Apesar da alta demanda, a entidade destaca que nunca foram realizados tantos procedimentos desse tipo no Brasil. No ano passado, foram 17. 790 cirurgias que ajudaram a recuperar a visão, um marco classificado pelo conselho como histórico.
Como consequência do passivo acumulado ao longo dos anos, uma pessoa que aguarda por um transplante de córnea no Brasil leva, em média, 370 dias para realizar a cirurgia - tempo mais que duas vezes superior ao registrado há 10 anos, quando a demora era de 174 dias.
Para o CBO, o cenário tem origem em múltiplos fatores, incluindo a falta de reajustes nos valores pagos pelos procedimentos e o impacto da pandemia de covid-19, que causou uma espécie de represamento de pacientes, sobretudo no período de 2020 a 2023.
Outro ponto identificado é o incremento de exigências nas fases de produção e processamento da córnea, como a necessidade de gestão de qualidade.
Consolidado como o maior exemplo de agilidade no país, o Ceará realizou 1. 371 transplantes em 2025. Embora tenha registrado 1. 639 novos ingressos ao longo do ano, a alta rotatividade do sistema permitiu que o estado encerrasse dezembro com apenas 93 pacientes ativos na lista de espera.
O Mato Grosso também se destaca pela gestão da fila, com apenas 37 pacientes a espera do transplante.
No extremo oposto, o Rio de Janeiro realizou apenas 653 transplantes em 2025, enquanto recebeu 1. 720 novos ingressos na fila no mesmo período. Esse desequilíbrio fez com que a lista acumulada fluminense fechasse dezembro de 2025 com 4.
Outros estados populosos também registram filas expressivas, como São Paulo, que concentra a maior fila absoluta, com 7. 505 pacientes ativos em dezembro, e Minas Gerais, com 4.
532 ativos. Ambos, entretanto, mantêm uma relação fila/transplante mais equilibrada em comparação ao caso fluminense.
Os estados do Amapá e de Roraima não registraram a realização de nenhum transplante de córnea em 2025.
Apesar dos volumes, especialistas do CBO ressaltam que o Brasil, em termos gerais, permanece bem avaliado em nível internacional, com um desempenho compatível com Canadá, Austrália e alguns países da Europa.
Na América Latina, o Brasil aparece como grande destaque, bem à frente de Argentina, Chile, Colômbia e México.
Dentre os candidatos à espera para fazer um transplante de córnea, as mulheres são maioria (56% dos pacientes).
No que se refere à idade, pessoas com 65 anos ou mais representam quase metade da fila (47%), reflexo, segundo o CBO, do envelhecimento da população e do aumento das doenças degenerativas da córnea.
Um dos pontos que chama atenção, de acordo com o conselho, é a fila infantojuvenil - atualmente, o Brasil registra um acumulado de 753 crianças e adolescentes ativos na lista de espera para transplante de córnea, em comparação a 616 pacientes registrados em dezembro de 2025.
Os dados indicam que 2020 foi um ano decisivo para a formação do cenário atual, por conta das medidas sanitárias que suspenderam cirurgias eletivas, entre elas os transplantes de córnea, para manter liberados leitos para atender os casos de covid-19.
Naquele ano, foram realizados 7. 349 transplantes de córnea, pouco menos do que a metade produzida no ano anterior (14. 942).
Apesar do impacto inicial da pandemia, o total de transplantes de córnea saltou para 12. 869 em 2021, escalando para 14. 082 em 2022, para 16. 028 em 2023, para 17.
108 em 2024 e finalmente alcançando o patamar recorde de 17. 790 cirurgias em 2025.
O panorama de transplantes de córnea no Brasil está entre os temas debatidos ao longo do 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), que acontece até o próximo sábado (12) em Salvador.
*A repórter viajou a convite do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
Em números
- Brasil tem quase 38 mil pessoas à espera de transplante de córnea
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…