Em 3 de outubro de 2023, Amer Shomali foi nomeado diretor do Museu Palestino, na Cisjordânia. Poucos dias depois, seu mundo mudou. Em 7 de outubro, começou a guerra que deixaria mais de 73 mil mortos na Faixa de Gaza.
Precisei lidar com o fato de que nossas instituições culturais estavam sendo apagadas", afirma. Nada parecia a salvo dos bombardeios de Israel. Os ataques destruíram escolas, universidades e sítios arqueológicos.
Nada, exceto o meio virtual. Shomali, 45, dedicou, desde então, seu mandato a reforçar o projeto de digitalização do museu, trabalhando em um arquivo eletrônico que descreve como "indestrutível" e "insaqueável.
O arquivo digital do Museu Palestino já existia desde 2018, mas tornou-se ainda mais urgente com a guerra. O plano é preservar —ao menos nas nuvens— a história da Palestina.
Shomali dá um exemplo dessa urgência. O Museu Cultural de al-Qarara, localizado no sul de Gaza, reunia milhares de objetos. Foi atacado ainda nas primeiras semanas da guerra.
Uma equipe de resgate recuperou cerca de 2. 500 itens e passou a digitalizá-los. Segundo Shomali, a equipe havia fotografado cerca de 1. 800 quando um segundo bombardeio acabou por destruir suas instalações —matando também dois de seus funcionários.
O diretor diz que essa história não se limita à guerra atual. Há décadas, palestinos acusam o governo israelense de apagar sua história. Apontam, por exemplo, para a destruição de vilarejos durante o estabelecimento de Israel em 1948, bem como para o saque de artefatos.
Shomali afirma que, em 1967, quando Israel ocupou a Faixa de Gaza, levou dali uma série de relíquias. Isso inclui os sarcófagos da Idade do Bronze retirados de Deir al-Balah e adquiridos por Moshe Dayan, famoso comandante israelense que foi ministro da Defesa.
Após a morte dele, sua viúva os vendeu ao Museu de Israel. Alguns dos objetos, porém, ainda aparecem hoje em sites de leilão, atribuídos à coleção de Dayan. O Museu Palestino adquiriu alguns deles.
Há hoje um debate entre artistas, colecionadores e ativistas sobre o quão seguro é manter um museu na Palestina", diz Shomali. "Quem emprestaria um objeto a um museu, sabendo que há a possibilidade de Israel saquear o local.
Instituições como o Museu Palestino de Birzeit, dirigido por Shomali, têm ainda outro desafio: o público. As áreas sob controle palestino na Cisjordânia não formam um território contíguo.
São fragmentadas por assentamentos, postos de controle e outras restrições à circulação, uma configuração que pesquisadores e organismos internacionais já descreveram como um "arquipélago.
Um morador de Belém pensa dez vezes antes de sair de casa para visitar o museu", afirma. Cabe a ele, assim, dirigir um museu que exibe poucos objetos —vistos, por sua vez, por poucas pessoas.
Daí, de novo, seu arquivo digital, acessível de qualquer lugar com internet.
A equipe do Museu Palestino vai às casas das pessoas e recolhe imagens e objetos. Leva-os, fotografa-os e depois devolve-os aos donos. Já há hoje centenas de milhares de itens digitalizados.
A ideia é possibilitar a escrita da "história vista de baixo", como pesquisadores a chamam". Como o arquivo é alimentado por coleções familiares, permite que historiadores reflitam para além da perspectiva do Estado.
Nos álbuns de família, vemos imagens mais íntimas. Vemos o que as pessoas faziam e as acompanhamos em diferentes idades", diz. Há um recurso que permite aos visitantes do site contribuírem com informações sobre os itens da coleção.
No conjunto, Shomali diz que o museu digital é uma questão de "soberania sobre a própria imagem", ao permitir que os palestinos influam na forma como são representados e na história que contam.
Para proteger esta coleção, Shomali espalha cópias digitais não só na nuvem, mas também em cofres de bancos, embaixadas e residências particulares ao redor do mundo.
Mesmo que os israelenses bombardeiem o museu em Birzeit, o arquivo vai sobreviver", diz Shomali. "Ainda que a gente talvez não sobreviva.
Em números
- Em 7 de outubro, começou a guerra que deixaria mais de 73 mil mortos na Faixa de Gaza
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…