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Quando o CEP define quem corre mais risco: como renda e raça revelam o racismo ambiental

6 min de leitura
Quando o CEP define quem corre mais risco: como renda e raça revelam o racismo ambiental

renda e raça ampliam a vulnerabilidade ao.

Na primeira vez em que a casa de Mateus Fernandes alagou, ele era uma criança de 10 anos e morava com a mãe no bairro Parque Santos Dumont, em Guarulhos, na Grande São Paulo.

A primeira enchente aconteceu quando eu ainda era muito novo. Não me lembro de todos os detalhes, mas até hoje guardo na memória o cheiro específico da água parada e a sensação de desespero de perder tudo", relembra o comunicador popular e ativista ambiental que hojte tem 25 anos.

Durante muitos anos, a enchente interrompeu minha jornada de trabalho, de estudo e até mesmo de lazer. Sempre era um desespero sair de casa nesses períodos, porque nunca sabíamos se conseguiríamos voltar.

Já na Zona Leste de São Paulo, Arlete Santos, de 52 anos, moradora da comunidade do Jardim Pantanal há 27 anos e líder comunitária, passou — e ainda passa — pela mesma situação.

Ela se recorda do primeiro alagamento em sua casa, em 2009. A residência fica em frente ao Córrego São Martinho, ligado ao Rio Tietê.

Subiu muito rápido, durante a madrugada. Conseguimos salvar algumas coisas. Meus filhos eu consegui levar para a casa da minha mãe, porque do lado de lá não enchia tanto.

No desespero, fui para a rua chamando os vizinhos e gritando que estava tudo enchendo: 'Acorda, acorda!' A maioria acordou com a água já tomando conta da cama. Muita gente perdeu tudo.

Nos anos seguintes, os alagamentos continuaram. Em 2010, a água permaneceu em sua casa por 64 dias; em 2011, por 21 dias; em 2013, por 25 dias; e, em 2025, por sete dias.

Assim como Arlete, Mateus também precisou reconstruir a vida diversas vezes. Ainda como Jovem Aprendiz, viu boa parte do salário ser destinada para recuperar o que a água levava.

Existe uma dor invisível nisso, porque cada item de uma casa custa muito, principalmente para quem tem pouca renda. No meu caso, quando finalmente estava conseguindo me recuperar de uma enchente, pouco mais de um ano depois, outra aconteceu.

Eu me perguntava por que precisava passar por aquilo de novo", conta.

Durante muito tempo, ele acreditou que aquela repetição era apenas azar e que a culpa era dele e da mãe por morarem em uma região periférica.

Ainda na faculdade e conseguindo melhores oportunidades de trabalho, Mateus deixou a periferia de Guarulhos e se mudou para um bairro de classe média no Tucuruvi, na Zona Norte da capital, onde mora há três anos.

Hoje moro em outro bairro, para onde me mudei depois de concluir a faculdade. Consigo viver com muito mais tranquilidade. O barulho da chuva, que antes era motivo de desespero, hoje até me ajuda a dormir.

São anos de trabalho para levantar uma casa, para conseguir as coisas. Para você perder tudo da noite para o dia. Não é justo. Essas condições de alagamento não acontecem em bairros ricos, bairros com estrutura.

Foi justamente ao perceber essa diferença que Mateus passou a entender que as enchentes não eram apenas consequência da natureza. Segundo ele, existe uma desigualdade estrutural por trás da repetição daqueles episódios.

Quando conheci o conceito de racismo ambiental, entendi que populações negras e periféricas são muito mais expostas aos impactos da crise climática porque, historicamente, receberam menos investimentos em infraestrutura, saneamento e planejamento urbano", afirma.

Segundo Cássia Caneca, diretora-executiva do Instituto Pólis, organização da sociedade civil que atua na promoção do direito à cidade, racismo ambiental é a distribuição desigual dos danos ambientais entre diferentes grupos da sociedade.

O fenômeno ocorre quando territórios ocupados majoritariamente por populações negras, indígenas, quilombolas e de baixa renda concentram enchentes, deslizamentos, poluição, ausência de saneamento básico e outros impactos ambientais.

A desigualdade descrita por Cássia também aparece nos números. O estudo Racismo Ambiental e Injustiça Climática, publicado pelo Instituto Pólis em novembro de 2025, analisou São Paulo, Belém, Recife e Porto Alegre com base em dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE e da plataforma UrbVerde.

Em escala de setor censitário, a pesquisa cruzou indicadores como renda, raça/cor, saneamento, infraestrutura urbana e cobertura vegetal para identificar os territórios mais vulneráveis aos impactos da crise climática.

Segundo a diretora, os dados mostram que a exposição à crise climática não depende apenas das características naturais do território, mas também da forma como o poder público distribui investimentos e infraestrutura.

Embora os eventos extremos afetem toda a cidade, eles atingem de forma mais intensa populações negras e de baixa renda, que historicamente vivem em áreas com menor acesso a saneamento, drenagem, arborização e outros serviços urbanos.

Esse cenário tende a se tornar ainda mais desafiador com a intensificação de eventos climáticos extremos. Especialistas alertam que fenômenos como o El Niño podem aumentar o volume de chuvas em algumas regiões do país, agravando riscos já existentes.

Para Cássia, a crise climática não cria o racismo ambiental, mas amplia desigualdades históricas ao expor ainda mais quem vive em áreas vulneráveis.

Precisamos mudar a forma como a cidade se organiza. Isso passa pela urbanização de favelas, ampliação das áreas verdes, recuperação de rios e córregos, universalização do saneamento básico e fortalecimento da capacidade dos municípios para identificar riscos e planejar investimentos que reduzam a vulnerabilidade climática", afirma.

As conclusões da pesquisa dialogam diretamente com a trajetória de Mateus Fernandes. Depois de aumentar a renda e mudar de bairro, ele percebeu que não havia mudado apenas de endereço.

Conforme passou a frequentar a universidade e ocupar novos espaços profissionais, encontrou cada vez menos pessoas negras do que imaginava. Para ele, isso evidencia como renda, raça e acesso à infraestrutura caminham juntos.

A maior diferença, para mim, foi morar em um bairro com saneamento básico. Parece algo simples, mas ver o esgoto tratado e contar com coleta de lixo regular muda completamente a qualidade de vida.

Ele diz que racismo ambiental é quando a cor da pele e o CEP ajudam a definir quem convive primeiro e de forma mais intensa com problemas como enchentes e deslizamentos.

É perceber que enchentes, deslizamentos, ilhas de calor e falta de saneamento não acontecem por acaso. Eles atingem, de forma desproporcional, bairros negros, periféricos e historicamente abandonados pelo poder público.

A natureza não escolhe onde a chuva cai, mas as desigualdades definem quem consegue se proteger dela.

Fontes

Informação baseada em material público de G1 São Paulo, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • G1 São Paulolink

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