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Cogumelo Records: 46 anos no coração do rock pesado de Belo Horizonte

Há 46 anos, uma loja de discos no Centro de Belo Horizonte começava a construir uma história que ajudaria a levar o metal mineiro para o mundo.

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Cogumelo Records: 46 anos no coração do rock pesado de Belo Horizonte

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Quem entra hoje na Cogumelo Records, no Centro de Belo Horizonte, encontra discos, CDs, fitas, livros, revistas e uma quantidade de história difícil de medir. Para quem acompanha o rock pesado há algumas décadas, o endereço é muito mais do que uma loja.

É um dos lugares que ajudaram a construir a identidade do metal brasileiro.

A história começou em 12 de agosto de 1980, quando João Eduardo de Faria Filho e Creusa Pereira de Faria, a Pat, abriram a Cogumelo como uma loja especializada em rock.

Naquele momento, a internet não existia, os discos importados eram difíceis de encontrar e o acesso às novidades do heavy metal dependia muito de lojas, revistas, fitas e do contato entre os próprios fãs.

A Cogumelo estava no meio disso e não demoraria muito para deixar de ser apenas uma loja.

Uma loja que virou ponto de encontro.

Nos primeiros anos, a Cogumelo tornou-se um lugar de encontro para músicos e fãs de rock e heavy metal. Quem frequentava o espaço encontrava discos e fitas, mas também encontrava informação.

Era ali que se descobriam bandas, trocavam-se gravações, combinavam-se shows e se conheciam outros músicos.

Em uma época em que uma fita demo podia ser o principal cartão de apresentação de uma banda, ter acesso a uma loja especializada fazia toda a diferença.

Foi nesse ambiente que a cena pesada de Belo Horizonte começou a ganhar corpo. Bandas como Sepultura, Sarcófago, Overdose, Chakal, Mutilator e Holocausto passaram a fazer parte daquele circuito.

Muitos dos músicos eram muito jovens e ainda estavam tentando descobrir até onde poderiam levar seus próprios sons.

A Cogumelo acompanhava esse movimento de perto e percebeu que aquelas bandas precisavam de algo que as grandes gravadoras não estavam interessadas em oferecer: uma oportunidade.

Em 1985, a Cogumelo deu um passo que mudaria definitivamente sua história.

A loja passou a atuar também como selo fonográfico e lançou "Bestial Devastation / Século XX", um split que reunia duas bandas mineiras: Sepultura e Overdose. O lançamento é um dos momentos mais importantes da história do rock brasileiro.

O Sepultura ainda era uma banda formada por adolescentes de Belo Horizonte, muito distante da dimensão que alcançaria anos depois. O disco tinha produção simples, orçamento limitado e toda a crueza característica das primeiras gravações do underground brasileiro.

Mas registrava uma cena que estava acontecendo naquele momento e, principalmente, mostrava que havia público para ela.

A Cogumelo continuou apostando no Sepultura e lançou, posteriormente, "Morbid Visions", em 1986, e "Schizophrenia", em 1987. O restante da história do Sepultura é conhecido: a banda deixou Belo Horizonte, ganhou espaço no exterior e se tornou um dos maiores nomes do metal mundial.

É justamente aqui que a história da Cogumelo ganha uma dimensão ainda maior.

O selo não foi criado apenas para lançar uma determinada banda. A proposta era registrar uma cena inteira.

Em 1986, a gravadora colocou nas lojas "Warfare Noise I", uma coletânea que reunia quatro nomes fundamentais do metal extremo de Belo Horizonte: Sarcófago, Chakal, Mutilator e Holocausto.

O disco acabou se tornando um dos registros mais importantes do underground brasileiro dos anos 1980.

Ouvir hoje aquelas gravações é voltar a uma época em que as bandas não tinham as facilidades tecnológicas disponíveis atualmente. O som era direto, agressivo e, muitas vezes, gravado em condições bastante precárias.

Mas havia personalidade. E havia uma identidade mineira começando a se formar.

Uma história que pertence a Belo Horizonte.

A importância da Cogumelo não se resume aos discos que lançou. Ela está ligada à própria formação da cena musical de Belo Horizonte.

Quando se fala sobre a relação da cidade com o metal, é impossível não passar pela loja, pelas bandas que frequentavam o espaço, pelos shows, pelas fitas demo e pela rede de pessoas que ajudou a construir aquela cena.

O reconhecimento dessa história chegou inclusive às instituições públicas. Em Minas Gerais, tramita uma proposta para instituir o Dia Estadual do Heavy Metal, em referência ao lançamento de "Morbid Visions", do Sepultura, em 1º de novembro de 1986.

A data escolhida diz muito sobre a dimensão que aquela cena alcançou.

O que começou como uma movimentação de jovens músicos e fãs em Belo Horizonte tornou-se uma parte reconhecida da história cultural do estado.

Talvez o mais interessante na trajetória da Cogumelo seja justamente o fato de que ela não nasceu com a intenção de fazer história. Nasceu como uma loja de discos.

A gravadora veio depois, quando seus responsáveis perceberam que havia uma cena acontecendo diante deles e que aquelas bandas precisavam ser registradas.

Vieram os primeiros LPs, as coletâneas, as demos, os shows, as dificuldades, o reconhecimento internacional e, posteriormente, as mudanças profundas na indústria musical.

O Sarcófago tornou-se referência do metal extremo.

Chakal, Mutilator, Holocausto, Overdose e tantos outros nomes passaram a fazer parte da memória do rock brasileiro.

Hoje, 46 anos depois daquela abertura em 1980, a loja continua no Centro de Belo Horizonte. Talvez essa seja a melhor maneira de medir sua importância. Enquanto muita coisa mudou ao redor, aquele endereço continua contando uma história que começou quando o metal brasileiro ainda estava dando seus primeiros passos.

Uma história que começou em Belo Horizonte, mas que há muito tempo deixou de pertencer apenas à cidade.

Uma loja, uma gravadora e, acima de tudo, um dos capítulos mais importantes da história do rock pesado brasileiro.

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Sarcófago e o impacto internacional.

Entre todos aqueles grupos, o Sarcófago teria uma influência particularmente grande sobre o metal extremo.

Formada em Belo Horizonte, a banda lançou pela Cogumelo o álbum "INRI", em 1987. O disco se tornaria uma referência para o black metal e para diversas vertentes extremas que surgiriam posteriormente.

Naquele momento, ninguém tinha como prever exatamente o tamanho da influência que aquelas gravações teriam. O que existia era uma cena pequena, formada por músicos, amigos e fãs que encontravam na música pesada uma maneira de se expressar.

A Cogumelo ajudou a registrar esse momento. E, ao fazer isso, acabou levando aquela produção para muito além de Minas Gerais.

A partir de Belo Horizonte, a Cogumelo passou a se relacionar com bandas de várias partes do país.

O catálogo foi crescendo e incorporou nomes importantes do underground brasileiro, como Ratos de Porão, Dorsal Atlântica, Vulcano, Lobotomia, The Mist, Sextrash, Drowned, Impurity, Headhunter D.

O selo ajudou a criar uma rede que permitiu que bandas de diferentes estados encontrassem público e chegassem a outros lugares. Em uma época sem plataformas digitais, isso tinha um peso enorme.

Um disco lançado pela Cogumelo podia circular por lojas especializadas, chegar às mãos de colecionadores e, por meio de contatos e correspondências, atravessar fronteiras.

Foi assim que o metal brasileiro começou a chamar atenção de quem estava do outro lado do mundo.

É impossível entender a importância da Cogumelo sem lembrar como era divulgar música nos anos 1980.

Hoje, uma banda pode gravar uma música em casa e publicá-la imediatamente. Pode divulgar um show pelas redes sociais e conversar diretamente com fãs de qualquer país.

Naquela época, o caminho era outro. Havia as fitas demo, os fanzines, as revistas especializadas, as cartas, os discos e, principalmente, o boca a boca.

A loja era um ponto central dessa comunicação. Para uma banda desconhecida, conseguir colocar sua música em uma gravadora independente significava muito. Para uma gravadora independente, apostar em uma banda desconhecida significava correr um risco.

Ao longo dos anos, o catálogo da Cogumelo passou a funcionar quase como um retrato da evolução do metal brasileiro. São trabalhos que ajudam a entender não apenas as bandas, mas também o momento em que foram produzidos.

Alguns discos se tornaram clássicos. Outros permaneceram mais restritos ao underground. Há ainda aqueles que ganharam importância justamente com o passar do tempo.

Esse acervo também ajuda a explicar por que a Cogumelo é lembrada até hoje por colecionadores e pesquisadores de música pesada.

Em 2023, a empresa publicou o "Catálogo Cogumelo 40 Anos", reunindo 204 páginas sobre a trajetória do selo e um DVD com imagens de um show realizado em 1986, em Belo Horizonte, com Sepultura, Overdose e Mutilator.

É uma forma de preservar uma história que durante muito tempo esteve espalhada em discos, fitas, fotografias, revistas e na memória de quem viveu aquela época.

A indústria da música mudou completamente desde 1980. O vinil perdeu espaço, o CD dominou o mercado, depois vieram os arquivos digitais, o streaming e as redes sociais.

Muitas lojas fecharam. Diversas gravadoras independentes desapareceram.

A Cogumelo atravessou todas essas mudanças. A loja continua no Centro de Belo Horizonte, mantendo a venda de discos e outros produtos relacionados à música, enquanto o selo continua trabalhando principalmente com estilos como death metal, thrash metal e black metal.

Também permanece ativo o trabalho de resgate de títulos históricos do catálogo.

É uma combinação curiosa de passado e presente: ao mesmo tempo em que preserva discos que ajudaram a escrever a história do metal brasileiro, a Cogumelo continua ligada à produção independente.

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