O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, afirmou nesta sexta-feira (7) em entrevista ao g1 e à GloboNews que, se eleito presidente, vai anistiar as pessoas condenadas pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. O político propôs ainda criar uma polícia unificada da América do Sul para combater o crime organizado e revisar a reforma tributária.
Entre os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro estão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio Bolsonaro, que disputa também a Presidência.
Para Caiado, a anistia é "uma medida que tem o sentido de pacificar o país".
"Isto é uma briga inútil, é uma briga que só traz desgaste. Eu tenho consciência absoluta que eu promover a anistia, este assunto sai da pauta e nós vamos viver um outro momento. Um movimento de produção, de desenvolvimento, de pautas que sejam relevantes para as pessoas", afirmou.
A entrevista de Ronaldo Caiado foi conduzida pelas jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery nos novos estúdios da GloboNews, no Rio de Janeiro, e teve duração de uma hora e meia.
Após a exibição, o conteúdo completo ficará disponível em vídeo no g1 e em áudio no podcast O Assunto.
Anistia: Caiado voltou a prometer que vai anistiar os condenados pelo 8 de Janeiro e afirmou que o assunto é uma "briga inútil que só traz desgastes".Nada de retaliação aos EUA e negociação com terras raras: descartou retaliar os Estados Unidos, sob o argumento de que a medida prejudicaria as exportações e os investimentos americanos no Brasil. Como instrumento de negociação, citou as reservas brasileiras de terras raras.Privatizações: afirmou que privatizaria os Correios e o segmento de gás da Petrobras, mas não a exploração em águas profundas. O candidato, porém, disse que não privatizaria o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.Polícia da América do Sul: afirmou que pretende propor a criação de uma polícia para os países da América do Sul como forma de atingir as facções criminosas internacionais. Reformas: pretende enviar ao Congresso, no primeiro dia de governo, reformas administrativa e política e mudanças na reforma tributária. Para promover o ajuste fiscal, defendeu cortes na máquina pública e uma revisão da Previdência, mas não detalhou as medidas nem quais incentivos fiscais poderiam ser cortados.Contra câmeras corporais: Caiado se posicionou contra o uso e disse que o equipamento inibe a atividade policial.
O candidato comparou a discussão sobre anistia de condenados pelos atos de 8 de janeiro àquela sobre a soltura do presidente Lula e à recuperação dos direitos políticos do petista em 2021.
Lula foi preso em 2018 após condenações por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. Ele ficou preso por 580 dias e foi solto em novembro de 2019. Em 2021, o STF anulou as condenações da Lava Jato contra o petista, restabeleceu seus direitos políticos e abriu caminho para que ele voltasse à disputa presidencial e se elegesse em 2022.
“Essa discussão sobre tentativa de golpe é a mesma que eu buscaria sobre soltar o Lula para ser candidato. São duas coisas. Teve uma tentativa de golpe no dia 8 de janeiro? Cada um tem o direito de pensar. E o Lula podia ser liberado e ser candidato com tantas denúncias claras?”, afirmou.
No contexto do tarifaço dos EUA contra o Brasil, Caiado foi questionado se retaliaria os Estados Unidos, caso fosse presidente. O candidato respondeu que uma medida desse tipo prejudicaria as exportações brasileiras e afastaria investimentos americanos.
“Retaliar os americanos? Acabar com o resto das exportações que nós temos e perder todos os investimentos americanos? Alguém em sã consciência falaria uma asneira dessa?”, disse.
Caiado disse que sentaria e conversaria com os EUA. Citaria, de acordo com ele, a capacidade de produção agropecuária brasileira, o poder de água doce e a presença de minerais críticos. Nesse momento, citou as reservas brasileiras de terras raras pesadas.
“Alguém tem o que eu tenho em terras raras pesadas? Alguém no mundo tem? Se eu fechar a mina de Goiás e de Minas, ninguém produz aço no mundo”, afirmou.
Questionado se oferecer as terras raras em uma negociação significaria entregar um recurso estratégico do país em troca de tarifas menores, Caiado negou e citou memorandos de entendimento firmados por Goiás com Japão e Estados Unidos.
"Você não está, de maneira nenhuma, entregando. Nós estamos entregando hoje, porque desde o Brasil Colônia saem daqui o pau-brasil e o ouro. Hoje continuam saindo o minério de ferro, o nióbio, terras raras por tonelada", afirmou.
Segundo Caiado, a proposta seria desenvolver no Brasil a tecnologia necessária para separar os elementos químicos presentes nas terras raras, agregando valor ao minério antes de sua comercialização.
"O memorando de entendimento com os americanos diz o seguinte: 'Olha, nós vamos, com a universidade, com o empresário, com o Estado e os empresários americanos, desenvolver a separação desses elementos químicos das terras raras pesadas'", disse.
Questionado se aceitaria negociar o PIX com os Estados Unidos, Caiado afirmou que o sistema de pagamentos não entraria na pauta. “Não, isso não está em negociação. Isso é sentimento nacional. Não entra na pauta. Isso é uma criação brasileira”, disse.
Para Caiado, o tarifaço imposto pelos EUA é nocivo ao Brasil, mas resultante de "causa e efeito", em relação à forma de o governo atual conduzir as negociações internacionais.
“O Itamaraty não vai ser mais um braço ideológico do PT. Eu quero trazer as boas cabeças. Tanto é que o [diplomata] Roberto Azevêdo vai estar comigo, já está me ajudando nessa área. Terá uma discussão, uma conversa em alto nível. Deixar a ideologia de lado”, afirmou.
O ex-governador de Goiás reforçou que o tarifaço dos Estados Unidos não é a única restrição que o Brasil enfrenta, e disse que conversaria com a África, Ásia e Europa. Sobre a União Europeia, citou o bloqueio de carne bovina, frango, mel e ovos.
Ao ser questionado sobre privatizações, Caiado afirmou que privatizaria os Correios e o segmento de gás da Petrobras, mas não a exploração em águas profundas. O candidato, porém, disse que não privatizaria o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.
“Petrobras, não. Acho que segmentos, como do gás. Não na parte de águas profundas. Correios, sem dúvida. Banco do Brasil, de maneira nenhuma, porque tem um poder ainda de contemplar regiões de maior carência no Brasil, [garantindo] acesso a esse sistema de crédito, que é muito importante. E Caixa, de maneira alguma”, afirmou.
O candidato do PSD disse que pretende encaminhar ao Congresso, já no primeiro dia de governo, propostas de reformas administrativa e política e de revisão de pontos da reforma tributária.
“Não vamos mandar tudo de forma fatiada. Eu vou encaminhar tudo. É um momento de urgência. É um momento em que precisamos encarar a vida como ela é, porque o cidadão não está suportando mais”, disse.
Sobre a ideia de revisar a reforma tributária, disse: “Eu vou revisar todos esses pontos que hoje estão penalizando a iniciativa privada." O candidato afirmou que quer "rever pontos que são fundamentais para que diminua a burocracia”.
Questionado sobre quais medidas adotaria para promover um ajuste fiscal caso seja eleito presidente, Ronaldo Caiado afirmou que pretende fazer cortes administrativos e conter gastos com a máquina pública.
"Em 2027, imediatamente, eu poderei tomar medidas, primeiro, que eu possa mostrar para a população: 'Agora entrou um homem aí que tem coragem'. Cortar na carne, ou seja, administrativamente", afirmou.
Questionado sobre o que cortaria, Caiado evitou detalhar as medidas. "Você quer que eu traga o detalhe aqui do meu ministro?", disse.
Perguntado se pretende cortar incentivos fiscais, Caiado afirmou que não poderia dizer onde os cortes seriam feitos.
"Eu não posso, neste momento aqui, dizer a você item a item, porque eu não tenho nem ideia de quanto [preciso cortar] para chegar a 6%, chegar a 9% do PIB, só de incentivos."
Durante a entrevista, o ex-governador de Goiás colocou entre as suas propostas para ajustes fiscais rever a reforma da Previdência. Ele, no entanto, não detalhou como isso seria feito.
"O que nós precisamos na reforma da Previdência, hoje, é discutir a sustentabilidade da Previdência no Brasil", afirmou o candidato, ao citar o envelhecimento da população.
"Quando você pensou a Previdência, pensou uma média em termos de 60 anos. Você imaginou cinco pessoas arrecadando para cada uma [que se aposenta]. Então, o cenário é outro. Você não pode ter uma radiografia de 40 anos atrás para dar o diagnóstico do doente. Você tem que ter uma radiografia de hoje", afirma.
Questionado sobre como lidaria com as emendas parlamentares caso seja eleito presidente, Ronaldo Caiado afirmou que governaria "tranquilamente" com elas, mas criticou o atual modelo.
Caiado disse que é preciso que o presidente tenha "autoridade moral" para negociar com o Congresso e defendeu que as emendas sejam destinadas a projetos previstos no plano de governo.
"É preciso que o cidadão entenda que vai ter de novo um presidente da República que tem autoridade moral e capacidade de negociar esses assuntos", disse.
Questionado sobre o que faria caso os parlamentares não aceitassem esse direcionamento, Caiado disse que não se pode "menosprezar" o peso da Presidência da República.
Questionado sobre o uso de câmeras corporais por policiais militares, Ronaldo Caiado se posicionou contra a ideia. Ele diz que o equipamento inibe a atividade policial.
Ronaldo Caiado afirmou que, caso seja eleito presidente, pretende classificar o crime organizado como "terrorismo doméstico" já no primeiro dia de governo para permitir a atuação das Forças Armadas no combate às facções criminosas.
"As Forças Armadas vão entrar, mas não é para prender. Exército e Marinha não entram para prender, entram para resolver", afirmou.
Questionado sobre o que significaria "resolver", Caiado disse que o objetivo seria "reocupar o território".
"Resolver é reocupar o território. Quem reagir sabe que está reagindo contra as Forças Armadas e contra as polícias de segurança", disse.
Caiado afirmou que a medida permitiria utilizar Aeronáutica, Marinha e Exército, principalmente na região amazônica.
Questionado se seria necessário aprovar uma lei para permitir essa atuação das Forças Armadas, Caiado respondeu: "Exatamente."
No decorrer da entrevista, Caiado insistiu na importância de “resgatar o patrimônio territorial” do Brasil e “reocupar” o território do país. Falando sobre segurança pública, citou o Rio de Janeiro e falou sobre a dificuldade de transitar no estado.
O candidato reagiu a um vídeo dele exibido durante a entrevista, em que fala sobre as polícias brasileiras. “Polícia Militar, Polícia Civil é feita para prender. Polícia do Exército é feita para reocupar o território”, dizia na gravação.
Ronaldo Caiado afirmou que o Brasil caminha para a “mexicanização”. A declaração foi dada ao defender que organizações ligadas ao narcotráfico sejam classificadas como terroristas, o que permitiria o emprego das Forças Armadas contra esses grupos.
“Ou, se nós não tomarmos uma medida como essa, o Brasil vai para a mexicanização. Já está, em grande parte”, disse.
Na sequência, Caiado explicou que usa o termo para se referir ao avanço do narcotráfico sobre a economia formal e os poderes públicos, inclusive por meio da eleição de representantes pelas regras democráticas.
“A mexicanização hoje é essa realidade: o narcotráfico já toma conta da economia formal, está tomando conta dos poderes e elegendo pelas regras democráticas. E o Brasil passa a ser um narcoestado”, afirmou.
Ao tratar de combate ao crime organizado, Caiado afirma que pretende propor a criação de uma polícia para os países da América do Sul como forma de atingir as facções criminosas internacionais.
"São dez países que compõem a fronteira com o Brasil. Esses dez países eu os procurarei para nós montarmos da mesma maneira que a Europa desenvolveu uma polícia que transita entre todos", disse.
"Como presidente, eu vou fazer um périplo pelos dez países limítrofes com o Brasil. É a mesma coisa que a Europa fez. Eu não estou inventando a roda. Eu quero criar essa polícia na América do Sul. Eu quero ter uma polícia que possa transitar”, afirmou.
Segundo o candidato, o comando dessa corporação seria revezado com eleições entre os países e que tentará ser o primeiro comandante. Caiado diz que ainda não tratou do assunto com nenhum outro país, mas que o fará assim que assumir a Presidência, se eleito.
Ronaldo Caiado respondeu sobre o Consórcio da Paz, formado por sete governadores em 2025 com o objetivo de combater o crime organizado. A iniciativa não avançou.
Caiado atribuiu o resultado à falta de apoio e de recursos do governo federal. “Nós nunca tivemos o apoio do governo federal”, afirmou.
Segundo ele, os estados assumiram gastos com penitenciárias, armamentos, formação de policiais e plataformas de inteligência artificial para combater crimes de competência federal. Caiado também afirmou que recursos dos fundos de segurança pública e penitenciário foram bloqueados.
Ao ser lembrado de que o consórcio surgiu no contexto da oposição dos governadores à PEC da Segurança Pública, Caiado negou essa relação e afirmou que era contrário à proposta por considerar que ela permitiria ao governo federal interferir no comando das polícias estaduais.
“O passo que ele queria dar era tomar o comando das polícias militares, para dizer assim: ‘As diretrizes gerais, os governos deverão cumprir as regras federais’. Eu não tenho que interferir no governador”, diss.
"Em vez de ela dar liberdade para o polícia ir para o confronto com o bandido, ele prefere se resguardar", afirma o ex-governador de Goiás, ao citar que o profissional de segurança prefere não agir para evitar eventuais punições.
"Alguém que está numa sala refrigerada, em um ambiente pacífico, vai chegar e dizer: 'Teve uma agressão, ele não poderia agir desse jeito. A câmera mostrou que ele teve uma iniciativa, deveria ter falado 'mãos ao alto'. A pessoa tem que entender que estamos em uma guerra, hoje".
Caiado citou a realidade da segurança pública, com roubos de alianças, celulares e carros, para defender a tese de "guerra".
“Infelizmente, eu não cheguei à Suíça. Quero chegar lá. Mas hoje estou em um país em estado de guerra. É isso que nós temos que entender. Então, isso aí na Suíça é lindo. Na Suécia é lindo, na Noruega é lindo, na Dinamarca também”, disse.
“Agora, nós temos que entender que você não sobe a Favela da Maré, que você não sobe aqui o Morro do Borel e que os cidadãos que estão lá estão 100% sequestrados por aquela autoridade que é do narcotráfico."
Durante a entrevista, Ronaldo Caiado defendeu que os indicadores de violência do estado de Goiás deveriam ser confrontados com os da Bahia. Ao abordar o tema, o candidato citou números de homicídios no estado baiano e fez críticas ao período em que o PT está à frente do governo estadual.
“Por que comparar com São Paulo? Por que nós não comparamos Goiás com a Bahia? Porque, na Bahia, se mataram 60 mil jovens em apenas 17 anos. Os dados da Bahia são terríveis”, afirmou Caiado.
O estado de São Paulo tem um dos índices de homicídios a cada 100 mil habitantes mais baixos do Brasil, ao lado de Santa Catarina. Já a Bahia está entre os estados com maiores taxas de homicídios no país.
O ex-governador de Goiás foi questionado sobre a recente subida de tom contra o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Respondeu que mudou de ideia diante do acúmulo dos “novos fatos”, como o áudio enviado ao ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, a ida de Flávio à casa do fundador do Banco Master e a falta de transparência sobre o destino do dinheiro destinado ao filme "Dark Horse".
“A minha posição foi que ele se explicasse. Quando não explicou e acumulou outras situações, foi que não conseguiu convencer”, disse.
Questionado sobre a polarização política, que se apresenta nessa eleição entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Caiado disse que a população "vai refletir" até as eleições e lembrou que os dois candidatos mais bem posicionados nas intenções de voto são também os com maior índice de rejeição.
"Criou-se no Brasil a campanha do ódio e não a do bom senso: 'eu tenho ódio e um, eu voto no outro', 'eu tenho ódio no outro, eu voto no um'."
As entrevistadoras perguntaram sobre o fato de pesquisas mostrarem que Caiado é desconhecido por 44% da população, mesmo estando há 40 anos na vida pública.
"As pessoas não são obrigadas a me conhecer. Eu é que tenho que me esforçar agora para que as pessoas me conheçam", afirmou.
"Esta é a oportunidade de a pessoa me conhecer, conhecendo um médico, um cirurgião, um homem que tem raiz no setor rural. O homem foi deputado, senador, governador, não tem nada que me desabone na minha vida", continuou.
O candidato também afirmou que pretende usar os resultados de sua gestão em Goiás para se tornar mais conhecido nacionalmente.
A entrevista de Ronaldo Caiado faz parte de uma série realizada com os candidatos a presidente. Foram convidados os cinco primeiros colocados na pesquisa Datafolha mais recente, divulgada no dia 24 de julho.
O primeiro entrevistado foi Renan Santos, do Missão, nesta quarta-feira (5). Romeu Zema, do Novo, participou nesta quinta-feira (6).
O presidente Lula, que havia sido sorteado para a terça-feira (4), decidiu não participar.
terça-feira (4): Lula (PT) – a assessoria do presidente informou que ele não compareceria.quarta-feira (5): Renan Santos (Missão) – participou na quarta (5), veja como foi. quinta-feira (6): Romeu Zema (Novo) – participou na quinta(6), veja como foi.sexta-feira (7): Ronaldo Caiado (PSD) – confirmou presença.segunda-feira (10): Flávio Bolsonaro (PL) – ainda não confirmou presença.
O 1º turno das eleições ocorre no dia 4 de outubro.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Política, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.