Durante cerca de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias em colônias de nações europeias, crime que continuou a ser cometido mesmo após a independência de algumas delas.
O Brasil foi o principal destino desses escravizados. Por meio de muita violência e dos chamados navios negreiros, mais de 4,8 milhões de escravizados atravessaram o Oceano Atlântico para o trabalho forçado no Brasil.
E é isso que nos lembra a obra da artista portuguesa Grada Kilomba, que lança uma provocação ao público: o que o fundo do oceano nos diria se fosse esvaziado de água hoje.
A obra escultórica e performática criada por Grada Kilomba é composta por 134 blocos de madeira queimada que são dispostos em uma área de 220 metros quadrados, com extensão de 32 metros de comprimento.
A peça desenha a silhueta do fundo de uma grande embarcação e, com isso, busca revelar a arquitetura do espaço criado nos porões dos navios negreiros para acomodar os corpos de milhões de pessoas africanas escravizadas.
O Barco é resultado de uma extensa pesquisa da artista em botânica, história e travessias transatlânticas. Também tem inspiração na tragédia de Antígona, em que Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, se matam após uma luta pela disputa do poder em Tebas.
Segundo a mitologia grega, Creonte assume o trono e ordena que Etéocles seja enterrado com honras de herói, mas proíbe o sepultamento de Polinices.
Para Kilomba, o oceano é um espaço de sepultamento de milhões de vidas perdidas, tanto da escravização e do colonialismo quanto das guerras, mudanças climáticas e migrações forçadas.
Obra de grandes dimensões, O Barco teve que ser adaptada para caber no galpão do Sesc Pompeia.
É muito interessante começar a trabalhar nessa narrativa de que os barcos atracavam em diferentes portos e não chegavam inteiros, não chegavam com toda a sua população, assim como os barcos hoje saem de um lugar para um outro e não chegam inteiros.
Essa reflexão também é muito importante: parte desta obra torna-se invisível aqui no espaço porque ela é muito maior do que ele”.
Embora não esteja inteira, a obra ainda continua a conter 18 blocos em seu centro, que estampam um poema gravado em dourado. O poema foi escrito pela própria artista e traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria.
Segundo Kilomba, um dos objetivos desse trabalho é “mostrar como estes barcos e toda a construção da identidade moderna e toda a construção da identidade da Europa foi construída sob uma história de grande violência, na qual a população africana foi a grande protagonista”, sendo transformada em uma mercadoria que acabou construindo “todo esse império e riqueza”.
Uma violência que, segundo ela, ainda se mantém presente nos dias atuais. “Quando a história não é contada devidamente, a sua barbárie repete-se”, lembrou a artista.
O Barco já foi exposto em Lisboa e Londres e desembarcou pela primeira vez no Brasil no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, onde ficou por 28 meses. E agora está na capital paulista, seguindo em itinerância.
No Sesc Pompeia, a obra estará exposta junto a outros dois trabalhos de Grada Kilomba: a videoinstalação Opera to a Black Venus e a instalação Compressed Time.
Concebida pelo Instituto Inhotim, a exposição é gratuita e permanecerá em cartaz até o dia 25 de outubro, no Espaço Galpão do Sesc Pompeia.
Em números
- Por meio de muita violência e dos chamados navios negreiros, mais de 4,8 milhões de escravizados atravessaram o Oceano Atlântico p
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…