Roteiro: Daniel Dias e Eduardo Albergaria.
A base do roteiro é a biografia “Belchior – Apenas um rapaz latino-americano” (2017), escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros e publicada quatro meses após a morte do cantor, interpretado na série pelos atores Caian Zattar (na juventude nos anos 1960 e ao longo da áurea década de 1970), Luiz Carlos Vasconcelos (nos últimos dez anos de vida do artista) e Márcio Levi (na infância, aos dez anos) em diferentes fases de existência presumivelmente sempre inquieta.
Com narrativa que vai e vem no tempo, a série “Alucinação” alterna cenas de Belchior nos anos 1960 e 1970 com flashes da vida itinerante do artista e da companheira Edna Prometheu pelo Uruguai e pelo Sul do Brasil, período em que Belchior se retirou da vida pública.
Nessa fase, que foi de 2007 até 2017, ano da morte do artista, o arisco cantor é interpretado por Luiz Carlos Vasconcelos enquanto a também enigmática Edna é vivida por Isabela Garcia.
Nesse período estranho em que nada fez muito sentido para o público de Belchior, o casal dependeu da bondade de estranhos e viveu fugindo, cúmplice, sem pouso fixo.
Dessa fase, a cena em que Belchior cai no choro ao tentar tocar um violão deixa entrever dores que possivelmente consumiam a alma do artista.
No quarto e último episódio, entra em cena o Belchior da infância, vivido por Márcio Levi, em tentativa do roteiro de montar um quebra-cabeça que nunca fecha. A cena em que o garoto, à beira de riacho, ouve da mãe – Dolores (1921 – 2011), interpretada pela atriz Ana Luiza Rios – fábula sobre a morte é especialmente interessante.
Produzida por Leonardo Edde e Eduardo Albergaria para a Urca Filmes, a série “Alucinação” teve que ignorar o cancioneiro de Belchior – por questão jurídica – na trilha sonora montada por Amaro Freitas e Plínio Profeta (gênio do piano, Amaro participa do último episódio como um pianista que explica ao então menino Belchior a liberdade que pode ser exercida através da música).
Contudo, houve autorização para que a canção “Mucuripe” (1972) – parceria de Fagner com Belchior – fosse tocada ao vivo na série em cena que acaba em tensão entre Belchior e Fagner, interpretado pelo ator Vinicius Cater.
É a cena que reconstitui a famosa briga dos artistas, na casa de Amelinha (Luana Martins), por conta de um casaco doado por Fagner a Belchior e repassado por este para a namorada – o que enraiveceu Fagner.
A cena deixa no ar a impressão de que o casaco não foi exatamente a causa do ataque de fúria de Fagner.
Para quem desconhece a vida de Belchior antes da fama e antes mesmo da aproximação do futuro cantor no fim dos anos 1960 com a turma que ficou conhecida na mídia como Pessoal do Ceará, a série mostra no primeiro episódio a vida monástica de Belchior – então conhecido como Frei Sobral – em Mosteiro em Guaramiranga (CE), no interior do Ceará.
Belchior desistiu logo da vida de seminarista e a série “Alucinação” insinua que, após tentar ser médico, a música seria o caminho trilhado pelo cantor e compositor para ser abençoado e conquistar um lugar no altar da música brasileira.
Belchior nunca foi santo, mas, entre silêncios e olhares que dizem muito, os quatro episódios de “Alucinação” expõem um artista em busca da (con)sagração. E que talvez tenha preferido sumir ao se deparar com a realidade de que, em 2007, o mercado já lhe negava o status de divindade da música brasileira.
Status que, a rigor, Antonio Carlos Belchior somente conseguiu quando se retirou definitivamente de cena, vítima do rompimento de uma veia que talvez não tenha aguentado o peso da cabeça e do coração do artista.