O jovem, que pediu para não ser identificado, afirma ter sido vítima de tráfico humano, ter sofrido pressão psicológica e ter sido ameaçado com armas durante uma tentativa de fuga em Madagascar.
Lista completa
- Brasileiros vítimas de tráfico humano e escravizados há mais de três meses em Mianmar são resgatados e famílias comemoram.
- Jovens escravizados em Mianmar eram obrigados a dar golpes pela internet em brasileiros.
Ele é um dos 23 brasileiros de diferentes estados que estão em Antananarivo, capital de Madagascar, na África, depois de conseguirem escapar da organização criminosa que, segundo os relatos, era comandada por chineses.
Agora, o grupo tenta voltar ao Brasil, mas afirma estar sem os passaportes, que ficaram em poder das autoridades locais, e sem dinheiro para comprar as passagens.
Um e-mail para o Itamaraty foi enviado em 29 de agosto pedindo repatriação, salvaguarda de passaportes e assistência consular.
Estão todos assustados, querendo voltar para casa. Mas não estamos recebendo ajuda de quem deveria estar dando, que é o consulado e o Itamaraty. Estamos com medo e tendo que nos virar sozinhos.
Tem gente de vários estados e cerca de cinco mulheres", afirmou.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou que, por meio da Embaixada do Brasil em Maputo, capital de Moçambique, responsável pelas relações com Madagascar, "vem prestando a assistência consular cabível aos nacionais e mantendo interlocução com as autoridades locais a respeito do caso" (veja abaixo).
A proposta, segundo ele, parecia legítima: a empresa pagaria passagem, alimentação e moradia, além de oferecer treinamento. Inicialmente, o trabalho seria no suporte de aplicativos, que poderiam envolver jogos e apostas.
O destino informado aos brasileiros era o Camboja, no sudeste asiático. Ele chegou ao país em meados de abril e foi recebido no aeroporto. Segundo o relato, um policial o ajudou a passar pela imigração e, depois, ele foi levado de carro para o local onde funcionaria a suposta empresa, próximo à fronteira com a Tailândia.
A viagem de carro durou entre seis e oito horas. “Quando eu cheguei à empresa, onde seria essa empresa, era um prédio pequeno. Lá tinham várias pessoas de várias etnias.
Tinham chineses, pessoas do próprio Camboja, brasileiros, pessoas de Angola.”.
Já nos primeiros dias, porém, ele percebeu que a empresa não tinha uma rotina e isso chamou sua atenção: os funcionários não tinham horários fixos, a internet foi retirada, e os trabalhadores começaram a ser transferidos.
O passaporte do brasileiro havia sido recolhido assim que ele chegou ao Camboja. Segundo ele, um dos responsáveis disse que o documento seria necessário para regularizar o visto.
Ele só voltou a ver o passaporte quando o grupo deixou o Camboja com destino a Madagascar.
O brasileiro conta que o grupo chegou a fugir da polícia duas vezes no Camboja. Depois, os responsáveis pela organização compraram passagens e transferiram os brasileiros para Madagascar.
Em Madagascar, o grupo ficou inicialmente em um hotel. Depois, foi levado a um complexo onde começou a trabalhar. Foi nesse momento que o paulistano descobriu a verdadeira atividade.
Segundo o brasileiro, os golpes eram financeiros. Os trabalhadores precisavam permanecer horas em ligação com as vítimas para tentar obter dinheiro e, em alguns casos, continuar monitorando essas pessoas por dias para descobrir se tinham mais recursos.
Ele afirma que cada funcionário trabalhava 10 horas a 12 horas por dia, recebia metas e sofria punições quando não as cumpria. Ele diz também que não recebia o valor que tinha sido combinado.
Entre as punições, estava a obrigação de fazer cópias manuscritas dos roteiros usados nos golpes após a jornada de 10 horas. “Eram duas, três, quatro, cinco [cópias], dependendo.
Eram até 10 cópias daquele roteiro, e a gente tinha que entregar no dia.”.
O brasileiro afirma que a circulação dos trabalhadores era controlada. O complexo contava com policiais malgaxes armados e, segundo ele, os brasileiros só podiam sair com autorização e supervisão.
Os celulares também eram recolhidos durante o expediente. Ele conta que evitava contar à família o que estava acontecendo por medo de colocar parentes em risco.
Segundo o relato, outros brasileiros diziam que os criminosos já haviam mostrado fotos das casas de familiares como forma de ameaça.
A família só descobriu o que havia acontecido com ele depois que o grupo de brasileiros foi preso pela polícia de Madagascar sob acusação de golpes financeiros.
Antes da prisão, segundo o paulistano, outros três brasileiros haviam sido detidos depois de entrar em contato com o consulado. Ele afirma que os criminosos tiveram acesso às mensagens enviadas.
Segundo o relato, o trio ficou cerca de um mês preso e depois conseguiu voltar ao Brasil.
A prisão dos 23 brasileiros ocorreu em 19 de agosto, segundo um documento enviado pelo grupo ao Itamaraty relatando o caso e pedindo ajuda. O paulistano afirma que os policiais de Madagascar chegaram ao local com uma lista indicando os quartos onde estavam os trabalhadores.
Ele afirma ter ficado quatro dias preso, inicialmente em uma cela pequena, escura e sem banheiro.
Segundo ele, os presos precisavam pagar pela água, pela comida e até pela lenha usada para cozinhar. Policiais chegaram a apontar armas contra ele. “Dois policiais, um com uma pistola e outro com um AK-47, apontando na minha cabeça, me empurrando, me batendo.
Em outro momento, quando tentou fugir, ele diz ter sido perseguido pela polícia pelas ruas de Antananarivo. “Eu fui cercado por vários policiais e só parei porque eles engatilharam a arma para mim.
Eu escutei engatilhando a arma, então eu parei e me rendi. Eu falei: ‘Eu não vou pagar para ver’.”.
Ele conta que foi colocado em uma viatura, revistado e teve o celular levado. Depois, foi levado para outra delegacia e, posteriormente, para um motel onde ficou sob vigilância.
No dia seguinte, encontrou uma oportunidade para fugir.
Depois de se esconder, conseguiu reencontrar os demais brasileiros.
Brasileiros traficados estão em Madagascar e não conseguem voltar ao Brasil.
Segundo ele, durante a prisão, os policiais diziam que estavam negociando com o governo brasileiro para que fossem enviados de volta ao país. Posteriormente o grupo descobriu que se tratava, na verdade, de uma negociação com a organização criminosa.
Segundo o relato, parte do grupo foi liberada e colocada em uma van. O motorista seria um policial que trabalhava na segurança do local em que os brasileiros estavam hospedados.
O grupo decidiu, então, fugir em direção ao aeroporto. “Eu tentei fugir, mas fui o único dos 23 que não conseguiu.”.
Durante a fuga, ele tentou pegar um mototáxi, mas afirma que foi derrubado da motocicleta pelo policial que o perseguia. Depois, correu pelas ruas até ser cercado.
Agora, a luta para voltar ao Brasil.
Depois da fuga, os 23 brasileiros se reencontraram e passaram a receber ajuda de voluntários locais. O grupo está atualmente abrigado, mas segue sem os passaportes.
Segundo o paulistano, autoridades locais condicionaram a devolução dos documentos à apresentação das passagens de retorno.
Em documento enviado ao Itamaraty em 29 de agosto, o grupo pediu a repatriação emergencial, a liberação dos passaportes ou a emissão de Autorizações de Retorno ao Brasil (ARBs), além de proteção consular presencial.
O grupo afirma não ter recursos para isso. Alguns tentam conseguir empréstimos e outros fazem campanhas para arrecadar dinheiro. “Eu estou levantando uma vaquinha para poder conseguir comprar minha passagem e sair deste país”, conta.
Segundo o brasileiro, até a alimentação depende da ajuda de voluntários. “A gente está tendo que pedir dinheiro aos nossos familiares para reunir e comprar comida para fazer para todo mundo.”.
Ele afirma que os brasileiros continuam com medo de saírem sozinhos e de serem novamente presos. “A gente está assustado ainda, sabe? Porque quem deveria estar prestando esse apoio para a gente, pela visão da gente, seria o Itamaraty e o consulado.
Cíntia Meirelles, diretora da ONG Exodus Road Brasil, que acompanha o caso, afirma que os 23 brasileiros foram atraídos por falsas promessas de emprego e acabaram envolvidos em atividades fraudulentas em circunstâncias que podem indicar tráfico de pessoas para exploração laboral e criminal.
Segundo ela, após a fuga, o grupo passou aproximadamente três dias no Aeroporto Internacional de Antananarivo por temer ser levado novamente aos locais onde funcionariam os supostos esquemas criminosos.
Nesse período, enfrentou falta de alimentação, água, dinheiro e de condições adequadas de permanência.
Ainda de acordo com Cíntia, missionários passaram a prestar assistência emergencial aos brasileiros, oferecendo alimentação, água, transporte e abrigo.
A ONG também informou ter buscado apoio da Organização Internacional para as Migrações (OIM), em Antananarivo, para que o grupo receba assistência dentro dos mecanismos de proteção destinados a potenciais vítimas de tráfico de pessoas.
A diretora afirma que os brasileiros são tratados como tais, diante dos relatos de recrutamento por falsas promessas de trabalho e por terem sido envolvidos em atividades criminosas.
Isso, segundo ela, não representa uma conclusão sobre uma eventual responsabilidade criminal individual.
O grupo também afirma ter recebido informações de que estaria sendo procurado pela organização criminosa e que haveria uma recompensa pela localização dos brasileiros.
Essa informação consta no documento enviado ao Itamaraty.
O Itamaraty afirmou ainda que, por questões de privacidade, não fornece informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros.
Sobre a repatriação, o ministério explicou que ela é um recurso excepcional e que, para ser realizada, é necessário que o interessado comprove situação de desvalimento e que seja verificada a impossibilidade de retorno por meios próprios ou com auxílio de familiares, amigos ou empregadores no exterior ou no Brasil.
Brasileiro vítima de tráfico humano em Mianmar foi torturado.