Quem nunca terminou uma reunião, uma prova ou uma redação com a tampa de uma caneta Bic retorcida, rachada e cheia de marcas de mordida? O gesto parece trivial — quase um clichê de sala de aula e escritório —, mas esconde uma combinação rara de psicologia do desenvolvimento, neurociência da emoção e, em alguns casos, comportamentos repetitivos focados no corpo (BFRBs, na sigla em inglês).
Esta reportagem reúne o que a literatura científica e clínica diz sobre o impulso de morder a tampa de caneta: por que ele reaparece na vida adulta, o que o cérebro ganha com isso, quando vira problema e quais alternativas a pesquisa sugere.

Muito além do “tique nervoso”
Chamar o hábito de simples “nervosismo” empobrece a explicação. Em termos comportamentais, morder a caneta é um estereotipia oral automática: um movimento repetitivo que alivia desconforto interno sem exigir atenção plena. Ele costuma aparecer quando três condições se encontram:
- Estímulo cognitivo alto (prova, prazo, planilha complexa);
- Estímulo emocional moderado (ansiedade anticipatória, tédio prolongado);
- Objeto disponível (caneta, capa de lápis, palito, ponta de óculos).
Levantamentos informais em universidades e ambientes corporativos sugerem que mais da metade das pessoas já mastigou algum objeto de escrita ao menos uma vez na vida — o que indica quão adaptativo o cérebro considera essa válvula de escape.
A “regressão oral”: conforto que vem da infância
Na psicologia do desenvolvimento, a fase oral — descrita por Sigmund Freud e refinada por autores posteriores como Donald Winnicott — é o período em que bebês exploram o mundo principalmente pela boca: sugar, morder, engolir. Essa fase constrói associações profundas entre boca, segurança e prazer.
Na vida adulta, situações de estresse podem reativar padrões orais sem que a pessoa “volte a ser criança” de forma patológica. Winnicott chamou certos objetos — cobertores, chupetas, bichos de pelúcia — de objetos transicionais: itens que representam conforto quando a mãe (ou figura de cuidado) não está presente. A tampa de plástico, dura e familiar, funciona como um substituto portátil desse conforto sensorial.

O que a neurociência mede quando você morde a caneta
Estudos sobre mastigação (inclusive de chiclete) ajudam a entender o mecanismo — mesmo quando o objeto não é comestível. Pesquisadores da Universidade de Cardiff (Reino Unido), liderados por Andrew Scholey, observaram que mascar chiclete reduz ansiedade autoreportada e cortisol salivar em situações de estresse experimental (Physiology & Behavior, 2009; replicado em trabalhos posteriores sobre atenção e humor).
O movimento rítmico de mastigar:
- Ativa o nervo trigêmeo, responsável por parte da sensibilidade da face e mandíbula, enviando sinais ao tronco cerebral;
- Estimula o sistema parassimpático, associado a “modo de repouso” — frequência cardíaca e tensão muscular tendem a cair levemente;
- Compete com circuitos de alarme (amígdala e eixo HPA), desviando recursos da percepção de ameaça;
- Libera pequenas doses de dopamina via gânglios da base, reforçando o hábito como “solução rápida”.
Quando a caneta substitui o chiclete, o cérebro busca o mesmo pacote sensorial — pressão dental, textura, temperatura — sem engolir nada.
Concentração, tédio e “fidgeting ” (Usar objetos de fidget (fidget toys) ajuda a manter as mãos ocupadas para melhorar a concentração, reduzir a ansiedade e promover a autorregulação sensorial)
Na década de 2010, pesquisas sobre fidgeting (micro-movimentos durante tarefas longas) mostraram que pequenos estímulos motores podem facilitar a manutenção da atenção em parte das pessoas, especialmente com TDAH ou alta carga cognitiva. Um artigo na revista Child Neuropsychology (2015) associou movimentos repetitivos a melhor desempenho em tarefas de memória de trabalho em subgrupos de escolares — embora os efeitos variem muito entre indivíduos.
Traduzindo: morder a caneta pode ser o corpo tentando regular o nível ideal de arousal (alerta). Pouco estímulo → tédio → busca oral; estímulo demais → ansiedade → mesma busca. O plástico na boca funciona como “termostato” sensorial.
BFRBs: quando o hábito entra em outra categoria clínica
A American Psychiatric Association, no DSM-5, agrupa comportamentos como roer unhas (onicofagia), arrancar cabelos (tricotilomania) e cutucar a pele (dermatilomania) sob o espectro de obsessive-compulsive and related disorders. Morder objetos inertes não tem diagnóstico próprio, mas pode fazer parte do mesmo continuum de comportamentos repetitivos focados no corpo (BFRBs).
A TLC Foundation for Body-Focused Repetitive Behaviors (EUA) estima que milhões de adultos convivem com BFRBs severos. Para esses casos, protocolos de Habit Reversal Training (HRT), desenvolvidos por Azrin & Nunn (1970s) e refinados por Woods et al. (Behavior Modification, 2006), combinam:
- Consciência — reconhecer o gatilho antes do gesto;
- Resposta competidora — substituir por ação incompatível (ex.: segurar caneta sem levar à boca);
- Reforço social — apoio de família ou terapeuta;
- Regulação emocional — técnicas de respiração e mindfulness.
Três pilares explicativos (síntese)
| Pilar | O que acontece | Evidência |
|---|---|---|
| Regulação emocional | Redução momentânea de ansiedade e tensão muscular | Estudos de cortisol e chiclete (Scholey et al.; Smith, 2009) |
| Memória sensorial oral | Reativa conforto associado à infância e objetos transicionais | Teoria do desenvolvimento (Freud; Winnicott) |
| Modulação cognitiva | Movimento repetitivo ajuda a sustentar foco ou aliviar tédio | Literatura sobre fidgeting e TDAH (2010–2020) |
Outros comportamentos orais com a mesma função
- Roer unhas — o BFRB mais comum; frequentemente associado a ansiedade generalizada;
- Morder lábios ou bochechas por dentro — microlesões que aliviam tensão momentânea;
- Chupar balas, palitos ou chiclete — alternativa socialmente aceita ao plástico;
- Rolar caneta entre os dentes — variante menos destrutiva, porém ainda repetitiva;
- Morder ponta de óculos ou fones — especialmente em reuniões remotas.

Quando procurar ajuda?
Na maior parte das vezes, morder a tampa da caneta é inofensivo. Sinais de que vale conversar com psicólogo ou dentista:
- Deformar ou quebrar canetas diariamente, com dificuldade consciente de parar;
- Dor dental, desgaste do esmalte, bruxismo ou problemas na articulação temporomandibular (ATM);
- Vergonha intensa ou evitar situações (provas, reuniões) por causa do hábito;
- Comorbidade com outros BFRBs (unhas, pele, cabelo);
- Ingestão acidental de pedaços de plástico.
Profissionais de saúde bucal alertam: tampas duras podem fraturar dentes, especialmente molares com restaurações, e microplásticos ingeridos, embora raros, são monitorados por toxicologistas.
Estratégias práticas (com respaldo em terapia comportamental)
| Gatilho | Reação comum | Alternativa sugerida |
|---|---|---|
| Estresse / ansiedade | Morder caneta para “descarregar” | Respiração 4-7-8; chiclete sem açúcar; objeto sensorial (stress ball) |
| Concentração intensa | Mastigar sem perceber | Caneta com tampa de silicone comestível; pausas Pomodoro |
| Tédio | Buscar estímulo oral | Água com gás; snack crocante saudável; levantar da cadeira |
O que este hábito revela sobre ansiedade na sociedade atual
Em um mundo de notificações constantes, prazos curtos e multitarefa, o corpo recorre a soluções arcaicas e eficientes: a boca. Morder a caneta é, muitas vezes, um sinal silencioso de que a mente está em sobrecarga — não de “falta de educação” ou “imaturidade”.
Reconhecer o gesto com curiosidade, em vez de vergonha, abre espaço para perguntar: como estou me sentindo agora?
Às vezes, a resposta aponta fadiga, medo de errar ou necessidade de pausa — todos problemas mais fáceis de tratar do que a culpa por um pedaço de plástico deformado.
Redação ULTRA NOTÍCIAS — Referências: UAI Curiosidades (matéria original), literatura sobre BFRBs, estudos de mastigação e regulação emocional.