Uma coleção com mais de 500 cinzeiros de diferentes formas, tamanhos e origens se transformou em uma das marcas mais curiosas da história de uma mineira e de uma casa que é referência da arquitetura modernista em Belo Horizonte.
Suzanna Campos Cortez de Paula, formada em letras pela Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, na década de 1940, e casada com Júlio de Paula, acumulou por décadas os itens usados para apoiar cigarros e depositar cinzas.
Após a morte de Suzanna, em 2025, aos 101 anos, os cinzeiros trazidos de diversas parte do mundo foram distribuídos entre a família, mas até o próximo domingo (30), parte das peças pode ser vista pelo público que for visitar a casa modernista, na rua Manoel Couto, nº 420, no Cidade Jardim.
O local recebe uma mostra de arquitetura, arte, decoração, design, gastronomia e paisagismo (leia mais ao fim da reportagem).
A paixão de Suzanna pelos cinzeiros era tão grande que ela chegou a escrever para jornalistas e governos estrangeiros pedindo exemplares para aumentar sua coleção.
Uma das histórias mais inusitadas envolve um pedido a Taiwan. A resposta chegou em 20 de maio de 1952, em uma carta assinada pela secretária Pearl L. Chen, da equipe da primeira-dama taiwanesa, esposa de Chiang Kai-shek, líder da China nacionalista e presidente de Taiwan após a Revolução Chinesa.
Na carta, a secretária agradeceu o contato e elogiou o hábito da brasileira. Escreveu que estava contente em saber que Suzanna tinha um hobby tão interessante, mas lamentava que não tinha um cinzeiro para aumentar a coleção.
A correspondência se tornou uma das relíquias guardadas pela família e ajuda a dimensionar o empenho da colecionadora.
Décadas depois, a história foi relembrada pelo jornalista Cyro Siqueira, em uma crônica publicada no jornal "Estado de Minas", que também contou outro episódio curioso envolvendo a coleção.
Segundo o texto, Suzanna costumava escrever para personalidades e brasileiros que viviam no exterior pedindo cinzeiros para o acervo. Em uma das cartas, enviada ao fotojornalista Eugênio Silva, correspondente da revista "O Cruzeiro", que estava no Japão, Suzanna pedia que ele lhe trouxesse um item do país.
Para que o jornalista se empenhasse, a colecionadora adicionou uma informação inventada ao pedido: disse que era paraplégica.
Um tempo depois, um jovem enviado por Eugênio apareceu na casa da família, em Belo Horizonte, para entregar o cinzeiro japonês solicitado. Ao encontrar com Suzanna pessoalmente, o jovem viu que ela não era paraplégica, mas não disse nada.
No texto que Suzanna enviou ao jornal "Estado de Minas", por ocasião da morte do fotojornalista, a colecionadora destacou a elegância e a delicadeza do fotógrafo em enviar o cinzeiro e admitiu que havia inventado a história porque o marido não aprovava suas investidas para ampliar a coleção.
O presente trazido de longe acabou incorporado ao acervo, que continuou crescendo nas décadas seguintes. Cresceu tanto que ganhou lugar de destaque na residência da família.
Uma grande estante integrada à casa foi projetada para acomodar centenas de exemplares, muitos deles decorados com símbolos de cidades, hotéis, companhias aéreas, instituições e personagens históricos.
Segundo uma das netas de Suzanna, Letícia de Paula Carneiro, quando a casa foi desocupada, familiares ainda encontraram cinzeiros guardados em gavetas e baús, além dos que estavam expostos.
Hoje ela mesma tem uma estante em casa com cerca de 200 cinzeiros da avó.
Mais do que objetos decorativos, os objetos ajudam a contar a trajetória de uma mulher que fez da curiosidade e da troca de correspondências com o mundo uma forma original de colecionar memórias.
Projetada em 1954, quando Belo Horizonte se consolidava como uma referência da arquitetura moderna, a casa foi construída para o casal Suzanna Campos Cortez e Júlio de Paula, no então recém-criado bairro Cidade Jardim.
O primeiro estudo do imóvel foi elaborado pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos, e a versão definitiva recebeu a assinatura do arquiteto Geraldo Ferreira Lima. O projeto final preservou a implantação original da residência e foi adaptado para aproveitar a vista da Serra do Curral.
Implantada em um terreno em aclive, a construção se distribui em três níveis e segue princípios característicos do modernismo, como a integração com a paisagem, a racionalidade dos espaços e a valorização da luz e da ventilação naturais.
A história da casa também se confunde com a história de outro imóvel moderno em Belo Horizonte. Foi no Cassino da Pampulha, um dos símbolos da modernização da capital nos anos 1940, que Suzanna e Júlio se conheceram.
Anos mais tarde, transformariam a residência da Rua Manoel Couto em palco de encontros familiares e espaço para coleções, memórias e histórias que atravessaram gerações.
Enquanto Suzanna era viva, a família se reunia na casa, em todos os domingos para um café da tarde. Segundo a filha Rebecca Cortez de Paula, "a casa da Rua Manoel Couto [...] é o símbolo da união de uma família.
Esses encontros permanecem vivos na memória de todos que tiveram o privilégio de viver ali momentos de alegria e afeto. Minha mãe foi, acima de tudo, uma mãe, avó e bisavó dedicada e querida, e essa casa guarda tudo isso", disse ela.
A casa modernista da família Cortez de Paula foi escolhida para receber a 19ª edição da mostra Morar Mais, que reúne arquitetura, arte, decor, design, gastronomia e paisagismo.
O objetivo do evento é oferecer soluções inteligentes e acessíveis, com foco na criatividade e na beleza sem ostentação, num circuito com 24 ambientes decorados, assinados por 34 profissionais.
A mostra está aberta a visitação de terça a sexta-feira, das16h às 22h; no sábado, das 13h às 22h e no domingo, das 13h às 19h.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Minas, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.