Cantor celebra nova visita ao Brasil para show único, discute participação de Tony Iommi e homenagem a Morrissey em novo álbum, revisita passado e garante: agora está ‘burro de uma forma mais inteligente’.
À Rolling Stone Brasil, semanas antes de sua nova apresentação no Nubank Parque, em São Paulo, marcada para o dia 13 de outubro, ele reflete sobre as mudanças ao longo das duas décadas.
menos louco, mas ainda louco. Hoje em dia, sou burro de uma forma mais inteligente.”.
Mesmo com apenas uma visita ao Brasil em 2006 — e esta nova agendada para 13 de outubro, em meio à turnê Britpop e com realização da 30e —, Williams é um enorme sucesso por aqui.
São Paulo é a quarta cidade que mais ouve o cantor britânico no Spotify. Seu retorno ocorre justamente em um estádio, com capacidade para receber até 50 mil fãs.
O single “Angels”, hit de seu primeiro álbum, Life Thru a Lens (1997), e a coletânea The Best So Far (2006), disponibilizada exclusivamente no país, receberam certificações de ouro pelo alto número de vendas.
Entendemos que Robbie é, hoje, uma pessoa diferente em comparação a 2006. Mas o que muda em seu show.
Para atingir tal objetivo, ele recorre a diferentes armas. Seu show atual tem 20 músicas e dura quase duas horas. Além de sua galeria de hits — composta por “Let Me Entertain You”, a citada “Angels”, “Rock DJ”, “Feel”, “Kids”, “Millennium” e tantas outras faixas —, Williams recorre a covers de clássicos de rock, em maioria num pot-pourri.
As escolhas mais frequentes incluem “Paranoid” (Black Sabbath), “Song 2” (Blur), “Another One Bites the Dust” (Queen), “Ace of Spades” (Motörhead) e “Hey Jude” (Beatles).
Ao iniciar a etapa sul-americana da tour atual, ele incluiu até mesmo “Wonderwall”, sucesso do Oasis.
Este é apenas mais um dos vários pontos que conectam Robbie Williams a uma definição curiosa: ele é, possivelmente, o popstar mais rockstar que temos. Não apenas pela atitude dentro e fora dos palcos, como também por seu gosto musical estar diretamente ligado ao gênero em questão.
O artista é apaixonado por Beatles, adora Queen a ponto de permitir a entrada dessa influência em seus shows, tem Elvis Presley e Bono como principais referências de canto e, entre idas e vindas, associou-se à fórceps ao movimento Britpop virando até mesmo amigo — para depois tornar-se desafeto — do Oasis.
Aliás, era para ter sido uma piada a escolha de título de seu álbum mais recente, Britpop, lançado em janeiro deste ano e responsável por batizar, ainda, a turnê que o traz de volta ao Brasil em outubro.
Williams tem dito em outras entrevistas que só escolheu esse nome porque é britânico e canta música pop. Também alega que não o deixaram entrar no movimento cultural.
Todavia, a brincadeira fez diversos roqueiros curiosos ouvirem o disco, seu 16º a chegar ao topo das paradas britânicas, superando um recorde dos Beatles. Para além do título, há outros atrativos para essa fatia de público: uma participação de Tony Iommi, lendário guitarrista do Black Sabbath, na faixa de abertura “Rocket”; e uma canção composta em homenagem a Morrissey, cantor ex-Smiths, chamada.
No texto oficial de divulgação de Britpop, Williams é citado dizendo: “Decidi criar o álbum que eu queria escrever e lançar depois de deixar o Take That em 1995, o auge do Britpop”.
À Rolling Stone Brasil, ele refuta sua própria declaração anterior. “Na verdade, eu cheguei a fazer aquele disco em 1997; chama-se Life Thru a Lens”, explica, citando seu primeiro e mais decisivo trabalho.
Sobre a oportunidade de trabalhar com Tony Iommi, um dos criadores do heavy metal como o conhecemos ao lado do Black Sabbath, o cantor deu uma resposta peculiar: “Ele é um cara adorável.
Humilde. Normal. Ele é normal, e um deus do rock. Quero fazer mais coisas com ele”.
Em seguida, relembrou sua participação em um tributo a Ozzy Osbourne na edição 2026 do Brit Awards, junto de músicos que trabalharam com o saudoso vocalista do Sabbath: o guitarrista Zakk Wylde, o baixista Robert Trujillo (hoje no Metallica), o baterista Tommy Clufetos e o tecladista Adam Wakeman.
Nova contradição: seus próximos passos serão “ultra-pop” ou “mais rock”? A saber. Se depender de Iommi, Williams permanece na música pesada, pois o guitarrista do Black Sabbath até mesmo tomou emprestado o baterista da banda de apoio do cantor.
Karl Brazil assumiu as baquetas de From the Dark, próximo álbum solo de Tony, a ser disponibilizado em 23 de outubro.
Já em relação à música “Morrissey”, um detalhe curioso: Robbie começou a trocar mensagens com o ícone ex-Smiths com o intuito de convidá-lo para participar de um videoclipe.
E o que Moz falou sobre a canção, que traz a participação de Gary Barlow, ex-colega de Robbie no Take That? “Nada”, respondeu o astro, que, em seguida, imaginou: “Mas acho que se você tirar tudo o que o Morrissey pensaria profissionalmente, de forma progressista ou vanguardista, e expressaria sobre essa música.
acho que se você tirar tudo isso, ele provavelmente ficaria bastante satisfeito e grato por ela existir. Sabe, ele poderia até odiá-la, mas ao mesmo tempo, pensaria: ‘Nossa, alguém pensou em mim’.
Isso vem de um lugar de enorme respeito.”.
Parágrafos atrás, Robbie Williams disse ter sido visto pela indústria musical como “alguém vindo de um meio tão cafona”, pois havia saído do Take That, um dos grupos pop mais famosos do Reino Unido na primeira metade dos anos 1990.
Entre fase original e reunião na década passada, a formação composta por Williams, Gary Barlow, Howard Donald, Mark Owen e Jason Orange emplacou nada menos que 11 singles no top 5 das paradas locais, sete deles na primeira posição.
Todavia, a relação entre Robbie e os colegas, em especial Gary — alçado como principal cantor e compositor do grupo — era tumultuada. A saída de Williams da formação, em 1995, ocorreu sob forte ressentimento.
Seu sucesso como artista solo, justo quando Barlow não conseguia se estabelecer fora da banda, alimentou uma rivalidade de mão única que, pelo bem da saúde mental dos envolvidos, nem precisava existir.
Quando retomou suas atividades, em 2005, o Take That ainda não contava com Robbie. Este, por sua vez, voltou apenas em 2010, após um encontro no qual os dois enfim baixaram a guarda e pediram perdão um ao outro.
Williams permaneceu até 2014, quando saiu, agora, em paz com os ex-colegas, para focar novamente na carreira solo e na paternidade. Mas isso não significou desfecho, vide a colaboração dos dois em “Morrissey”.
Sempre bem-humorado, o astro não poderia encerrar uma reflexão séria sem uma gracinha: “Acho muito engraçado que, especificamente, Gary Barlow e eu tenhamos nos unido para compor uma música pop alegre sobre.
E o que Williams pensa sobre o Take That ainda estar na ativa, com direito a um novo álbum, Dreamers, com lançamento previsto para o fim deste ano? “Adoro isso”, respondeu.
Mas, claro, eles a guardaram para si mesmos.”.
Além da turnê Britpop, que passa por estádios de todo o planeta, Robbie Williams realizou neste ano uma curta temporada de shows em pequenos locais chamada Long 90’s.
Neste formato de apresentação, o astro não só toca o álbum Britpop na íntegra como, também, revisita Life Thru a Lens, seu primeiro disco solo, também em uma execução do início ao fim.
Para além dos já citados hits “Angels” e “Let Me Entertain You”, presentes em todos os seus repertórios, foi uma oportunidade única de relembrar canções menos celebradas a exemplo de “Ego a Go-Go”, “South of the Border” e “Killing Me”.
Mas a trajetória solo de Williams começa ainda antes de Life Thru a Lens. Em 1996, ele lança uma regravação de “Freedom 90”, de um de seus ídolos, George Michael — como ele, um artista que saiu da dinâmica coletiva (o duo Wham!) para consolidar-se de forma solitária.
O cover foi uma sugestão da gravadora, segundo relatos, após Robbie passar meses em festas e usando drogas em vez de focar no seu trabalho musical. “Acho que não é assim, fazendo um cover, que se deve começar uma carreira solo, mas, no fim, tudo deu certo, graças a Deus”, reconhece.
É importante lembrar que, quando deixa o Take That, em 1995, Robbie tem 21 anos. Já havia passado por estágios diversos da fama e sofrido muitas de suas consequências.
Pare e pense: quantas pessoas no mundo passaram por rompimentos tão traumático e internacionalmente notórios aos 21 anos de idade como Williams.
Isso, como esperado, deixou sequelas. Dependência química, diagnósticos relacionados à saúde mental e por aí vai. Questões superadas e amplamente comentadas pelo artista em tempos recentes.
Mas no meio da década de 1990, tudo estava aflorado. Não só as feridas, como, também, a necessidade de seguir em frente e mostrar-se um artista de verdade, após anos em uma boyband que trazia outro integrante como o principal cantor e compositor.
Nasce daí Life Thru a Lens. Foi seu primeiro trabalho com o experiente produtor e parceiro de composição Guy Chambers. Importantíssimo, pois Robbie, neste álbum lançado em 1997, começou a escrever letras sem experiência real como compositor.
Não sabia ao certo o que estava fazendo. No fim das contas, nunca sabemos.
Mesmo com alguns problemas de direcionamento — nem sempre soa como uma obra fechadinha, mas um apanhado de singles que vão do glam rock empoderado às baladas soul —, é um disco acima da média se considerarmos de onde veio este artista: uma boyband pouco aclamada pela ala mais crítica do público.
Muito disso vem da honestidade do material apresentado e sua associação real à vida do artista. A hedonista “South of the Border”, por exemplo, foi a primeira canção composta por Williams e Chambers e aborda a loucura da vida do cantor após a saída do Take That.
O elemento mais espontâneo de Life Thru a Lens — a sinceridade ingênua — é, curiosamente, o grande ponto fraco do álbum na opinião de seu autor. Robbie, que conta ter tido diferentes impressões sobre o disco a cada noite em que o tocava na íntegra durante os shows da sequência Long 90’s, opina.
Talvez ele ficasse mais constrangido se Life Thru a Lens seguisse o caminho natural do fracasso. Isso, de fato, quase aconteceu. O álbum estreou na parada britânica na 11ª posição, mas rapidamente despencou.
A gravadora considerava encerrar seu contrato, não apenas pela performance comercial decepcionante como, também, pelo longo período aguardando até o material ficar pronto.
Dois meses depois, com o lançamento de “Angels” como single, tudo mudou: a faixa, escolhida como apenas a quarta canção de trabalho, impulsionou as vendas a ponto de o disco, enfim, atingir a primeira colocação no Reino Unido e ficar 44 semanas no top 10.
Anjos realmente salvaram esse disco e, consequentemente, a carreira de Williams. O artista conta que a canção foi composta em parceria com Guy Chambers em 25 minutos.
O cantor fez a letra e a parte melódica, enquanto seu colega criou a música em si. Nasceu de um momento com ambos sentados, ao lado de fora de um café, olhando para uma fonte de água.
Um artista irlandês, Ray Heffernan, alega ter sido o criador de “Angels” após sua namorada ter sofrido um aborto espontâneo. Ele diz ter gravado uma versão demo junto de Robbie — algo confirmado pelo astro a um podcast em 2017, mas, segundo o próprio, a história parou por aí, pois a composição acabou refeita de modo significativo, refutando sua autoria.
Heffernan afirma ter embolsado 7,5 mil libras ao vender seus direitos. Williams não cita valores, mas diz ter pago “algum dinheiro” a Ray, evitando um processo.
Seu nome consta nos agradecimentos do encarte da segunda edição do single em CD na versão britânica. Décadas depois, em 2025, ele anunciou sua intenção de mover um processo para colher direitos autorais retroativos, com base em uma nova disposição do Reino Unido.
Anjos e entretenimentos à parte, Life Thru a Lens não é o álbum favorito de Robbie Williams em meio à sua discografia. Também não é o sucessor I’ve Been Expecting You (1998), seu recordista de vendas no Reino Unido, com mais de 2,6 milhões de cópias comercializadas.
Tampouco seus sucessores diretos. O predileto, na verdade, é temático: o natalino The Christmas Present (2019), que mescla novas composições com releituras para as tradicionais “Winter Wonderland”, “Let It Snow.
Let It Snow! Let It Snow!” e “The Christmas Song (Chestnuts Roasting on an Open Fire)”, bem como uma versão de “Merry Xmas Everybody” (Slade). As participações de Rod Stewart, Bryan Adams, Jamie Cullum, Helene Fischer e Tyson Fury podem até ajudar nessa avaliação, mas ele garante que é por conta do repertório.
A revelação foi feita após ele apontar: “Não acho que nenhum deles tenha sido subestimado. É por isso que continuo seguindo em frente. Acho que ainda não fiz aquele álbum.
Veio, então, o comentário sobre The Christmas Present. “Quer dizer, eu realmente amo o Natal e amo de verdade o meu álbum de Natal. É algo de que, em certos círculos, eu supostamente deveria me envergonhar, mas há várias músicas natalinas ali que são verdadeiros sucessos.
Não estou dizendo que indicaria o álbum às pessoas afirmando que ele foi subestimado. Mas é, sem dúvidas, o meu favorito.”.
A história de Robbie Williams retrata, de modo praticamente perfeito, os dilemas da fama precoce. O cantor entrou para o Take That aos 16 anos. Se seus colegas — que já eram todos maiores de idade —sofreram, ele acabou ainda mais impactado.
Era um menor experienciando situações que gerariam sofrimento até em adultos bem instruídos. Forte agenda de promoção, viagens incessantes, vigilância da imprensa e expectativas de fãs.
O artista já comparou fama com drogas. Não está nem de longe equivocado. Embora não exista uma tipificação exata de “vício em fama”, a situação pode adquirir características compulsivas.
James Hetfield, vocalista e guitarrista do também popular Metallica, já falou sobre o tema publicamente. Em entrevista de 2022 ao The New Yorker, apontou: “Estar em cima do palco é um mundo de fantasia.
Todo mundo te joga o ‘pózinho das maravilhas’. Você acredita nisso, vai pra casa e fica: ‘onde está esse pózinho das maravilhas?’ Não é tão maravilhoso agora estar sentado aqui sozinho com dois gatos, tirando o lixo para fora.
Meu corpo está cansado, mas minha mente continua. O que eu faço com isso?”.
Sair do Take That não necessariamente ajudou. Os problemas continuaram. Talvez até tenham se intensificado, pois a partir daí Robbie estava no centro da máquina.
Chegou ao ápice e, de lá, nunca mais saiu. O topo também pode ser hostil. O artista discutiu publicamente, ao longo dos anos, diagnósticos de neurodivergências, transtornos de aprendizagem e problemas de saúde mental, além da dependência química.
No início dos anos 2000, Williams precisou passar por uma intervenção promovida por ninguém menos que Elton John. O ídolo o incentivou pessoalmente a procurar tratamento.
Toda a história de Robbie é abordada em sua peculiar cinebiografia, Better Man (2024). O filme chama atenção por retratar o cantor como um chimpanzé feito em computação gráfica, com voz e movimentos interpretados por Jonno Davies.
Há duas explicações para tê-lo como um animal: em material oficial, diz-se que o cantor sempre se sentia um “macaco de circo”; nos bastidores, comenta-se que a ideia era promover esse longa como um drama musical, não biográfico, visto que Williams não é tão popular nos Estados Unidos, país determinante para o sucesso da obra.
O astro, curiosamente, contesta a versão de que se enxergava como um chimpanzé. Outra deliciosa contradição entre o que é divulgado e o que ele realmente diz. “Acho que o chimpanzé foi um recurso fascinante e incrível para dar ao filme um diferencial único e, nesse sentido, ele funcionou e foi feito, mas.
sinceramente, foi apenas uma ótima ideia que precisávamos justificar de alguma forma”, explica. “E a justificativa acabou sendo que, supostamente, eu me vejo como um chimpanzé.
Eu não me vejo assim. Foi apenas uma boa ideia para um filme.”.
Fato é que toda a história de Robbie Williams leva a reflexões e questionamentos sobre fama e assuntos relacionados. Portanto, não havia forma melhor de encerrar a entrevista que não fosse lhe pedir a lição mais importante aprendida a respeito de música e da indústria musical.
Robbie, inicialmente, destacou o caráter amplo do tema: “É uma pergunta grande, e acho que a resposta poderia preencher vários livros”. No entanto, ofereceu o que definiu como “frases de efeito típicas do mundo pop” ao responder.
Rolling Stone Brasil — especial Robbie Williams.
Robbie Williams é a capa da edição de outubro da Rolling Stone Brasil. Em entrevista como antecipação ao seu show no próximo dia 13 no Nubank Parque, em São Paulo, realizado pela 30e, o músico fala sobre o retorno ao Brasil após 20 anos, seu novo álbum Britpop, a parceria com Tony Iommi, a homenagem a Morrissey e as lições de mais de três décadas na indústria da música.
Edição em pré-venda no site Loja Perfil.
Em números
- Seu retorno ocorre justamente em um estádio, com capacidade para receber até 50 mil fãs
- Heffernan afirma ter embolsado 7,5 mil libras ao vender seus direitos
- Ssor I’ve Been Expecting You (1998), seu recordista de vendas no Reino Unido, com mais de 2,6 milhões de cópias comercializadas
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