Ir para o conteúdo
Economia

Bolsa Família maior antes da eleição: economistas questionam 'timing' e risco às contas públicas

Governo nega motivação eleitoral. Especialistas dizem que a correção recompõe parte do poder de compra, mas apontam riscos para inflação e juros.

4 min de leitura
Bolsa Família maior antes da eleição: economistas questionam 'timing' e risco às contas públicas

O reajuste do Bolsa Família, anunciado nesta quinta-feira (17) pelo governo federal, foi recebido com ressalvas por economistas.

  • 🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1.
  • 🔎 Quando os investidores enxergam mais risco em um país, passam a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo. Isso encarece a dívida pública e pode dificultar a redução dos juros. Na prática, crédito, financiamentos e empréstimos podem ficar mais caros para famílias e empresas, reduzindo o consumo, os investimentos e o ritmo de crescimento da economia.

Apesar de o aumento ser considerado compatível com a reposição da inflação acumulada no período, especialistas consultados pelo g1 questionam o momento escolhido para o anúncio e alertam para possíveis impactos sobre as contas públicas, a inflação e os juros nos próximos anos.

O anúncio acontece a 17 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é candidato à reeleição no pleito.

Segundo o governo, o reajuste de 15% recompõe parte da perda de poder de compra provocada pela inflação acumulada desde 2023. Até agosto deste ano, a alta dos preços no período chegou a 17%.

A equipe econômica nega que a decisão tenha motivação eleitoral. “O reajuste, em si, é justo. O problema é o momento”, avalia o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), José Luis Oreiro.

Ele destaca, no entanto, que essa movimentação não é novidade.

O último aumento do benefício havia sido feito em 2022, quando o programa ainda se chamava “Auxílio Brasil”.

O aumento tinha validade prevista somente até dezembro daquele ano.

Para os economistas consultados pelo g1, o impacto será limitado neste ano porque o novo valor será pago apenas nos últimos três meses. A partir de 2027, no entanto, o custo passa a ter peso maior sobre as contas públicas.

O ministro afirmou, porém, que o governo poderá acomodar a despesa no Orçamento. "Ficará claro no relatório de setembro que tem espaço fiscal. Dia 24 vamos passar os números, mas temos segurança que o espaço fiscal é superior ao que é preciso para custear essa medida", declarou Moretti.

Para Inhasz, o aumento das incertezas pode não apenas ter efeito sobre a confiança de empresários — o que pode adiar decisões de investimentos e contratação —, como também tende a impactar a percepção de risco sobre o país.

Mercado de trabalho melhor mudaria essa conta.

A queda do desemprego mostra que o mercado de trabalho está aquecido, mas não significa, por si só, que as famílias mais pobres tenham deixado de precisar do Bolsa Família.

Para Oreiro, o programa social e a taxa de desemprego medem situações diferentes.

Ainda assim, o economista frisa que o indicador não mostra sozinho se a renda obtida pelas famílias é suficiente, nem mede todas as formas de vulnerabilidade atendidas pelo programa.

Na avaliação do pesquisador, seria mais eficiente direcionar os recursos aos adicionais pagos a grupos específicos, como crianças e adolescentes.

Segundo Duque, essa alternativa concentraria o aumento nas famílias com perfis considerados mais vulneráveis. Como a pobreza extrema está em níveis baixos, ele avalia que ampliar o piso geral teria efeito limitado sobre a redução da pobreza.

Por que o momento do anúncio provoca questionamentos.

Como ocorreu em 2022, o reajuste deste ano foi anunciado pouco antes da eleição. Não por acaso, a repetição desse calendário alimenta a interpretação de que o aumento também busca produzir ganhos políticos, embora as análises não permitam medir seu efeito concreto sobre os votos.

Galhardo reforça que os dois episódios apresentam semelhanças: “Isso cria um paralelo com a PEC Kamikaze”. Para o economista, o impacto imediato pode estar menos no tamanho da despesa e mais no sinal transmitido pelo governo.

Oreiro defende que o problema poderia ser evitado com uma regra permanente de correção, que reduzisse a influência do calendário político sobre os reajustes.

Na avaliação do professor, a ausência dessa regra permite que uma correção justificável pela inflação seja associada à disputa eleitoral. “É compreensível que o governo tenha tomado essa atitude, mas o ‘timing’ é eleitoreiro.”.

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Leia também

Mais em Economia