De nomes consagrados da música independente a promessas em início de carreira, o festival reúne em Recife, no sábado, 28 de novembro, uma programação que atravessa gerações, gêneros e territórios.
Há 23 anos, o Festival No Ar Coquetel Molotov cumpre um papel que poucos festivais brasileiros conseguem manter por tanto tempo: apresentar ao público artistas que ainda não chegaram ao grande público, mas cujo trabalho consistente merece atenção antes que se tornem inevitáveis.
A fórmula nunca se resumiu às atrações principais.
A edição deste ano, marcada para sábado, 28 de novembro, em Recife, reúne artistas que transitam entre psicodelia, música eletrônica, rap, coco de roda, brega funk e rock experimental.
A programação contempla tanto projetos com décadas de estrada quanto revelações que ainda estão preparando seus primeiros álbuns. Para Garcia, é essa convivência entre gerações e linguagens que define a identidade do festival.
Para ajudar o público a explorar a programação, a Rolling Stone Brasil selecionou 10 nomes que merecem atenção especial.
Renato Junior transformou o Africanoise em um laboratório no qual batidas eletrônicas, ritmos orgânicos e referências ao candomblé coexistem sem que um elemento se sobreponha aos demais.
Com sintetizadores analógicos, modulações e frequências graves, o projeto constrói uma sonoridade que aproxima ancestralidade e afrofuturismo. O álbum Cabaça (2025) venceu o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Lançamento Eletrônico e consolidou o Africanoise entre os projetos de destaque da música eletrônica experimental brasileira.
Renato também integra o coletivo PORÃX, dedicado a experimentações audiovisuais.
Natural de Sergipe e há mais de uma década na música eletrônica, Anti Ribeiro é DJ e artista sonora e plástica, com uma trajetória que vai além das pistas. Seus trabalhos de imersão sonora já foram exibidos na Bienal de Veneza, o que a tornou uma das representantes brasileiras da música experimental no circuito internacional de arte contemporânea.
Em suas apresentações, texturas industriais e balanços hipnóticos se alternam, criando uma experiência que oscila entre o atordoamento e a euforia, sem se prender a um gênero específico.
Dinho Almeida (vocais e guitarra), Benke Ferraz (guitarra), Raphael Vaz (baixo) e Ynaiã Benthroldo (bateria) voltam ao Recife para apresentar Bacuri (2024), seu trabalho mais recente.
Em 12 anos de carreira, o Boogarins passou por festivais como Coachella, Primavera Sound, Lollapalooza e SXSW, consolidando uma trajetória de resistência no cenário independente brasileiro.
O projeto aprofunda a psicodelia que sempre caracterizou a banda, mas apresenta letras que tratam o psicodélico como uma forma de alívio em tempos de monotonia e embotamento.
Formado em 2022, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, o quarteto reúne Caetano Bruxo (bateria), Guilherme Rosa (guitarra), Nadí (guitarra e voz) e Matheus Dalia (baixo).
Sua sonoridade combina rock psicodélico, referências nordestinas e experimentação. Ao vivo, os Bruxos de Nadí se destacam pelas longas passagens improvisadas e pela presença de palco teatral.
A EP A Fruta Que Tá Vindo (2025) passou por casas como Bolacha Discos e Tejú Nazaré, além dos festivais Udigrudi e Exporock. Para 2027, o grupo anuncia o segundo trabalho, Palavras Garoa, com paisagens sonoras aquáticas e arranjos mais extensos.
Criado em Fortaleza por Fernando Catatau, o Cidadão Instigado chega ao Coquetel Molotov em um ano de comemorações: 2026 marca três décadas de trajetória e o lançamento do quinto álbum, autointitulado.
Ao longo desse período, a banda conquistou uma posição singular na música brasileira ao combinar rock, psicodelia, canção e experimentação sem se prender a fórmulas.
O novo trabalho incorpora texturas eletrônicas e batidas de baixa fidelidade criadas durante um período de isolamento e renova a identidade do projeto com parcerias de artistas da cena contemporânea.
Cantora e compositora de rap, Cosmus ocupa lugar de destaque em duas frentes do cenário pernambucano: a cena grime do Recife e a cultura ballroom local, na qual é a figura materna da Casa da Lama.
Suas letras partem de vivências na periferia e de sua trajetória como pessoa travesti para construir um rap de confronto direto e urgência poética. A projeção dos últimos anos a levou a palcos de relevância nacional, e Cosmus usa essa visibilidade para promover a inclusão dentro e fora da comunidade LGBTQ.
Com 18 anos e uma EP de estreia que transforma a acusação de “nepobaby” em matéria-prima, Ciça chega ao Coquetel Molotov como um dos nomes mais comentados do rap nacional em 2026.
Filha dos rappers Bárbara Sweet e Slim Rimografia, ela cresceu sob o Viaduto Santa Tereza, coração das batalhas de rima de Belo Horizonte, mudou-se para São Paulo aos 15 e há dois anos constrói uma discografia que passa por mais de 2,3 milhões de streams em “tranquila & Calma” e pelo verso no álbum de Froid, Humor Negro.
A EP Nepobaby (2026), lançado em parceria com o programa AMPLIFIKA do Spotify e distribuído pela Symphonic Brasil, reúne sete faixas de boombap underground — entre elas “Segura a Bronca pt.
2”, continuação direta de uma faixa lançada pelo pai em 2003, e “Apenas Cecília”, a mais íntima do projeto. A capa recria o Ready to Die (1994) do Notorious B. I.
G. com ela no lugar do bebê. Irônica e precisa.
Com 18 anos e natural de Moreno, na Região Metropolitana do Recife, RELIKIA é um dos nomes promissores da nova geração do rap pernambucano. Suas referências passam pelo rap e pelo trap, e suas letras transformam vivências locais em faixas que já circulam na coletânea da gravadora Subsolo.
O álbum Maioridade marca sua chegada à vida adulta e traz uma declaração explícita: assumir o controle da própria história não é apenas um tema das letras, mas também uma postura de carreira.
Vinícius Tavares batizou seu projeto de Zé do Cão. A sonoridade que desenvolveu, chamada de eletro-coco, combina coco de roda, rock e batidas industriais em uma mistura ao mesmo tempo regional e cosmopolita.
Inspirado pelo Agreste pernambucano e, em especial, pelos símbolos de Toritama, o álbum de estreia, Cap. 01 (2026), reúne aboios, emboladas e amostras sonoras de referências como Nêgo Bispo.
O resultado é um estandarte pop e subversivo da cultura nordestina contemporânea.
Marc Nero, Breno Romero e Astroblack fundaram o Ego Eris a partir de uma expressão em latim: Tu fui, ego eris — “o que você é, eu era; o que eu sou, você será”.
A reflexão sobre a finitude atravessa a sonoridade do trio, que combina guitarras, teclados, vocais, programações e controladores eletrônicos para criar atmosferas densas e em constante transformação.
Nas apresentações, o grupo percorre diferentes texturas sem se prender a um único registro e aposta na coesão conceitual como fio condutor.
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