O presidente Javier Milei reduziu a inflação e a pobreza na Argentina e eliminou o déficit orçamentário. Mas o mercado de trabalho do país continua mergulhado na crise que ele prometeu enfrentar ao ser eleito.
Pelo segundo ano consecutivo, a economia argentina cresce, mas o emprego recua no setor formal, no qual os trabalhadores têm salário, benefícios e assistência médica.
Essa perda de postos de trabalho é possivelmente a maior ameaça à tentativa de reeleição de Milei no próximo ano, enquanto investidores esperam que o pêndulo político da Argentina não se afaste de sua abordagem pró-mercado.
O que parece ganhar cada vez mais importância é a criação de empregos, já que as pesquisas mostram que esse fator está se tornando um dos principais motores da confiança do consumidor", disse Pablo Goldberg, gestor de portfólio de mercados emergentes da BlackRock.
Como isso está correlacionado com os votos, o mercado provavelmente ficará atento a esse indicador.
A Argentina perdeu 241 mil empregos com carteira assinada no setor privado desde que Milei assumiu o cargo —o equivalente a 4% do total—, enquanto seu governo cortou 73 mil funcionários públicos, mostram dados oficiais.
O número de empregadores do setor privado caiu para 482 mil empresas, o menor nível desde 2007, segundo o centro de estudos Fundar.
Apenas uma província —Neuquén, centro do boom energético do país— registrou a abertura de empresas durante o mandato de Milei, o que indica que os trabalhadores não estão migrando de setores em dificuldades para os que prosperam, constatou a consultoria Equilibra.
A indústria e a construção lideraram as perdas de empregos no setor formal sob o governo libertário, enquanto a Argentina registrou um aumento no número de trabalhadores que recorrem a serviços de entrega, aplicativos de transporte e trabalhos em restaurantes, atividades que tendem a ocorrer na informalidade.
Estamos atravessando um processo que podemos caracterizar como crescimento sem criação de empregos de qualidade —crescimento sem emprego", disse Matías Maito, economista do trabalho da Universidad Nacional de San Martín, referindo-se ao emprego formal.
A única coisa que cresceu nos últimos dois anos foi o emprego informal.
O secretário do Trabalho da Argentina, Julio Cordero, não respondeu a um pedido de entrevista.
Há um ano, o desemprego aparece à frente da inflação como a principal preocupação econômica dos eleitores, enquanto o índice de aprovação de Milei, de 37%, está próximo do menor nível de sua Presidência, segundo o LatAm Pulse, pesquisa de opinião pública realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News.
Parte da mudança nas preocupações resulta do sucesso de Milei em reduzir a inflação, antes na casa dos três dígitos. Um desemprego mais elevado nem sempre é um fator decisivo contra um candidato.
O presidente Carlos Menem foi reeleito em 1995 com o desemprego acima de 10%, após derrotar a hiperinflação. Mas Menem tinha à época uma inflação anual inferior a 2%; economistas projetam que a inflação no próximo ano ficará em torno de 20%.
Embora contenham a alta dos preços, as políticas de Milei também provocam pelo menos parte das perdas de empregos. Seus cortes de gastos, embora necessários, resultaram em menos obras públicas e contas de serviços básicos mais altas, o que levou à redução dos empregos na construção, da renda disponível e dos gastos dos consumidores.
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
Com alguns controles cambiais ainda em vigor, a valorização da moeda também encareceu os serviços argentinos, da tecnologia ao turismo. As medidas de Milei para abrir a economia a uma maior concorrência estrangeira arrefeceram os preços, mas também atingiram duramente setores industriais envelhecidos.
Até mesmo as contratações nos setores competitivos da Argentina, do petróleo e da mineração à tecnologia, estão em queda ou estagnadas durante o governo Milei, mostram dados oficiais e relatórios setoriais.
O quadro de funcionários da empresa de serviços em nuvem The Black Puma, de Patricio Pagani, praticamente dobrou, chegando a cerca de 40 empregados, entre a pandemia e o início da Presidência de Milei.
Ao mesmo tempo, os salários do setor privado dobraram em dólares desde que o libertário assumiu o cargo, reduzindo as margens de Pagani. Agora, ele pretende contratar mais no Brasil e abrir uma unidade na Colômbia, onde os custos trabalhistas são menores.
Há tantos profissionais experientes de tecnologia procurando emprego em Buenos Aires que Pagani, de 48 anos, nem sequer contrata mais para vagas de nível inicial.
Vejo a taxa de desemprego entre trabalhadores altamente qualificados muito acima do que era há cinco anos", afirmou. "A esta altura, a Argentina deixou de ter uma boa relação custo-benefício.
O desemprego na economia formal subiu para 7,8%, mas os estragos são camuflados pela expansão do mercado de trabalho informal, que hoje responde por 44% da força de trabalho do país.
Um estudo da Universidade Católica da Argentina mostrou que trabalhadores de diferentes níveis de escolaridade e renda atuam cada vez mais na informalidade, mas economistas veem isso como último recurso, e não como preferência.
A informalidade continua sendo uma opção inferior a um emprego formal assalariado", embora seja melhor do que o desemprego, disse Roxana Maurizio, pesquisadora do instituto de políticas públicas IIEP, da Universidade de Buenos Aires.
Pelo menos no quadro geral, não é um destino desejável.
Sergio Moreno recebeu mais de 3. 500 inscrições para 700 vagas neste ano na Fundación Oficios, programa de capacitação profissional que dirige nos arredores de Buenos Aires e que oferece formação para carpinteiros, eletricistas e outros ofícios.
O número representa um aumento de 40% em relação ao ano anterior, e Moreno nunca havia recebido tantas inscrições.
Ele está construindo novas salas de aula à medida que cresce a demanda de argentinos da classe trabalhadora que buscam emprego, já que muitos não conseguem encontrar trabalho —ou trabalho suficiente— para fechar as contas.
Em momentos de crise, pelo menos na Argentina, há uma tendência de recorrer à informalidade porque é mais barato, não se pagam impostos", disse Moreno. "Muitas empresas fecharam, e não estou falando contra nem a favor do governo; é apenas um fato.
Ruben Barboza, 56, está desempregado desde novembro passado, quando uma fabricante de móveis que o havia contratado fechou as portas devido à queda acentuada nas vendas.
O ex-operário está fazendo seu segundo curso de capacitação profissional após, segundo ele, candidatar-se a 30 vagas sem receber nenhuma oferta. Por enquanto, vive da renda da esposa.
Para as pessoas que trabalham e que eu conheço, sim, a inflação importa, mas importa menos do que ter emprego, conseguir fechar as contas e colocar comida na mesa", disse Barboza, que não apoia Milei.
Não sou só eu. Muita gente não consegue chegar ao fim do mês.
Em números
- A Argentina perdeu 241 mil empregos com carteira assinada no setor privado d
- O número de empregadores do setor privado caiu para 482 mil empresas, o menor nível desde 2007, segundo o cen
- 500 inscrições para 700 vagas neste ano na Fundación Oficios, programa de capac
- Fazendo seu segundo curso de capacitação profissional após, segundo ele, candidatar-se a 30 vagas sem receber nenhuma oferta
Fontes
Informação baseada em material público de Folha Mercado, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.