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Como o governo Lula vê o telefonema com Trump — e o impacto dele nas eleições

É a primeira conversa entre os dois desde maio e acontece em meio a acirramento de tensões entre os dois países; negociação para telefonema ocorreu ao longo de

10 min de leitura
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BBC News, Vá para o conteúdoNotícias.

Role, Da BBC News Brasil em Brasília.

Published 21 agosto 2026, 14:54 -03Atualizado Há 24 minutos.

A conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta sexta-feira (21/8), marcou a retomada do diálogo entre os dois após meses de crise nas relações dos dois países.

Apesar disso, o governo vê o contato, o primeiro em três meses, com cautela.

A BBC News Brasil apurou que assessores do presidente Lula acreditam que a conversa foi positiva, mas estaria longe de significar uma "normalização" das relações entre EUA e Brasil, estremecidas por uma série de medidas tomadas de lado a lado como o novo tarifaço norte-americano a produtos brasileiros e revogação de vistos a diplomatas dos dois países.

Segundo eles, o diálogo entre Lula e Trump pode tornar mais difícil a hipótese de que Trump se manifesta diretamente durante as eleições presidenciais, nas quais Lula tenta um quarto mandato.

Por outro lado, eles ainda avaliam que outros membros da administração norte-americana podem tentar interferir na disputa.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Casa Branca, que confirmou a ocorrência da conversa, mas não deu detalhes sobre o seu conteúdo. Trump também não comentou o diálogo em suas redes sociais.

Segundo nota divulgada pelo governo brasileiro, a conversa ocorreu em tom "cordial e amistoso", durou uma hora e vinte minutos e foi feita por iniciativa de Lula.

A BBC News Brasil apurou que a realização do telefonema vinha sendo negociada havia algumas semanas, mas o "sinal verde" para a ligação só foi dado pelo lado norte-americano na quinta-feira.

Nesta manhã, testes técnicos foram feitos em Brasília e Washington para que a ligação pudesse ser realizada. A chamada é vista como resultado de uma estratégia do governo brasileiro que vinha poupando Trump das críticas mais duras ao tarifaço e centrando fogo no secretário de Estado Marco Rubio justamente para manter abertos canais de comunicação com o presidente.

Durante a conversa, Lula e Trump falaram sobre três temas principais: as tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros; o combate ao crime organizado; e conflitos globais, principalmente na Ucrânia e no Oriente Médio.

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No governo brasileiro, a duração e o tom da conversa são vistos como sinais de que Lula e Trump conseguiram restabelecer uma interlocução política no mais alto nível.

Segundo uma nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), o diálogo durou uma hora e vinte minutos e se deu em tom "cordial e amistoso.

A iniciativa da ligação foi do presidente Lula.

Isso, porém, não é interpretado pelo Palácio do Planalto como sinal de que os problemas entre Brasil e Estados Unidos estejam resolvidos.

Segundo um auxiliar do presidente Lula, o bom relacionamento entre Lula e Trump não necessariamente vem se refletindo nas relações entre os dois governos.

A avaliação é de que nem sempre as determinações dadas por Trump em relação ao Brasil estariam sendo acolhidas pelos escalões mais baixos do seu governo. Seriam esses escalões, segundo esse auxiliar, que estariam mais próximos da influência supostamente exercida por familiares do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e seu irmão, o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O telefonema foi o primeiro contato oficial entre os dois desde o encontro na Casa Branca, em maio. Naquela ocasião, o governo brasileiro tentava evitar novas tarifas contra produtos nacionais e convencer Washington a não classificar facções brasileiras como organizações terroristas.

Trump chegou a prometer que os dois países criassem um grupo de trabalho para discutir o assunto, mas nas semanas seguintes, o governo Trump anunciou a imposição de um novo tarifaço e classificaram o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, medida que o governo brasileiro também tentava evitar.

As medidas, tomadas logo após uma visita de Flávio Bolsonaro a Trump, foram atribuídas pelo governo brasileiro à ação da família Bolsonaro junto ao governo norte-americano e ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

Segundo pessoas que presenciaram a ligação, as eleições brasileiras apareceram no telefonema, mas de forma breve.

Segundo apurou a BBC News Brasil, Trump quis saber como estava o processo eleitoral no Brasil, ao que Lula teria respondido que a disputa estava transcorrendo normalmente e manifestou sua confiança no sistema eletrônico de votação do país.

O assunto, segundo interlocutores, não avançou além disso.

Ainda o que a BBC News Brasil, Trump não teria mencionado Jair ou Flávio Bolsonaro durante a ligação.

No Planalto, a pergunta de Trump foi interpretada como uma referência protocolar. O tema chama atenção porque, há algumas semanas, Flávio Bolsonaro se reuniu com diplomatas de diversos países, inclusive dos EUA, e pediu que a comunidade internacional enviasse observadores para acompanhar as eleições brasileiras.

Seu pai e aliados da direita já colocaram em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas.

Apesar de comemorarem a retomada do diálogo com Trump, auxiliares de Lula continuam avaliando que medidas como os dois tarifaços constituem tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro.

A maior desconfiança se concentra no Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio. A atuação do órgão é vista pelo governo brasileiro como mais crítica em relação a Brasília do que o comportamento adotado por Trump.

No plano comercial, a expectativa do governo brasileiro é que o telefonema ajude a reabrir negociações em relação ao tarifaço aplicado em julho deste ano. Trump teria dito a Lula que apoiava a retomada das negociações entre os dois países, mas auxiliares próximos a Lula duvidam que alguma medida que reduza o alcance das tarifas seja tomada antes das eleições deste ano, realizadas em outubro.

Segundo a nota divulgada pela Presidência, Lula disse a Trump que as justificativas utilizadas pelos Estados Unidos para impor novas tarifas a produtos brasileiros eram "infundadas.

O Presidente Lula enfatizou que as alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas", disse a nota.

Lula também defendeu a retomada das negociações comerciais.

O Planalto, porém, evita interpretar uma eventual nova negociação como garantia de que as tarifas serão revertidas no curto prazo.

Outro tema da conversa foi segurança pública.

Na conversa, Lula voltou disse que o Brasil teria mecanismos para combater o crime organizado e não precisaria classificar facções como grupos terroristas, como fizeram os EUA.

Segundo o governo brasileiro, Trump teria demonstrado disposição para ampliar a cooperação bilateral e disse que colocaria autoridades americanas para dar continuidade às conversas.

Apesar da retomada das conversas, o governo Lula não trabalha com a ideia de que as divergências com os EUA sejam resolvidas antes das eleições de outubro.

A estratégia é tratar a relação com os Estados Unidos no médio e longo prazos.

A avaliação é de que, caso vença, Lula terá mais dois anos de "convivência" com o governo Trump, o que exigiria tentativas de reaproximação.

A conversa ocorreu depois de uma sequência de episódios que elevaram a tensão entre os dois governos.

Em março, o Brasil revogou o visto de Darren Beattie, integrante do governo Trump que pretendia visitar Jair Bolsonaro na prisão.

O governo brasileiro negou o visto porque, ao fazer o pedido, Beattie mencionou apenas que viria ao Brasil para participar de um fórum econômico. Internamente, o governo brasileiro viu a tentativa de Beattie visitar Bolsonaro como uma possível interferência internacional em assuntos domésticos.

À época, o governo dos EUA não reagiu.

Em julho, porém, logo após o anúncio do novo tarifaço contra produtos brasileiros, o secretário de Estado, Marco Rubio, criticou publicamente Lula ao justificar as tarifas impostas ao Brasil.

A medida chamou atenção porque não é comum que secretários critiquem abertamente chefes-de-Estado.

Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu Rubio no X, no dia 16 de julho.

No mesmo mês, mais uma fricção entre os dois países: o Itamaraty negou vistos a outros dois integrantes do Departamento de Estado, os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson.

Na época, o jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo brasileiro via a viagem de Barnes e Samson ao Brasil como uma iniciativa do governo Trump com objetivo de questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Nos bastidores, dois diplomatas brasileiros disseram à BBC News Brasil em caráter reservado que os diplomatas manteriam laços com a extrema-direita internacional.

O governo brasileiro não justificou, formalmente, a rejeição ao visto.

Em agosto, foi a vez de o governo norte-americano responder e revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com a medida, ela não fica impedida de representar o Brasil nos EUA, mas caso ela deixe o país, pode acabar impedida de regressar ao país.

Em jargão diplomático, a medida é uma das mais graves e demonstra insatisfação de um governo com o outro.

O Departamento de Estado justificou que a medida estava relacionada à demora do Brasil em conceder o agrément a Daniel Perez.

O agrément é a autorização necessária para que um embaixador indicado por outro país possa assumir o posto.

Perez foi escolhido por Trump para comandar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Seu nome foi confirmado pelo Senado.

O governo americano condicionou o restabelecimento do visto de Viotti à aprovação do nome de Perez pelo Brasil.

Dias depois, Lula criticou publicamente o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Tem um cidadão lá que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é bolsolarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta.

Eu disse para o Trump: 'Esse moço não gosta do Brasil'. Ele é um anti-latinoamericano ou um latinoamericano frustrado", disse Lula durante uma viagem a São José dos Campos (SP).

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Fontes

Informação baseada em material público de BBC Brasil, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • BBC Brasillink

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