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Cultura

Os Simpsons ressuscitam personagem depois de quase uma década, em especial de Halloween

Após anos de críticas por reforçar estereótipos sobre indianos, personagem de animação volta a falar com dubladores de origem sul-asiática, em meio ao debate so

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Os Simpsons ressuscitam personagem depois de quase uma década, em especial de Halloween

Ao longo das 38 temporadas de “Os Simpsons”, os episódios especiais de Halloween, conhecidos como “A Casa da Árvore dos Horrores”, sempre foram uma atração à parte, com histórias assustadoras independentes.

No domingo (18), a série surpreendeu os espectadores com uma grande ressurreição: Apu, o querido dono da loja de conveniência Kwik-E-Mart, que não era ouvido havia quase uma década, voltou a falar em Springfield.

Ele e sua esposa, Manjula, retornaram com uma trama importante — e com as vozes de atores americanos de origem indiana: Sunil Malhotra, veterano profissional de dublagem, e Janina Gavankar, de “The Morning Show”.

O retorno inesperado de Apu representa uma reviravolta significativa em uma discussão que dura anos sobre como o personagem foi retratado como um estereótipo doloroso por parte dos americanos de origem sul-asiática.

Depois do documentário de 2017 do comediante Hari Kondabolu, “The Problem With Apu” (“O problema com Apu”, em tradução livre), o personagem praticamente desapareceu das telas.

Como um documentário se tornou um divisor de águas.

Em “The Problem With Apu”, Kondabolu, que se descreve como fã da série da Fox, tentou compreender suas próprias ressalvas em relação ao personagem. Ele entrevistou várias celebridades de origem sul-asiática, entre elas Kal Penn, Utkarsh Ambudkar e Hasan Minhaj, sobre as experiências que tiveram ao crescer assistindo à série.

Eles compartilharam lembranças de terem sofrido bullying e de terem sido chamados de “Apu” como insulto. A percepção de que o personagem era apenas uma caricatura também era reforçada pelo fato de que Hank Azaria, um ator branco, dava voz a ele.

Com o nome completo de Apu Nahasapeemapetilon Jr., o personagem era visto como o “estrangeiro para sempre, alguém que representa os indianos nos Estados Unidos por meio desse único estereótipo: ser dono de uma loja de conveniência, ser um imigrante recém-chegado, ter um sotaque carregado e ter uma identidade americana bastante limitada”, afirma Bhoomi Thakore, professora assistente de sociologia da Universidade de Connecticut.

Thakore observa que o filme de Kondabolu levantou a questão de que Apu era a única representação de um personagem indiano conhecida pela maioria das pessoas quando estreou, em 1990.

Azaria deixou o papel depois do documentário, embora tenha continuado a dublar outros personagens de “Os Simpsons”. Apu ficou em silêncio e passou a aparecer apenas ao fundo das cenas.

Kondabolu, no entanto, nunca pediu que Apu fosse cancelado. Na segunda-feira, ele elogiou “Os Simpsons” por encontrar “uma solução inteligente para tudo isso” e contratar Malhotra e Gavankar.

Depois de anos em segundo plano, Apu parece ter vindo para ficar.

Em um episódio de 2018, “Os Simpsons” respondeu ao documentário de Kondabolu mostrando Lisa Simpson lamentar que “algo que começou décadas atrás e era aplaudido e considerado inofensivo agora é politicamente incorreto.

O que se pode fazer?”. Em seguida, a câmera mostrou uma fotografia emoldurada de Apu. Alguns consideraram a piada uma resposta fraca, por não abordar diretamente a controvérsia.

Em uma entrevista ao "The New York Times" em 2020, Azaria, que já não dublava Apu havia alguns anos, anunciou que deixaria o papel porque “simplesmente não parecia certo”.

Mais tarde naquele ano, em resposta às manifestações contra o racismo, “Os Simpsons” anunciou que não escalaria mais atores brancos para dublar personagens negros ou de outras minorias raciais.

A série então substituiu os dubladores de dois personagens negros — Carl Carlson e Dr. Julius Hibbert — por atores negros.

Kondabolu confirmou à AP que não conversou com os produtores de “Os Simpsons” sobre o retorno de Apu, “mas eles não me deviam isso”. E, ao que tudo indica, Apu veio para ficar.

Apu também foi acolhido por sul-asiáticos, apesar da controvérsia.

Poucas semanas depois de “Os Simpsons” responder ao documentário, o escritor e produtor Amar Shah publicou uma série de textos nas redes sociais e, em seguida, um artigo de opinião no The Washington Post para explicar por que sentia sobretudo nostalgia em relação a Apu.

Ao assistir ao personagem, ele se lembrava do próprio pai indiano trabalhando duro como dono de uma loja de conveniência e de como isso marcou sua infância na Flórida.

Depois de assistir ao episódio mais recente, Shah não percebeu uma diferença significativa na interpretação de Malhotra.

Em meio ao aumento do ódio contra sul-asiáticos, retorno de Apu é bem recebido.

Apu está sendo resgatado em um contexto de aumento do ódio contra pessoas de origem sul-asiática e indiana. A organização Stop AAPI Hate e outros grupos de pesquisa constataram que o uso de insultos racistas e ameaças contra sul-asiáticos e indianos na internet cresceu nos últimos anos.

Bo French, candidato republicano à Comissão Ferroviária do Texas, publicou recentemente uma foto de estudantes sul-asiáticos da Universidade do Texas comemorando durante um jogo de futebol americano e os chamou de “um problema”.

Na semana passada, um homem foi acusado de planejar um ataque a tiros em massa contra um templo hindu nos arredores de Chicago. Nesse cenário, Shah considera positiva a abordagem cuidadosa da série para trazer o personagem de volta.

O retorno também coincide com uma presença muito maior de americanos de origem sul-asiática em posições de destaque, como a atriz e produtora de séries Mindy Kaling, e de pessoas que romperam barreiras na política, como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e a ex-vice-presidente Kamala Harris.

Quando Apu apareceu pela primeira vez, afirma Shilpa Davé, professora associada de estudos de mídia da Universidade da Virgínia, ele era uma das poucas representações recorrentes de sul-asiáticos na televisão.

Agora, ela diz, “os sul-asiáticos passaram a fazer parte do cenário, de ‘Bridgerton’ a ‘Eu Nunca...’, e há uma grande variedade de diferentes formas de representação”.

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