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Cabo Verde aposta em solidariedade e inovação em meio a ameaças existenciais

Nação insular de língua portuguesa, na África, sofre riscos crescentes com aumento do nível do mar; fenômeno prejudica agricultura e oferta de água potável; em

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Cabo Verde aposta em solidariedade e inovação em meio a ameaças existenciais

Nação insular de língua portuguesa, na África, sofre riscos crescentes com aumento do nível do mar; fenômeno prejudica agricultura e oferta de água potável; em entrevista exclusiva, primeiro-ministro Francisco Carvalho falou de negociações na ONU, acesso a financiamento, parcerias, valorização das diásporas e da língua portuguesa.

Na Semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU, os países mais ameaçados pelo aumento do nível do mar foram protagonistas na aprovação de uma declaração política sobre o tema.

Dentre eles, Cabo Verde, que copresidiu a Cúpula de Líderes sobre esta ameaça existencial cada vez mais urgente.

Em entrevista à ONU News, o primeiro-ministro e ministro das Finanças de Cabo Verde, Francisco Carvalho, contou que, para os cabo-verdianos, a subida dos mares não é uma ameaça distante e sim um desafio presente todos os dias.

O líder da nação insular africana adicionou que praias muito procuradas e que fazem parte das memórias de várias gerações estão desaparecendo com o avanço do oceano.

Outro desafio é garantir o abastecimento de água potável, num contexto em que as secas estão mais intensas e mananciais de água doce estão sendo contaminados pela intrusão de água salgada.

Atualmente, cerca de 90% da água potável consumida em Cabo Verde vem da dessalinização das águas do mar, mas o processo é caro, pois demanda muita energia, o que acaba encarecendo a conta para os consumidores.

Francisco Carvalho defendeu uma diversidade de estratégias para além da dessalinização, como a abertura de novos furos para captação de água subterrânea, a construção de barragens, a instalação de cisternas familiares nas casas para reter a água das chuvas e a promoção do uso responsável.

Dados da ONU indicam que o estresse hídrico em Cabo Verde saltou de 7% em 2001 para 60% em 2023. Este indicador revela a proporção da extração de água doce em relação aos recursos hídricos disponíveis.

O chefe do Governo de Cabo Verde acredita que a declaração política alcançada na ONU é um avanço, mas ressaltou que a realidade das pessoas afetadas só vai mudar quando houver dinheiro suficiente na mesa.

Carvalho enfatizou que os países mais afetados são os que menos contribuíram para a crise climática e, ao mesmo tempo, são os que têm menos recursos para enfrentarem os problemas que derivam dela.

Ele pediu mais compromisso dos países que têm maior responsabilidade pela emissão de gases que causam o aquecimento global, o que implica abastecer os múltiplos fundos criados para apoiar países em desenvolvimento.

Mas a declaração política também defende o aumento de financiamento bilateral. Neste sentido, o líder cabo-verdiano destacou o exemplo positivo de uma parceria com Portugal.

O primeiro-ministro disse que essa via do alívio da dívida será explorada com outros países, pois ela pode ser uma alternativa de financiamento em meio a uma “situação global muito complexa”.

Francisco Carvalho acrescentou que o acesso a recursos é crucial, mas precisa vir acompanhado de um processo participativo, para garantir que qualquer projeto leve em conta a voz das pessoas que vivem nos locais afetados pela crise climática.

Sobre parcerias, o líder cabo-verdiano falou da importância de valorizar a língua portuguesa, a mais falada no Hemisfério Sul. Segundo ele, o idioma “merece um lugar no coração das Nações Unidas”.

O primeiro-ministro também abordou a conexão com as diásporas espalhadas pelo mundo. Ele disse que quadros cabo-verdianos que neste momento estão integrados em universidades e centros de investigação de ponta vão contribuir para o desenvolvimento do país, participando da elaboração de planos e políticas públicas.

Além disso, uma atenção especial será dedicada aos filhos de emigrantes, que agora não precisam mais pagar nenhuma taxa para visitar Cabo Verde. Segundo o primeiro-ministro a medida foi aprovada pelo Governo para demonstrar que esses descendentes, mesmo sem nacionalidade, são bem-vindos.

Francisco Carvalho destacou que a decisão contribui para garantir que o sentimento por Cabo Verde “seja passado do coração dos pais para o coração dos filhos”.

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