O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe nesta quinta-feira (24) o presidente da China, Xi Jinping, na Casa Branca para um encontro que terá como foco as relações comerciais entre os dois países, o acesso a minerais estratégicos e a crescente competição pelo desenvolvimento da inteligência artificial.
Xi Jinping chegou a Washington na quarta-feira (23) para uma visita de Estado de três dias.
A visita de Xi Jinping a Washington é a primeira em mais de uma década e ocorre em um momento de tentativa de estabilização das relações entre os dois países, ainda marcadas por disputas comerciais e tecnológicas, além de divergências sobre Taiwan e o Irã.
O presidente chinês deve chegar à Casa Branca às 10h desta quinta-feira, no horário de Washington (11h em Brasília). O protocolo inclui uma recepção com honras de Estado, presença de militares e um sobrevoo de um bombardeiro B-2 acompanhado de quatro caças F-22.
Após a cerimônia, Trump e Xi seguem para uma reunião bilateral reservada e, na sequência, participam de um encontro ampliado com integrantes dos dois governos.
A primeira-dama Melania Trump passará parte do dia com Peng Liyuan. As duas visitarão o Museu Nacional de Arte Asiática do Smithsonian. À noite, a Casa Branca oferecerá um jantar de Estado em homenagem ao casal chinês, com previsão de discursos dos dois presidentes.
Na sexta-feira, Xi cumprirá uma agenda mais enxuta antes de deixar os Estados Unidos, incluindo uma cerimônia do chá. A dimensão da recepção evidencia a importância atribuída pela Casa Branca à visita.
Embora Trump critique frequentemente as práticas comerciais chinesas, o presidente americano tem investido na relação pessoal com Xi na tentativa de avançar nas negociações econômicas e estratégicas.
O líder chinês chegou a Washington dias depois de os dois governos anunciarem uma nova extensão da trégua comercial. O acordo, que venceria em 10 de novembro, foi prorrogado por dois meses, até janeiro de 2027.
A extensão foi acertada após negociações entre o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng. A medida mantém a redução de parte das tarifas e evita, ao menos temporariamente, a imposição de novas restrições comerciais.
Isso permite que Trump e Xi iniciem a reunião desta quinta sem a ameaça imediata de uma nova escalada tarifária e abre espaço para negociações sobre um acordo comercial mais amplo.
A estrutura das tarifas americanas sobre produtos chineses, no entanto, continua complexa. Não existe uma única alíquota aplicada a todas as importações da China.
Há tarifas gerais, cobranças anteriores ao atual governo Trump e sobretaxas específicas para setores considerados estratégicos.
Produtos chineses de setores como aço, alumínio, veículos elétricos, baterias e semicondutores continuam sujeitos a tarifas adicionais e a outras restrições. Washington também mantém controles sobre a exportação para a China de determinados chips e tecnologias avançadas.
Pequim, por sua vez, preserva tarifas e outras medidas sobre produtos americanos, embora parte das retaliações tenha sido suspensa durante as negociações comerciais.
Outro ponto estratégico da reunião são as terras raras e outros minerais críticos, essenciais para a produção de equipamentos tecnológicos, veículos elétricos, sistemas militares e componentes da indústria aeroespacial.
A posição chinesa é particularmente relevante porque o país controla uma parcela significativa da cadeia global de processamento desses materiais. O acesso a minerais críticos tornou-se, assim, uma das principais ferramentas de negociação de Pequim nas disputas comerciais e tecnológicas com Washington.
O combate ao narcotráfico também deve figurar entre os temas discutidos. Trump acusa há anos a China de ser uma importante origem dos precursores químicos usados na fabricação do fentanil que chega ilegalmente aos Estados Unidos.
Washington pressiona Pequim a reforçar o controle sobre a produção e a exportação dessas substâncias.
A inteligência artificial tornou-se outra área central da competição entre Estados Unidos e China. Empresas dos dois países disputam o desenvolvimento dos modelos mais avançados, enquanto os governos buscam garantir acesso aos chips, minerais e à infraestrutura necessários para sustentar essa tecnologia.
O tema ganhou ainda mais relevância após alertas de CEOs, pesquisadores e especialistas sobre os riscos associados ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial.
Trump argumenta que os Estados Unidos não podem desacelerar as pesquisas se isso significar abrir espaço para o avanço chinês.
Na terça-feira (22), durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Donald Trump defendeu uma mudança de terminologia e afirmou que pretende substituir a expressão "inteligência artificial" por "superinteligência" em documentos do governo americano.
Washington e Pequim também iniciaram discussões sobre mecanismos de diálogo relacionados à segurança da inteligência artificial, incluindo formas de comunicação entre os dois países diante de eventuais incidentes graves envolvendo a tecnologia.
A disputa pela IA está diretamente ligada à competição por semicondutores avançados e pelas cadeias de fornecimento de minerais críticos. Trata-se de uma área em que Estados Unidos e China concorrem diretamente, apesar de permanecerem economicamente interdependentes.
Além da economia e da tecnologia, Taiwan continua sendo um dos pontos mais delicados da relação entre Washington e Pequim. O Irã também deve entrar nas conversas.
Os dois temas estão entre as questões consideradas centrais para a cúpula desta quinta-feira.
Washington busca ainda ampliar as compras chinesas de produtos americanos e melhorar o acesso a minerais críticos. Pequim, por sua vez, pressiona pela redução das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso chinês a tecnologias avançadas.
A última vez que Xi Jinping esteve nos Estados Unidos foi em 2023, durante o governo de Joe Biden, quando participou de um encontro na Califórnia. A última visita de Estado do líder chinês a Washington havia ocorrido em 2015, durante o governo de Barack Obama.
A visita atual ocorre, portanto, em um contexto muito diferente do de onze anos atrás. Estados Unidos e China chegam à reunião tentando evitar uma nova escalada comercial, ao mesmo tempo em que ampliam a competição em setores considerados decisivos para as próximas décadas, especialmente semicondutores, minerais críticos e inteligência artificial.
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…