Apresentação de aproximadamente duas horas e meia teve convidados de diferentes gerações, repertório diverso e celebração a um legado que transcende formações.
Em 7 de novembro de 1996, exatamente 30 anos antes de seu show de despedida, o Sepultura também se apresentava em São Paulo. Não na recém-inaugurada Suhai Music Hall, com capacidade para 9 mil fãs, mas no extinto Olympia, para 4 mil pessoas.
Era a segunda data seguida naquele local e a penúltima de uma série de três performances no Brasil. A turnê da época, bem mais focada nos Estados Unidos, promovia Roots (1996), até hoje seu álbum mais popular — e o último com o vocalista e guitarrista Max Cavalera.
Na ocasião, Max, seu irmão e baterista Iggor Cavalera, o guitarrista Andreas Kisser e o baixista Paulo Jr foram introduzidos à plateia por Zé do Caixão (citado na letra de “Ratamahatta”).
Tocaram 20 músicas, incluindo covers de Motörhead (“Orgasmatron”), Celtic Frost (“Procreation (of the Wicked)”) e Chico Science & Nação Zumbi (“Monólogo ao Pé do Ouvido”).
No dia seguinte, tocaram no Rio de Janeiro.
Levaria apenas uma semana para aquela formação implodir de vez. Após anos de divergências em função do gerenciamento do Sepultura — conduzido desde 1989 por Gloria Cavalera, esposa de Max —, estourou em Buenos Aires, no dia 14 de novembro de 1996, uma briga “daquelas” entre o frontman e seus colegas.
O vocalista e guitarrista disse, anos atrás, à revista Metal Hammer, que “foi ali que o Sepultura acabou”.
Errado. O Sepultura acabou em 7 de novembro de 2026. Max e os colegas romperam em dezembro de 1996, após os três remanescentes se negarem a renovar o contrato de Gloria para empresariamento do grupo (ela poderia permanecer como manager individual do marido, mas negou a oferta).
Andreas, Iggor e Paulo passaram a trabalhar sozinhos em novas músicas até que, em 1997, decidiram trazer Derrick Green, vocalista americano indicado por Mike Gitter, A&R da gravadora Roadrunner.
O público conheceu o novo frontman em 1998, com o álbum Against — segundo relatos, pouco promovido pelo próprio selo devido a discordâncias internas sobre a decisão do trio em recrutar Green.
A vida seguiu. Derrick permaneceu na formação — são 29 anos, mais que o dobro dos 12 de Max — e gravou mais oito álbuns após Against. Iggor optou por sair em 2006, sendo substituído por Jean Dolabella, Eloy Casagrande e, enfim, o americano Greyson Nekrutman.
O Sepultura, notadamente, passou por altos e baixos, tanto criativos quanto comerciais. Mas resistiu. De forma consciente — como uma eutanásia, causa defendida por Andreas desde a morte de sua esposa, Patrícia, em 2022 —, o grupo encerra suas atividades naquele que parece ser o seu melhor momento em 30 anos.
As circunstâncias do “funeral” tiveram de ser ajustadas. O show de despedida ocorreria na Arena Pacaembu, um estádio, com capacidade para pelo menos o triplo de fãs acomodados na Suhai Music Hall.
Andreas Kisser disse que desejava a presença de todos os ex-integrantes, incluindo Max e Iggor, mas os membros fundadores optaram por não participar. O baterista recusou o convite de modo amigável diretamente a Kisser, enquanto que, no caso do vocalista, a negativa veio por meio de empresários.
Não se sabe se Eloy Casagrande chegou a ser de fato chamado. Jean Dolabella até foi confirmado, mas não tocou. Jairo Guedz, guitarrista dos primeiros trabalhos, marcou presença, além de convidados como João Gordo e Jão (Ratos de Porão), membros do Chained Saint e Torture Squad, entre outros.
Na abertura, os ícones thrash americanos do Sacred Reich, os gigantes do death gaúcho Krisiun e o supergrupo Metal Allegiance, com membros do Dream Theater, Testament, Mastodon e mais.
Às 21h05, “War Pigs”, do Black Sabbath, começou a tocar nos alto-falantes da Suhai Music Hall. Sete minutos depois, foi a vez de “Polícia”, dos Titãs. A essa altura, já havia uma roda na plateia, formada ainda durante uma introdução musical gravada.
Às 21h15, finalmente, Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Jr. e Greyson Nekrutman subiram ao palco, para um show que duraria aproximadamente duas horas e meia.
Andreas vestia uma camiseta estampada com “That’s all folks”, referência ao encerramento de desenhos animados. Nem precisava de explicação.
A escolha do repertório ofereceu uma amostra da amplitude da discografia. Das 30 músicas executadas, 18 vieram do período com Max, 10 da fase com Derrick e duas foram covers do Ratos de Porão.
Não dava para ser tão diferente: a era inicial do grupo tem peso maior. Talvez fosse possível apenas incluir mais canções dos discos gravados a partir da década passada, com Eloy Casagrande, mas há muito pouco do que se reclamar.
Os anos com Green apareceram representados já na sequência pela sofisticada “All Souls Rising”, do EP The Cloud of Unknowing (2026), e a direta “Kairos”, talvez o maior clássico deles dos últimos 29 anos.
A intrincada “Means to an End”, de Quadra (2020), gira em torno da bateria criada por Casagrande e muito bem executada por Nekrutman. O baterista de 24 anos chegou à formação poucas semanas antes do início da turnê de despedida e, ao longo da excursão, ganhou familiaridade com o repertório.
Andreas demonstrou reconhecer esse esforço ao agradecer publicamente sua contribuição. Disse que Greyson entrou em uma roubada, mas conseguiu se integrar, aprender o repertório e até se “tornar brasileiro”.
A sequência de convidados começou com Sean Sterling e Ethan Kahn, vocalista e guitarrista do Chained Saint, respectivamente, em “Propaganda”. A enérgicva participação teve significado especial depois de Andreas ter elogiado a jovem banda americana como uma espécie de “mini-Sepulturinha”.
Depois, Alan Wallace, do Eminence, grupo também originário de Belo Horizonte, entrou para “Dusted”, composição de Roots que flerta com o nu metal sem abandonar o groove particular do Sepultura.
Yohan Kisser, filho de Andreas e seu companheiro no Kisser Clan, surgiu para “Convicted in Life”, uma das músicas mais aceleradas da fase Derrick. Nas três ocasiões, a presença de uma segunda guitarra deu ainda mais corpo aos riffs, embora Andreas seja um dos raros instrumentistas do metal capazes de preencher sozinho um espaço tão amplo.
Após a cadenciada “The Place”, outra do EP recente, mais participações. Andreas e Moyses Kolesne (Krisiun), os dois guitarristas mais importantes da música extrema brasileira, ficaram sozinhos no palco para “Itsári”, tocada em violões de sete cordas.
Moyses permaneceu para “Kaiowas”, acompanhando uma jam percussiva que ganhou dezenas de novos participantes, inclusive crianças. A volta à velocidade aconteceu com “Dead Embryonic Cells” e “Beneath the Remains”.
Nesta, Amilcar Christófaro (Torture Squad), assumiu a bateria. Andreas agradeceu ao músico por ter ajudado o Sepultura em situações anteriores envolvendo problemas com bateristas, que, como brincou, não foram poucas.
Experimentos, discursos e mais convidados.
Número relativamente experimental do set, “Breed Apart” recuperou a aproximação com o manguebeat. Foi sucedida por um momento curioso: um solo de guitarra de Andreas Kisser finalizado com uma inusitada intervenção artística que consistiu em prender o instrumento em uma grande tela e a lançar tinta sobre a superfície, numa espécie de pintura ao vivo.
Em “Sepulnation”, até o visual ficou ousado: Paulo Jr. voltou ao palco de boina.
Introduzido com um discurso de pleno reconhecimento feito por Andreas exaltando seu coração enorme e a capacidade de suportar as dificuldades, Derrick empunhou uma guitarra, algo que admitiu não fazer havia 15 anos.
O motivo? Oferecer uma necessária base para “Reza” durante a participação de João Gordo, como na gravação original. O vocalista do Ratos de Porão permaneceu para versões pesadíssimas de “Crucificados Pelo Sistema” e “Beber Até Morrer”, ambas com seu colega de banda, Jão, também no palco.
Antes de “Crucificados”, Gordo berrou “f*da-se a família Bolsonaro”. Ao fim, o público mandou Bolsonaro (não se sabe quais, talvez todos) ir “tomar no c*”. Andreas respondeu: “já tomou e vai continuar tomando”.
O discurso seguinte foi dedicado a Paulo Jr., com Andreas reconhecendo que nada daquilo teria sido possível sem o baixista. Um agradecimento particularmente apropriado para um integrante frequentemente menos destacado nas narrativas sobre o Sepultura, mas que permaneceu durante toda a trajetória.
Deu para notar a mudança no semblante e até na coloração do rosto do músico, visivelmente emocionado. Kisser também introduziu o convidado seguinte: Jairo Guedz, primeiro guitarrista do grupo, que em 1987 lhe emprestou seu instrumento e ainda lhe ofereceu hospedagem em sua casa, em Belo Horizonte, mesmo sabendo que aquele jovem estava entrando justamente em seu lugar na formação.
Com Jairo no palco, vieram “Biotech is Godzilla”, “Slave New World” e “Troops of Doom”. A primeira, composta com letra de Jello Biafra (Dead Kennedys), recuperou a dimensão hardcore, enquanto as duas seguintes retomaram a essência thrash do Sepultura.
Das três, apenas a última foi gravada originalmente por Guedz. Sua presença no palco pareceu cíclica: o único representante (além de Paulo) do início estava ali justamente nos momentos finais daquela história.
A deslocada balada “Beyond the Dream” trouxe outro momento de contraste antes de “Territory” e “Refuse/Resist” recuperarem a agressividade e o teor político de Chaos A.
D. (1993). A primeira discute disputas territoriais e conflitos de diferentes naturezas, enquanto a segunda nasceu de imagens de confrontos e manifestações populares.
Por fim, uma versão encurtada de “Ratamahatta”, única canção do Sepultura em todo o set a ter letra em português, e, claro, “Roots Bloody Roots”. Ambas manifestam brasilidade de um jeito característico, seja em ritmo, referências explícitas ou reflexões líricas calcadas em identidade cultural.
Por razões distintas, o show de sábado, 7, não pareceu o fim do Sepultura. Seja por soar muito bem — na última década, vivenciou seus melhores momentos desde o traumático rompimento com Max Cavalera — ou por não ter tido um momento “full circle”, de estar em plena paz com seu passado.
As ausências de Max e Iggor foram sentidas, de modo a fazer com que a apresentação na Suhai parecesse apenas a conclusão de uma turnê.
Mas é o fim. Tretas à parte, o Sepultura encerra suas atividades com uma série de méritos artísticos e comerciais. Foi imprevisível até mesmo em seus momentos derradeiros.
Permanece, agora, um legado inestimável para a música como um todo. Ainda está para nascer um grupo que tenha feito tanto, numa história que passou por um início no thrash/death metal, incorporação de elementos do hardcore punk, groove metal e industrial, aproximação a percussões tribais e elementos culturais tipicamente brasileiros, exploração de elementos característicos do progressivo e até do erudito, com direito a letras críticas à sociedade que seguem atuais.
E tudo isso foi feito por uma banda do Brasil. Sepultura do Brasil.
Sepultura — setlist do show de despedida.
1. Arise 2. Altered State 3. Desperate Cry 4. All Souls Rising 5. Kairos 6. Means to an End 7. Propaganda (com Sean Sterling e Ethan Kahn, do Chained Saint) 8. Dusted (com Alan Wallace, do Eminence) 9.
Convicted in Life (com Yohan Kisser) 10. Atitude 11. We’ve Lost You 12. Against 13. The Place 14. Itsári (com Moyses Kolesne, do Krisiun) 15. Kaiowas (jam percussão; com vários convidados) 16.
Dead Embryonic Cells 17. Beneath the Remains (com Amilcar Christófaro, do Torture Squad) 18. Breed Apart 19. Solo de guitarra + pintura ao vivo 20. Sepulnation 21.
Reza (com João Gordo) 22. Crucificados Pelo Sistema (Ratos de Porão; com João Gordo e Jão) 23. Beber Até Morrer (Ratos de Porão; com João Gordo e Jão) 24. Biotech is Godzilla (com Jairo Guedz) 25.
Slave New World (com Jairo Guedz) 26. Troops of Doom (com Jairo Guedz) 27. Beyond the Dream 28. Territory 29. Refuse/Resist 30. Solo de bateria 31. Ratamahatta + Roots Bloody Roots.
Em números
- Não na recém-inaugurada Suhai Music Hall, com capacidade para 9 mil fãs, mas no extinto Olympia, para 4 mil pessoas
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