O reajuste do Bolsa Família, anunciado nesta quinta-feira (17) pelo governo federal, foi recebido com ressalvas por economistas.
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- 🔎 Quando os investidores enxergam mais risco em um país, passam a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo. Isso encarece a dívida pública e pode dificultar a redução dos juros. Na prática, crédito, financiamentos e empréstimos podem ficar mais caros para famílias e empresas, reduzindo o consumo, os investimentos e o ritmo de crescimento da economia.
Apesar de o aumento ser considerado compatível com a reposição da inflação acumulada no período, especialistas consultados pelo g1 questionam o momento escolhido para o anúncio e alertam para possíveis impactos sobre as contas públicas, a inflação e os juros nos próximos anos.
O anúncio acontece a 17 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é candidato à reeleição no pleito.
Segundo o governo, o reajuste de 15% recompõe parte da perda de poder de compra provocada pela inflação acumulada desde 2023. Até agosto deste ano, a alta dos preços no período chegou a 17%.
A equipe econômica nega que a decisão tenha motivação eleitoral. “O reajuste, em si, é justo. O problema é o momento”, avalia o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), José Luis Oreiro.
Ele destaca, no entanto, que essa movimentação não é novidade.
O último aumento do benefício havia sido feito em 2022, quando o programa ainda se chamava “Auxílio Brasil”.
O aumento tinha validade prevista somente até dezembro daquele ano.
Para os economistas consultados pelo g1, o impacto será limitado neste ano porque o novo valor será pago apenas nos últimos três meses. A partir de 2027, no entanto, o custo passa a ter peso maior sobre as contas públicas.
O ministro afirmou, porém, que o governo poderá acomodar a despesa no Orçamento. "Ficará claro no relatório de setembro que tem espaço fiscal. Dia 24 vamos passar os números, mas temos segurança que o espaço fiscal é superior ao que é preciso para custear essa medida", declarou Moretti.
Para Inhasz, o aumento das incertezas pode não apenas ter efeito sobre a confiança de empresários — o que pode adiar decisões de investimentos e contratação —, como também tende a impactar a percepção de risco sobre o país.
Mercado de trabalho melhor mudaria essa conta.
A queda do desemprego mostra que o mercado de trabalho está aquecido, mas não significa, por si só, que as famílias mais pobres tenham deixado de precisar do Bolsa Família.
Para Oreiro, o programa social e a taxa de desemprego medem situações diferentes.
Ainda assim, o economista frisa que o indicador não mostra sozinho se a renda obtida pelas famílias é suficiente, nem mede todas as formas de vulnerabilidade atendidas pelo programa.
Na avaliação do pesquisador, seria mais eficiente direcionar os recursos aos adicionais pagos a grupos específicos, como crianças e adolescentes.
Segundo Duque, essa alternativa concentraria o aumento nas famílias com perfis considerados mais vulneráveis. Como a pobreza extrema está em níveis baixos, ele avalia que ampliar o piso geral teria efeito limitado sobre a redução da pobreza.
Por que o momento do anúncio provoca questionamentos.
Como ocorreu em 2022, o reajuste deste ano foi anunciado pouco antes da eleição. Não por acaso, a repetição desse calendário alimenta a interpretação de que o aumento também busca produzir ganhos políticos, embora as análises não permitam medir seu efeito concreto sobre os votos.
Galhardo reforça que os dois episódios apresentam semelhanças: “Isso cria um paralelo com a PEC Kamikaze”. Para o economista, o impacto imediato pode estar menos no tamanho da despesa e mais no sinal transmitido pelo governo.
Oreiro defende que o problema poderia ser evitado com uma regra permanente de correção, que reduzisse a influência do calendário político sobre os reajustes.
Na avaliação do professor, a ausência dessa regra permite que uma correção justificável pela inflação seja associada à disputa eleitoral. “É compreensível que o governo tenha tomado essa atitude, mas o ‘timing’ é eleitoreiro.”.
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