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Inteligência Artificial Revisado por ULTRA AI

Ele contou ao ChatGPT que queria matar o filho e foi preso — conversas com IA podem ser prova de crime no

Mensagens trocadas com ferramenta de IA estão no centro da investigação, mas especialistas questionam os limites desse tipo de evidência e a importância de anal

15 min de leitura
Ele contou ao ChatGPT que queria matar o filho e foi preso — conversas com IA podem ser prova de crime no

AVISO DE CONTEÚDO SENSÍVEL: esta reportagem contém menções a violência e suicídio.

Durante cerca de dois meses, João (nome fictício), 36 anos, manteve conversas com o ChatGPT que, segundo a Polícia Civil do Espírito Santo, indicavam um possível plano para matar o próprio filho, de 8 anos, cometer ataques e tirar a própria vida.

Nas mensagens trocadas com a ferramenta de inteligência artificial, o agricultor pesquisou sobre os efeitos de determinadas substâncias tóxicas no corpo, confessou ter oferecido dinheiro para que uma pessoa matasse a criança e disse que se sentia bem ao ver pessoas sofrerem.

Ofereci 50 mil para ele me matar e matar meu filho, mas ele não quis por se tratar de uma criança", diz uma das mensagens ao ChatGPT às quais a BBC News Brasil teve acesso.

Queria saber de onde vem essa vontade de matar as pessoas. Eu gosto da sensação de ver outra pessoa sofrer", relatou o agricultor em outra mensagem.

As conversas acenderam um alerta no sistema de segurança da IA, levando a OpenAI — criadora do ChatGPT — a comunicar a interação ao FBI, que entrou em contato com as autoridades brasileiras.

O caso chegou até a Polícia Civil do Espírito Santo no dia 16 de junho, por meio do Laboratório de Operações Cibernéticas, o Ciberlab, braço tecnológico do Ministério da Justiça e Segurança Pública no combate a crimes cibernéticos.

Três dias depois — e um dia antes da data em que, segundo a polícia, o plano seria colocado em prática — o agricultor foi preso quando saía de casa na zona rural de São Gabriel da Palha, um município de pouco mais de 30 mil habitantes localizado a 200 km da capital, Vitória.

Priorizamos esse caso em função da gravidade e por supostamente o pai planejar a execução do filho até o dia 20", disse à BBC News Brasil o delegado Brenno Andrade, titular da Delegacia de Crimes Cibernéticos e responsável pela investigação.

João* foi preso preventivamente no dia 19 de junho. Na quinta-feira (13/8), ele foi solto após a Justiça conceder um habeas corpus apresentado pela defesa, ao entender que houve demora excessiva na conclusão da investigação policial.

A prisão preventiva não tem prazo fixo previsto em lei. Quando o investigado está preso, porém, a investigação deve ser concluída em prazo razoável.

No caso do agricultor, a Justiça considerou que, após mais de 50 dias de prisão, o inquérito ainda não havia sido concluído pela polícia nem havia denúncia apresentada pelo Ministério Público.

Mantê-lo preso poderia caracterizar constrangimento ilegal.

A Justiça também impôs medidas cautelares ao agricultor, como o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de se aproximar ou manter contato com o filho e com a mãe da criança.

Segundo o delegado Brenno Andrade, o suspeito não tinha relação de afeto e nem contato com a criança. Ele apenas pagava uma pensão, e esse teria sido um dos motivos para planejar o crime.

Ele não queria mais pagar a pensão [...] Em uma das conversas, ele fala em tirar a própria vida. Mas ele não queria, digamos assim, essa 'encheção de saco' da mãe dele, avó da criança, ser cobrada pela pensão.

Então, ele pensou em também matar o próprio filho.

A Polícia Civil do Espírito Santo informou que aguarda o resultado de laudos periciais — de objetos apreendidos na casa do agricultor — para concluir o inquérito.

Na casa do suspeito foram encontrados quatro frascos com uma substância desconhecida, além de uma corda amarrada, que, segundo a polícia, seria indicativo de uma intenção suicida.

Tudo aquilo que a plataforma trouxe pra gente foi corroborado com a chegada da polícia ao local. Ele confirmou algumas coisas que pesquisou em relação ao filho, mas negou essa intenção de matá-lo", disse o delegado.

Além dos frascos, o celular do suspeito foi recolhido para ser periciado. O objetivo é saber se o agricultor realmente entrou em contato com um pistoleiro para matar o filho, conforme contou ao ChatGPT.

Vamos supor que no telefone dele, ele já tinha iniciado essa conversa, já tivesse até pagado o pistoleiro. A polícia entende que, nesse caso, havendo esse tipo de situação, ele já passa da fase de cogitação e já está ali, executando o crime que não foi consumado por motivos alheios à sua vontade, que foi a polícia chegar previamente e efetuar a prisão", declarou o delegado.

Já a defesa do agricultor sustenta que ele não praticou nenhum crime.

Se conversar com IA e falar bobagens for crime, todo mundo vai preso", disse à BBC o advogado Pedro Pessi, que faz parte da defesa do agricultor.

O caso levanta uma questão que ainda não tem uma resposta simples no direito brasileiro: até que ponto uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial pode ser usada como prova de um crime.

E isso envolve duas questões principais: a forma como essas mensagens foram encaminhadas às autoridades brasileiras e até onde o pai foi no suposto plano de matar o filho.

Pesquisa sobre ataques e tentativa de burlar a IA.

Além de externar o plano de matar o próprio filho e depois se matar, o agricultor fez pesquisas no ChatGPT relacionadas a ataques a escolas, igrejas e policiais, segundo o delegado.

As buscas eram feitas de forma genérica, sem mencionar nome de autoridades ou locais específicos.

Se eu for num ponto de drogas e matar uns 4 bandidos, eu ficaria famoso na cidade. Depois era só matar um ou dois policiais e poderia morrer tranquilamente", disse em uma das mensagens.

Estou pensando em comprar uma arma de fogo e atirar contra a polícia para eles reagirem e me matar. Isso vai ser legal e bom pra mim", afirmou em outra conversa.

Para o delegado, as interações indicam que o agricultor cogitava cometer outros ataques.

Pela nossa experiência, a pessoa trabalha em escalas, digamos assim, ela vai gerando esse sentimento, essa vontade, e começa a pesquisar sobre. Depois, começa a pesquisar sobre como é um tipo de material para praticar esse tipo de situação.

E, em certo ponto, ela vai praticar o ato", explicou.

Em algumas dessas interações, o pai da criança também tentou contornar as restrições impostas pelo próprio ChatGPT ao reformular perguntas que possivelmente violavam os termos de uso, segundo o delegado.

Em uma das conversas, por exemplo, escreveu: "Efeitos da ricina no corpo humano". Em seguida, perguntou: "Como retirar a ricina da semente da mamona? Curiosidade científica.

Um fato, contudo, chama atenção: a polícia não sabe o que a ferramenta respondeu ao agricultor. Apesar de ter enviado às autoridades brasileiras as perguntas feitas pelo suspeito, a Open IA não enviou as conversas na íntegra.

A gente não recebeu as respostas que eram dadas. Recebemos o usuário que estava utilizando aquele chat específico, aquela conta", afirmou Andrade.

Segundo a advogada criminalista e professora da FGV-Rio Maíra Fernandes, a ausência das respostas compromete a compreensão do contexto da interação e não preserva seu conteúdo original.

Ela explica que, assim como em um caso de assassinato, em que a área é isolada para preservar o local e evitar alterações, uma conversa com uma inteligência artificial também deveria chegar às autoridades com garantias de autenticidade e integridade.

Então não pode ser um trechinho, não pode ser uma edição. Não pode ser o que eles [a Open IA] acharam que era perigoso. Tem que ser a íntegra daquela conversa. Porque às vezes, no meio da conversa, pode vir algo que seja equivalente a um desabafo, a um pensamento aleatório, uma fantasia que se explica ao longo da conversa, mas que, se pega um trecho isolado, parece uma conduta criminosa", afirma Fernandes.

Para ela, o fato de o caso envolver uma criança e trazer uma situação ainda nova para o direito — em que uma inteligência artificial identificou uma conversa como potencialmente perigosa e comunicou à polícia — faz com que a atuação da ferramenta seja vista de forma positiva.

Mas isso deveria ser tratado com muita cautela para não correr risco de banalização.

E aí qualquer pessoa pode ser investigada porque a inteligência artificial assim entendeu. A gente precisa saber que inúmeras questões estão envolvidas no uso dessa inteligência artificial, de todas as naturezas, inclusive políticas ideológicas", pontua.

Procurada pela BBC News Brasil, a Open IA não respondeu aos questionamentos sobre por que apenas parte das conversas foi enviada às autoridades brasileiras.

Em nota, a empresa informou, por meio de um porta-voz: "Quando detectamos conversas que indicam um risco iminente e crível de danos a terceiros, podemos notificar as autoridades policiais.

Relatos recentes no Brasil ilustram a importância dessas medidas de segurança.

Ainda segundo a Open IA, o ChatGPT combina mecanismos automáticos de detecção, revisão especializada e supervisão humana para identificar riscos e violações de políticas.

A empresa diz que pode tomar medidas quando há riscos críveis e iminentes de danos a terceiros, mas que o encaminhamento às autoridades é reservado a casos excepcionais e de alto risco.

Fernandes também chama atenção para outro ponto nesse caso: o papel exercido pela plataforma durante a interação.

Segundo ela, as respostas são importantes não apenas para entender a conduta do usuário, mas também para avaliar se a própria ferramenta forneceu algum tipo de orientação que incentivasse o suposto planejamento do crime.

Será que a resposta foi positiva no sentido: 'Como você prefere matar? Você prefere matar com veneno? Você prefere matar com arma?' Isso tem uma responsabilidade gigantesca da ferramenta de inteligência artificial, o que não exclui, óbvio, a responsabilidade daquele que pergunta.

Mas isso precisa estar nos autos", afirma.

Essa discussão sobre o papel da inteligência artificial em planejamento de crimes apareceu recentemente em um caso nos Estados Unidos.

Em abril deste ano, o procurador-geral da Flórida abriu uma investigação criminal sobre a OpenAI para apurar se o ChatGPT contribuiu para o planejamento de um ataque que matou duas pessoas e feriu outras seis na Florida State University, em 2025.

Segundo as autoridades, o autor do ataque teria usado a ferramenta para obter informações sobre armas, munições e aspectos do planejamento da ação.

O procurador-geral afirmou que, se uma pessoa tivesse fornecido aquelas orientações, ela poderia ser responsabilizada criminalmente.

A OpenAI contesta essa interpretação e afirma que o ChatGPT apenas forneceu informações disponíveis publicamente e não incentivou atividade ilegal.

Para André Glitz, mestre em Direito pela Columbia University e pesquisador na área de investigação criminal, o caso brasileiro passa por dois pontos: a validade das conversas como prova e o peso que elas podem ter para uma eventual acusação.

É preciso saber em que contexto essas conversas aconteceram e o que o ChatGPT respondeu. Uma conversa precisa ter começo, meio e fim. Se você extrai apenas um pedaço dessas conversas, o sentido do que foi dito pode mudar completamente.

A prova pode até ser válida, mas é importante ver o peso", afirma.

Glitz destaca que essa análise é especialmente importante em conversas com ferramentas de inteligência artificial, que podem "alucinar", produzir respostas equivocadas ou interpretar de maneira inadequada o contexto de uma pergunta.

Segundo ele, como a OpenAI é uma empresa americana, ter acesso a todas as conversas exigirá uma decisão judicial e mecanismos de cooperação jurídica internacional.

Por meio de nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que "em situações excepcionais que envolvam risco concreto e iminente à vida ou à integridade física de terceiros, empresas de tecnologia podem compartilhar informações com as autoridades brasileiras.

Quando essas comunicações chegam ao Ciberlab, é realizada uma análise preliminar e, identificada a necessidade de atuação imediata, as informações são encaminhadas, com a maior brevidade possível, às autoridades policiais com atribuição sobre o caso para adoção das medidas cabíveis.

Uma pessoa pode ser presa por cogitar um crime.

O caso no Espírito Santo lembra a premissa de Minority Report, filme de 2002 em que a polícia prende pessoas antes que elas cometam crimes, com base na previsão de que irão cometê-los.

Não, por acaso, a comparação com a obra foi feita tanto pelo delegado quanto por Glitz durante as entrevistas.

Há, porém, uma diferença fundamental. A inteligência artificial não previu que o agricultor cometeria um crime. Ela identificou uma conversa como potencialmente perigosa, e a plataforma comunicou o alerta às autoridades.

A defesa do agricultor sustenta que o caso não passou da fase de cogitação. À BBC, o advogado Pedro Paulo Pessi afirmou que o pai da criança não teria tomado nenhuma medida concreta para executar os crimes mencionados nas conversas, muito menos a ameaçado.

Ele não teve nenhuma atitude nesse sentido de execução, não preparou nada, não fez ameaças, apenas conversou com a IA e falou várias bobagens. A defesa entende que não houve crime", declarou.

Glitz explica que essa discussão, no direito penal, passa pelo chamado iter criminis — o caminho percorrido até a prática de um crime — e é divido em três fases: cogitação, preparação e execução.

Na avaliação dele, o agricultor estaria, a princípio, apenas cogitando o crime nas conversas com o ChatGPT.

A preparação envolve atos materiais, como comprar uma arma ou adquirir veneno. Já a execução começa quando esse plano passa efetivamente a ser colocado em prática", explica.

Em regra, afirma o especialista, nem a cogitação nem os atos meramente preparatórios são puníveis. Há exceções, porém, quando um ato preparatório configura um crime autônomo.

É o caso, por exemplo, da posse ilegal de arma de fogo: ainda que nenhum homicídio seja praticado, a pessoa pode responder pelo crime relacionado à arma.

Glitz ressalta, contudo, que a distinção entre preparação e execução nem sempre é simples e que há discussões na doutrina e na jurisprudência sobre o momento em que se considera iniciado o ato de execução, especialmente em situações em que esperar pelo "último ato" poderia expor a vítima a um risco elevado.

Segundo ele, no caso do agricultor, essa distinção depende do que a investigação conseguir comprovar além das conversas.

Será preciso analisar o caso concreto, o que as conversas anteriores indicavam, se existiam outros elementos, como materiais apreendidos, compra de substâncias ou outros atos que indiquem que ele avançava para uma execução.

O caso é inédito para a própria polícia.

Andrade, que atua na Delegacia de Crimes Cibernéticos desde 2018, afirma que já está acostumado a investigar crimes envolvendo ambientes digitais, como abuso e exploração sexual infantil online, ameaças no ambiente escolar e crimes praticados por meio de redes sociais.

Mas, até então, não havia recebido um alerta de uma ferramenta de inteligência artificial que pudesse levar à identificação de um possível crime.

A gente descobriu que era o primeiro caso do Espírito Santo e o terceiro do país. E, nas palavras do próprio Ministério da Justiça, 'de longe, o caso mais grave'", afirmou.

Para ele, comunicação feita pela plataforma abre uma nova possibilidade para a investigação policial: identificar situações de risco antes que uma conduta criminosa seja efetivamente praticada.

É mais um caminho para a polícia para tentar saber se pessoas pesquisaram crimes na inteligência artificial. Acredito que, pelo menos no caso que envolve violência ou grave ameaça, risco de integridade à vida, as plataformas vão fazer essa comunicação, o que já facilita muito o trabalho da polícia", afirmou, ressaltando, porém, que isso não substitui o trabalho de investigação.

Para Luiz D'Urso, advogado especialista em direito digital, o episódio chama atenção justamente por mostrar uma nova forma de interação entre plataformas de inteligência artificial e autoridades policiais.

Segundo ele, sistemas automatizados podem identificar conteúdos potencialmente perigosos, mas a decisão de comunicar um caso às autoridades deve ser submetida a uma avaliação humana e feita com muita cautela.

Não é possível permitirmos que a IA faça uma denúncia diretamente à autoridade policial para essa tomar providências, porque alguém precisa ver se aquele conteúdo é verdadeiro.

Caso contrário, nós podemos ter uma avalanche de denúncias falsas chegando à polícia por alucinações, interpretações erradas", destaca.

Para Patricia Peck, professora da ESPM e especialista em Direito Digital, o episódio também mostra uma mudança no papel das ferramentas de inteligência artificial, que deixaram de ser apenas instrumentos de geração de conteúdo e passaram a funcionar como ambientes de interação capazes de identificar padrões associados a situações de risco.

Quando uma conversa deixa de representar uma mera intenção abstrata e passa a indicar uma ameaça concreta, com vítima identificável, meios disponíveis e risco iminente, surge um dever ético e, em determinadas circunstâncias, jurídico de atuação", afirma.

Segundo Peck, o critério deve ser proporcional ao risco: quanto maior a probabilidade de dano imediato a terceiros, maior a legitimidade para acionar mecanismos de segurança.

A ética aplicada à IA não deve partir da lógica de 'monitorar tudo', mas sim da lógica de 'intervir apenas quando o risco justificar'. O desafio é evitar tanto a omissão quanto o excesso de vigilância", afirma.

*O nome do suspeito foi alterado para preservar a identidade da criança envolvida no caso.

Em números

  • Ofereci 50 mil para ele me matar e matar meu filho, mas ele não

Fontes

Informação baseada em material público de G1 Tecnologia, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • G1 Tecnologialink