A campanha ganhou força à medida que governos de diferentes países passaram a discutir limites de idade para o acesso às plataformas. A Austrália, que, em novembro de 2024, aprovou a primeira lei do mundo a proibir o uso de redes sociais por menores de 16 anos, tornou-se um dos principais focos da estratégia da empresa.
Segundo um relatório do Tech Transparency Project (TTP), grupo que acompanha o setor de tecnologia, a Meta vem recrutando influenciadores desde 2024 para divulgar suas ferramentas de segurança para adolescentes.
A estratégia teria sido intensificada sempre que um governo começava a discutir novas regulamentações para usuários jovens.
Alguns dos influenciadores recrutados pela Meta receberam patrocínio para publicar conteúdo sobre essas ferramentas. A empresa, porém, afirma que não divulga os termos individuais de suas parcerias.
Para Katie Paul, diretora do Tech Transparency Project, a utilização de influenciadores revela que a Meta percebeu que teria dificuldades para convencer o público sozinha.
A Meta também contou com organizações que recebem apoio financeiro da companhia para divulgar sua posição contra proibições abrangentes.
A ReachOut Australia, organização voltada à saúde mental de jovens, participou de um dos painéis do evento australiano e posteriormente publicou informações sobre o encontro.
A entidade lista a Meta como uma de suas patrocinadoras de nível “gold”.
A ReachOut afirmou que mantém independência editorial e que nenhum parceiro, incluindo a Meta, revisa ou aprova aquilo que a organização publica ou o que seus representantes dizem publicamente.
A Meta, por sua vez, disse trabalhar com a entidade há quase uma década em campanhas para informar usuários sobre as ferramentas de segurança disponíveis.
Estratégia também chegou à Indonésia e à Índia.
A campanha não ficou restrita à Austrália. A Meta adotou estratégia semelhante na Indonésia, depois que o governo começou a discutir restrições de idade para redes sociais.
Na Índia, a estratégia começou depois que o governo passou a discutir restrições de idade para redes sociais. Em fevereiro de 2026, o ministro de Eletrônica e Tecnologia da Informação, Ashwini Vaishnaw, afirmou que o governo estudava medidas do tipo.
Na mesma semana, um pesquisador do Observer Research Foundation, instituto de pesquisa sediado em Nova Délhi (Índia), publicou um artigo defendendo que proibições de redes sociais para adolescentes seriam ineficazes.
A organização recebeu financiamento do Facebook India em 2022 e atualmente lista a Meta entre seus parceiros.
A Meta negou ter pago ao pesquisador ou à organização para a publicação do artigo. O Observer Research Foundation não respondeu aos pedidos de comentário feitos pelo Guardian.
Ex-funcionário critica estratégia da Meta.
Arturo Bejar, ex-funcionário da Meta que se tornou denunciante após trabalhar com segurança na empresa, criticou a estratégia de utilizar influenciadores para divulgar as Contas de Adolescente.
Segundo ele, a campanha cria uma percepção de segurança maior do que aquela que os recursos realmente conseguem oferecer.
Para o ex-funcionário, a estratégia seria mais uma demonstração de que a Meta estaria preocupada em proteger a própria imagem do que em resolver os problemas de segurança enfrentados pelos adolescentes.
Austrália mostra dificuldade de aplicar proibição.
A disputa ocorre enquanto governos de diferentes partes do mundo tentam encontrar maneiras de reduzir os riscos associados ao uso de redes sociais por adolescentes.
A Austrália colocou sua legislação em vigor em dezembro de 2025. A regra determina que plataformas de redes sociais impeçam menores de 16 anos de criar ou manter contas.
Apesar disso, dados do regulador australiano indicaram que mais de 80% dos adolescentes continuavam usando redes sociais três meses depois da entrada em vigor da proibição.
Muitos também disseram que sequer precisaram informar a idade para acessar as plataformas.
Os números evidenciam uma das principais dificuldades das políticas de restrição etária: impedir que adolescentes simplesmente criem novas contas, forneçam informações falsas ou encontrem maneiras de contornar os mecanismos de verificação.
O movimento ganhou força em outros mercados importantes para a Meta. Na Indonésia, o governo implementou em março de 2026 uma proibição abrangente para adolescentes.
Na Índia, alguns estados já adotaram restrições enquanto o país discute uma regulamentação nacional.
No Brasil, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em março de 2026, estabeleceu, entre outras medidas, mecanismos rigorosos de verificação de idade e a vinculação das contas de crianças aos pais.
Segundo o Tech Transparency Project, a Meta lançou alguma versão de sua campanha com influenciadores em todos esses mercados.
A empresa defende que proibições generalizadas não são a melhor solução. Em resposta ao relatório, Edward Patterson, porta-voz da Meta, afirmou que a companhia trabalha para desenvolver “proteções fortes para adolescentes e controles eficazes para os pais”.
Ele citou a própria Austrália como exemplo: segundo o executivo, adolescentes de 16 e 17 anos continuam podendo utilizar os serviços da empresa, mas são colocados por padrão nas Contas de Adolescente.
A Meta afirma que continuará trabalhando com pais e especialistas para divulgar seus recursos de segurança.
Especialistas ainda não chegaram a um consenso sobre a melhor maneira de proteger crianças e adolescentes dos riscos das redes sociais. Há dúvidas tanto sobre a eficácia das proibições quanto sobre a capacidade dos governos de fiscalizá-las.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, grupos, como a Electronic Frontier Foundation (EFF) e a Fight for the Future, que historicamente criticam práticas da Meta relacionadas à privacidade, também questionam algumas propostas de restrição por idade.
David Greene, advogado sênior da EFF, afirma que medidas governamentais deveriam ser consideradas último recurso e defende alternativas como ferramentas de controle parental oferecidas pelas próprias plataformas.
Para Katie Paul, entretanto, a Meta já teve tempo suficiente para demonstrar que consegue proteger adequadamente usuários jovens por conta própria.
O Olhar Digital procurou a Meta para um posicionamento oficial sobre o tema e aguarda retorno.
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
Fontes
Informação baseada em material público de Olhar Digital, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.