldo Caiado consegue transformar a força de seu governo e de sua trajetória local em competitividade presidencial. Ele supera Lula e aparece tecnicamente empatado com Flávio.
Mas a exceção goiana também mostra o limite das alternativas: ter força no estado de origem não é o mesmo que construir uma coalizão nacional. Até agora, nenhuma candidatura conseguiu transportar esse desempenho para fora de sua base com intensidade suficiente para reorganizar a eleição.
Por isso, a melhor imagem da disputa não é a de uma fotografia congelada. É a de uma eleição que se move dentro de trilhos já conhecidos. Lula pode ganhar alguns pontos no Nordeste e perder outros no Sul.
Flávio pode consolidar a direita e reduzir a distância nacional. Candidatos regionais podem alterar o resultado em seus estados. Mas a estrutura continua a mesma: dois polos fortes, rejeições elevadas e pouco espaço disponível entre eles.
A campanha ainda importa. Ela pode mudar o comparecimento, convencer indecisos e alterar a intensidade com que cada grupo chega às urnas. Em uma disputa equilibrada, pequenas diferenças de mobilização podem decidir o resultado.
O que as pesquisas desta semana mostram, porém, é que a campanha começa sem realinhamento eleitoral relevante. O Brasil de 2026 continua dividido, quase nos mesmos lugares e em proporções muito próximas às de 2022.
Essa é a força — e o limite — de uma eleição calcificada. Os eleitores podem mudar de opinião sobre o governo, a economia ou os candidatos. Mas, na hora de escolher entre os dois campos que organizam a política nacional, a maioria continua voltando para o mesmo lado da divisão.