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Mercado clandestino invade sistemas públicos, adultera processos, apaga multas e até retira mandados de

Durante um mês, Fantástico acompanhou grupos em que criminosos negociam credenciais roubadas para acessar sistemas públicos e dados protegidos.

8 min de leitura
Mercado clandestino invade sistemas públicos, adultera processos, apaga multas e até retira mandados de

Um mercado digital clandestino oferece logins, senhas e acessos a sistemas públicos e privados. O Fantástico entrou em grupos de conversa e fóruns na internet onde criminosos negociam credenciais roubadas e encontrou ofertas para acessar sistemas da Justiça, alterar informações de processos, apagar multas e até retirar mandados de prisão.

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Fantástico investiga mercado de logins.

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As negociações foram acompanhadas durante um mês pela repórter Mônica Marques. Os criminosos ofereciam credenciais — como nomes de usuários, logins e senhas — de servidores e autoridades que, por causa dos cargos que ocupam, têm acesso a sites e redes protegidos.

Também eram vendidos os chamados "painéis", sistemas que reúnem dados obtidos de forma ilegal.

Entre os serviços oferecidos estavam acesso a informações do Imposto de Renda, compras online, dados de saúde, consultas de funcionários e vacinas.

Nos Detrans, os criminosos ofereciam serviços para apagar multas ou até incluir uma infração no nome de outra pessoa. Em uma das conversas acompanhadas pela reportagem, um vendedor afirmou que poderia retirar uma multa cobrando metade do valor.

Credenciais funcionam, segundo investigação.

O Fantástico reuniu as informações sobre os acessos oferecidos e levou o material ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, onde já existe uma investigação sobre a atuação desses grupos.

Com autorização e segurança, os investigadores puderam testar se as credenciais eram verdadeiras e até onde elas permitiam chegar.

Percebemos que é funcional", afirmou Fábio Costa Pereira, procurador de Justiça do Rio Grande do Sul. "O que eles prometem, eles conseguem fazer.

A análise foi realizada pelo Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (NUPVE), da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital.

Segundo o promotor de Justiça Leonardo dos Santos Rossi, a venda de senhas e credenciais já havia sido identificada em denúncias e ações de investigação. "Essas vendas de senhas, vendas de credenciais, elas realmente funcionam, são verdadeiras", afirmou.

Rede criminosa reúne comunidades em diferentes países.

Uma das principais redes desse universo é chamada de "The Com", abreviação em inglês de "a comunidade". Não se trata de um único site, aplicativo ou grupo, mas de comunidades interligadas e espalhadas por diferentes países.

Segundo o FBI, a polícia federal americana, muitos dos integrantes são bastante jovens.

Os grupos também usam os dados obtidos ilegalmente para atacar pessoas. Uma das práticas identificadas é a chamada sextorsão, em que criminosos usam informações e conteúdos íntimos para chantagear vítimas.

Uma jovem ouvida pelo Fantástico, que não quis se identificar por ainda ter medo, entrou nesse universo quando era adolescente. Ela conta que foi chantageada para produzir imagens íntimas e, depois de entrar em conflito com integrantes desses grupos, também passou a ser alvo fora da internet.

Em um dos episódios, uma ordem de bloqueio foi emitida em Goiás. O Fantástico conversou com o Tribunal de Justiça do estado e confirmou que a ordem era fraudulenta.

A Divisão de Inteligência do tribunal já investiga o roubo de senhas e logins usados em invasões ao sistema da Justiça.

Credenciais de acesso subtraídas de servidores ou dos próprios magistrados têm sido utilizadas para poder fraudar, inserir, alterar ou excluir, inclusive ordens de prisão dos bancos nacionais", afirmou Sabrina Leles, delegada da Polícia Civil de Goiás.

Em uma das operações, foram identificadas cerca de 140 adulterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão. Eram ordens com informações erradas que poderiam mandar uma pessoa inocente para a cadeia.

Ao todo, o Tribunal de Justiça de Goiás já identificou 350 acessos fraudulentos.

A polícia chegou a prender um casal que participava das invasões. Os dois respondem ao processo em liberdade.

Dados também são usados para outros crimes.

Em Belém, uma investigação da Polícia Civil revelou que era possível identificar e prender pessoas que usavam codinomes e conexões criadas para dificultar a identificação.

A apuração começou após denúncias de exposição ilegal de dados pessoais.

Segundo a delegada Vanessa Lee, os investigados participavam de grupos envolvidos na venda de logins e senhas e também em outras práticas criminosas, como suicídio, venda de armas e compartilhamento de violência sexual online de crianças e adolescentes.

Uma mulher foi presa em flagrante enquanto usava o computador. Segundo a polícia, ela compartilhava conteúdo de violência sexual online de crianças e adolescentes.

A Polícia Civil do Pará conta com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que mantém um projeto de monitoramento de dados vazados.

Só em 2026, o monitoramento encontrou 18 bilhões de dados expostos.

É uma volumetria muito fora do padrão", afirmou Alan Douglas Bento da Costa. Segundo ele, esses dados são diversos e os bancos costumam reunir informações como logins, senhas, e-mails e CPFs.

Pesquisadores monitoram venda de dados vazados.

À primeira vista, o laboratório onde os pesquisadores trabalham parece um ambiente digital como muitos outros, com computadores, gráficos e informações.

Mas o que eles acompanham é o momento em que criminosos tentam vender dados vazados ou acesso ilegal a um sistema.

É justamente quando montam essa vitrine do crime para atrair compradores que os criminosos deixam rastros que podem ser monitorados.

Com esses dados nas mãos, a gente consegue fazer uma outra análise a fim de encontrar outro tipo de correlação com outra comunidade, com outros grupos de usuários criminosos.

E assim a gente consegue mapear esse tipo de comportamento", explicou Alan.

A partir dessas informações, a polícia pode solicitar medidas cautelares à Justiça. Segundo Vanessa Lee, o trabalho resultou em mandados de busca e prisão e também em prisão em flagrante.

O Discord afirma que suas regras proíbem práticas enganosas, inclusive o roubo de dados e a comercialização de credenciais roubadas.

Como o alerta 'misantropia' foi enviado para milhões de celulares.

Foi nesse universo de venda de acessos que a palavra "misantropia" chegou à tela do celular de milhões de brasileiros.

Na madrugada de 20 de junho, um alerta foi enviado pelo sistema da Defesa Civil para praticamente todo o Brasil. A mensagem trazia uma palavra misteriosa: "misantropia", que significa ódio à humanidade.

O alerta partiu do Sistema Nacional da Defesa Civil, mas foi disparado por um invasor que não deveria ter acesso à plataforma.

A Defesa Civil descobriu que o alerta foi enviado usando logins e senhas de dois bombeiros do Pará.

Segundo Tito Queiroz, secretário do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, o governo trabalha de maneira integrada com diferentes órgãos para combater vulnerabilidades e tentativas de ataques aos sistemas.

A mesma palavra apareceu repetidas vezes nas conversas acompanhadas pelo Fantástico.

Segundo investigadores, o termo não foi escolhido por acaso.

Para Michele Prado, assessora do NUPVE-MPRS, levar a palavra "misantropia" para muitas pessoas pode despertar a curiosidade de adolescentes, que podem procurar o significado e acabar entrando em alguma subcultura.

Para o procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, o uso excessivo de telas pode levar jovens a frequentar ambientes digitais com predadores e perigos, nos quais podem ser acolhidos por comunidades onde o ódio, a violência e o sadismo são as regras.

O procurador também alerta para o risco da exposição de dados sensíveis, que podem afetar sistemas públicos como um todo.

Fator humano' é apontado como elo mais frágil.

As autoridades alertam que o descuido com senhas, logins, links e mensagens pode facilitar a obtenção de dados pessoais e institucionais por criminosos.

Segundo Alan Douglas Bento da Costa, mesmo quando uma empresa possui camadas essenciais de segurança, o fator humano pode ser o elo mais frágil.

Por isso, ele destaca a importância da conscientização dos usuários para que não cliquem em qualquer conteúdo.

O Conselho Nacional de Justiça e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina afirmam que reforçam a proteção de seus sistemas com autenticação multifator, controle de acessos, fortalecimento da gestão de credenciais e capacitação de colaboradores.

O CNJ também afirma que trabalha com os tribunais para prevenir, detectar e responder a incidentes cibernéticos.

O governo do Paraná informou que possui um projeto de cibersegurança avançado nos sistemas do estado, semelhante ao utilizado por grandes empresas do setor privado e por organismos internacionais.

O Ministério da Saúde e a Receita Federal informaram que não foram identificadas evidências de ataque cibernético, invasão ou comprometimento de seus respectivos sistemas.

Os órgãos afirmaram ainda que eventuais casos de comprometimento, compartilhamento ou uso indevido de credenciais individuais de usuários autorizados, assim como a simples oferta de supostos acessos, consultas ou credenciais, não são prova de invasão ou violação.

Em números

  • Só em 2026, o monitoramento encontrou 18 bilhões de dados expostos

Fontes consultadas

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