Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição deste domingo (25), empresários que teriam apoiado a reeleição do presidente passaram a ser expostos em listas que incentivam boicotes e circulam nas redes sociais e em grupos de apoiadores do candidato derrotado, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
A Folha viu listas do tipo em capitais como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais.
Empresários ouvidos pela reportagem relatam desde ameaças e mensagens hostis até o receio de perder clientes. Alguns afirmam ter sido incluídos mesmo sem declarar publicamente seu voto.
Em certos casos, a circulação das mensagens também motivou manifestações de apoio.
A livraria Martins Fontes, em São Paulo, foi incluída em uma delas. O dono da empresa, Alexandre Martins Fontes, 65, afirma que continuará manifestando publicamente seu apoio a candidatos nas eleições, apesar das ameaças de boicote.
A empresa declarou voto em Lula em 2022 e neste ano.
Eu respeito totalmente a decisão dos nossos clientes de votarem em quem eles quiserem, como eu gostaria que eles respeitassem a nossa decisão de publicamente dizer quem é o nosso candidato", afirma.
Segundo o empresário, nas duas eleições houve pessoas que disseram que deixariam de comprar na livraria devido ao posicionamento político. Mas ele diz não se arrepender e considera que a decisão de apoiar um candidato faz parte da liberdade de expressão.
Fontes afirma que a escolha está relacionada à defesa dos livros, da educação, da leitura e da cultura. Ele ressalta que a livraria comercializa obras de diferentes correntes ideológicas, inclusive de autores de direita e de pessoas que apoiam Jair e Flávio Bolsonaro.
Acredito que o papel da livraria é justamente expor tudo que se produz de cultura, de pensamento", diz.
O empresário afirma não estar preocupado com os possíveis efeitos do boicote e diz que a livraria cresceu nos últimos quatro anos. Para ele, clientes que valorizam o trabalho da empresa continuarão frequentando o estabelecimento, independentemente de suas preferências políticas.
A situação é diferente para pequenos empresários de cidades menores que dizem ter sido incluídos nas listas sem terem declarado publicamente suas preferências eleitorais.
Paula Ramos, 38, empresária do ramo de beleza em Ourinhos (SP), soube por uma cliente que seu nome havia sido incluído em uma lista de estabelecimentos que deveriam ser boicotados.
Ela afirma que nunca manifestou publicamente seu posicionamento político justamente para respeitar clientes de diferentes ideologias.
As pessoas estão deduzindo que sou de esquerda, que votei no PT [Partido dos Trabalhadores], simplesmente por eu não ter me manifestado. E, mesmo que eu tivesse me manifestado, não poderia ser assim", afirma.
Flávio Bolsonaro recebeu 61,82% dos votos válidos no segundo turno em Ourinhos, contra 38,18% de Lula.
É muito triste você ver seu nome numa lista como se fôssemos criminosos. Criminosos são essas pessoas que querem rebaixar o trabalho de outras", diz.
Segundo ela, a repercussão teve um efeito diferente do boicote pretendido: passou a receber mensagens de apoio e carinho, além de contatos de novas clientes interessadas em agendar procedimentos.
O respeito precisa ser mantido, porque senão a gente vai terminar numa guerra", afirma. A empresária diz que conversou com um advogado sobre possíveis medidas legais.
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