O mercado esperava a criação de cerca de 55 mil empregos nos Estados Unidos em agosto. Vieram 162 mil. A surpresa do payroll — principal relatório oficial sobre o mercado de trabalho americano — aumentou as apostas em uma alta de juros pelo Federal Reserve (Fed), pressionou Wall Street e fez o dólar ganhar força nesta sexta-feira (4).
O Ibovespa sentiu o impacto imediatamente. Depois de fechar a quinta-feira aos 185. 188 pontos, o índice mergulhou até 183. 251 pontos, queda superior a 1%. O movimento, porém, não durou.
Ao longo da manhã, a Bolsa brasileira recuperou todo o tombo, virou para alta e chegou a 186. 544 pontos. O fôlego diminuiu novamente à tarde, mas o Ibovespa conseguiu terminar o pregão praticamente no zero a zero: baixa de apenas 0,02%, aos 185.
Foram mais de 3. 200 pontos entre a mínima e a máxima do dia.
Gangorra do Ibovespa – Bolsa termina praticamente onde começou o dia.
A trajetória chamou atenção porque ocorreu em um ambiente externo claramente mais difícil. O rendimento dos Treasuries subiu, o dólar avançou e os três principais índices de Nova York fecharam no vermelho.
Ainda assim, o mercado brasileiro encontrou compradores.
Resultado veio “extremamente acima” das expectativas e fez o mercado reavaliar esperanças de que o Federal Reserve tenha algum espaço para manter os juros na próxima reunião.
Payroll surpreende e aumenta chance de alta dos juros nos EUA.
Além dos 162 mil empregos criados, quase três vezes os 55 mil previstos, a taxa de desemprego permaneceu em 4,1%, em linha com o esperado.
O ganho médio por hora trabalhada avançou 0,3% em agosto, também como projetado. Em 12 meses, porém, os salários subiram 3,1%, ligeiramente acima da expectativa de 3,0%.
O número que realmente mudou o tom do mercado foi, portanto, a geração de empregos.
Rafael Perretti, economista e analista da Clear Corretora, destaca que desemprego e salário mensal ficaram próximos das projeções, enquanto a criação de vagas surpreendeu fortemente.
Segundo ele, um mercado de trabalho mais firme pode dar ao Fed maior espaço para manter o foco no combate à inflação.
Essa leitura apareceu rapidamente nas apostas para a reunião do Fed em setembro.
Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, a probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4,00%, subiu de 49,4% para 58,6%. A chance de manutenção dos juros entre 3,50% e 3,75% caiu de 50,6% para 41,4%.
Também houve reação nos Treasuries, os títulos do governo dos Estados Unidos. O rendimento do papel de dois anos, bastante sensível às expectativas para os juros, subiu cerca de 4 pontos-base, para 4,377%.
Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital, afirma que o payroll mais forte reforça a perspectiva de juros americanos elevados por mais tempo. Em geral, esse cenário tende a reduzir o apetite por ativos de risco de economias emergentes.
Era justamente essa a preocupação que aparecia antes da divulgação. André Moraes, analista, fundador e CEO da Trade ao Vivo e chairman da BFR Investimentos, já havia alertado que um payroll muito forte poderia aumentar a percepção de pressão inflacionária e elevar a possibilidade de juros mais altos nos EUA.
EUA: payroll em agosto fica positivo em 162 mil, acima da expectativa de mais 56 mil.
Economistas consultados pela Reuters projetavam criação de 56 mil vagas.
Ibovespa cai aos 183 mil pontos, mas reação muda o roteiro.
A abertura confirmou, num primeiro momento, o cenário mais negativo.
O movimento também encontrou uma Bolsa brasileira que vinha de forte valorização nos pregões anteriores.
Alexandre Wolwacz, o Stormer, trader e sócio-fundador da Liberta, avaliou ainda durante a pressão inicial que a sequência de altas recentes deixava espaço para uma realização de lucros.
Alison Correia, trader e sócio da Dom Investimentos, teve leitura semelhante naquele primeiro momento. Para ele, o payroll acabou funcionando como o “drive que faltava” para uma correção após o forte avanço recente do mercado.
Mas a história do pregão não terminou ali.
O Ibovespa começou a recuperar terreno, voltou aos 185 mil pontos e entrou no campo positivo. Na máxima, alcançou 186. 544 pontos.
A partir daí, surgiu uma nova questão: se o payroll havia aumentado a chance de juros mais altos nos Estados Unidos, por que a Bolsa brasileira conseguia reagir.
Por que o Ibovespa resistiu ao choque externo.
Para Perretti, o impacto do payroll foi forte, mas não teve continuidade porque os fatores domésticos voltaram a ganhar peso ao longo da sessão.
Na avaliação do economista, investidores seguem olhando para a trajetória das contas públicas e para as expectativas em torno do cenário eleitoral. Ele também cita a percepção de que os ativos brasileiros continuam relativamente atrativos e o interesse do capital estrangeiro.
Perretti ressalta que essa melhora na percepção dos investidores permanece bastante ligada à evolução do cenário político e fiscal. Portanto, trata-se de uma leitura de mercado que ainda pode mudar conforme a disputa eleitoral avance.
Gabriel Uarian também vê o ambiente doméstico como uma peça central para explicar a reação.
Segundo ele, depois da pressão inicial típica de um dado externo mais restritivo, o mercado brasileiro passou a mostrar um fluxo comprador sustentado por fatores locais.
Para Uarian, o comportamento da sessão mostra que o apetite por ativos brasileiros continua presente, o que ajudou a limitar o efeito de um ambiente externo mais desafiador no curto prazo.
A diferença ficou ainda mais evidente no fechamento. Enquanto o Ibovespa terminou praticamente estável, o S&P 500 caiu 0,38%, o Dow Jones recuou 0,53% e o Nasdaq perdeu 0,29%.
Ibama autoriza Petrobras (PETR4) a perfurar mais poços na Foz do Amazonas.
A medida representa um avanço nos esforços da empresa para produzir petróleo nessa área ambientalmente sensível na costa amazônica do Brasil.
Vale ajuda, enquanto Petrobras pesa no índice.
A composição do Ibovespa também ajuda a explicar por que a recuperação foi possível — e por que ela não ganhou força suficiente para levar o índice a um fechamento claramente positivo.
André Moraes observou durante a sessão que Vale e bancos ajudaram na reação, enquanto Petrobras permanecia como um contrapeso.
Assim, o desempenho de Vale e de parte do setor financeiro ajudou o índice a recuperar terreno, enquanto a queda da Petrobras limitou um avanço mais consistente.
Ibovespa chega aos 186,5 mil pontos e perde fôlego.
A máxima do dia também coincidiu com uma região técnica relevante.
Durante a recuperação, Moraes apontou os 186. 500 pontos como uma primeira resistência importante para o Ibovespa.
O índice chegou a 186. 544 pontos, praticamente em cima desse nível, mas não conseguiu sustentar o movimento.
A partir daí, perdeu força e voltou gradualmente para a região dos 185 mil pontos até fechar aos 185. 147.
O desenho do pregão, portanto, teve três momentos bem definidos: queda forte após o payroll, recuperação completa das perdas e posterior acomodação perto da estabilidade.
Emprego forte passa; inflação vira próximo teste.
A resistência do Ibovespa não significa que o efeito do payroll tenha desaparecido.
Os juros americanos terminaram mais pressionados, o dólar subiu e Wall Street fechou em queda. Além disso, o mercado passou a enxergar uma alta de juros pelo Fed em setembro como o cenário mais provável.
Perretti lembra que esse movimento também importa para o Brasil. Se os juros nos Estados Unidos subirem, o Banco Central brasileiro pode encontrar menos espaço para reduzir a Selic, já que o diferencial entre as taxas dos dois países influencia a atratividade dos ativos locais.
Gabriel Uarian acrescenta que, após a surpresa do emprego, os próximos números de inflação dos Estados Unidos ganham ainda mais importância. Eles poderão mostrar se a força do mercado de trabalho está acompanhada de novas pressões sobre os preços.
A sexta-feira terminou, assim, com uma mensagem dupla: o payroll tornou o cenário externo mais duro, mas não foi suficiente para derrubar o Ibovespa ao longo de toda a sessão.
Depois de visitar os 183 mil pontos, o índice conseguiu reagir, chegou aos 186,5 mil e fechou praticamente onde havia começado.
Em números
- O mercado esperava a criação de cerca de 55 mil empregos nos Estados Unidos em agosto
- Além dos 162 mil empregos criados, quase três vezes os 55 mil prev
- EUA: payroll em agosto fica positivo em 162 mil, acima da expectativa de mais 56 mil
- Economistas consultados pela Reuters projetavam criação de 56 mil vagas
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…