Imagine outro país perguntar ao Brasil, quem está lá? E, depois, o que fazem por quem representam? À primeira pergunta, ainda que constrangido, responderia que, na Câmara e no Senado, menos de 20% das cadeiras são ocupadas por mulheres.
- ECA Digital e os desafios da proteção social na internet.
- Emendas parlamentares não são políticas públicas.
Como governadoras de estado, apenas 6,2%. Como prefeitas, em torno de 13%. O STF (Supremo Tribunal Federal) tem uma única ministra; o STJ (Superior Tribunal de Justiça), menos de 20% de mulheres como ministras.
Mas nem tudo são espinhos. Há flores no esforço legislativo para reposicioná-las no espaço das decisões. Em diálogo sobre a solução adotada, mostra-se um fino véu, a lei de cotas eleitorais de gênero, que mal esconde a vergonha histórica da exclusão das mulheres da política.
No pensamento social brasileiro, a "vocação" para a liderança pública ainda ressoa como masculina. Ao nascer homem, já se dispõe de vantagem acumulada sobre elas para ocupar os espaços de poder, pois, como lembra Carole Pateman, o contrato social fundante da política moderna colhia apenas assinaturas masculinas.
O âmbito público desenhou-se em oposição à presença feminina.
A dominação masculina, diria Bourdieu, sustenta-se pela naturalização daquilo que nasce do ventre da cultura. "O homem como cabeça" revela-se uma mensagem silenciosa, invisível, tão incorporada que mobiliza até as próprias "dominadas" em sua manutenção.
O que é ser um "bom candidato", firme no imaginário social, ainda carrega a exclusão do feminino. Por ser cultural, com esquemas mentais da infância, até as mulheres, maioria no Brasil, inclinam-se ao voto masculino.
Mulheres chegam, ainda que raramente, aos postos de poder. O que fazem por quem representam? Difícil uma resposta satisfatória quando o Congresso tem poucos rostos femininos, e algumas, como diria Bourdieu, ajudam a dominação masculina a se perpetuar.
O voto "em bloco" pró-mulher torna-se raro numa casa legislativa de forte divisão ideológica.
Hanna Pitkin diria que podemos ter uma representação descritiva, um espelho em que uma assembleia com 30% de mulheres se parece mais com o eleitorado do que uma com 5%.
Não se nega que mulheres no plenário são garantidas, em boa medida, pelas cotas de gênero. Mas a semelhança nos rostos não garante semelhança na causa.
Aumento quantitativo não é sinônimo de proteção aos direitos da mulher, pois uma eleita pode votar contra políticas de gênero, assim como um homem pode defendê-las.
A mudança precisa ser qualitativa. O melhor dos mundos seria uma representação substantiva em que uma deputada vote pela licença-maternidade ampliada, leve a violência doméstica à comissão e recuse a pauta que invisibiliza as mulheres, independentemente do machista que assina o projeto.
O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Fabrício Paixão Albuquerque foi "Canción Sin Miedo", de Vivir Quintana.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…