Candidatos do Rio de Janeiro citados em uma lista apreendida pela Polícia Federal durante uma investigação sobre jogo do bicho no estado dizem temer contratos com grandes gráficas na campanha deste ano.
A planilha foi achada durante operação contra Adilson Coutinho Oliveira Filho, o Adilsinho. Ele é considerado por promotores e investigadores da polícia como um dos chefes da nova cúpula do jogo do bicho no Rio, além de ser o responsável por comandar a máfia de cigarros no estado.
A PF ainda investiga a origem da lista e o significado dos valores atribuídos a cada nome. Uma das hipóteses é a de que o documento traga o registro de pagamentos de material de campanha política a gráficas que faziam parte de um suposto esquema de lavagem de dinheiro da contravenção.
Por isso, alguns candidatos decidiram imprimir material fora da região metropolitana do Rio ou rejeitar peças produzidas por outros candidatos majoritários, para não reforçar suspeitas de relação com o esquema investigado.
A planilha, anexada ao inquérito da PF e obtida pela Folha, reúne cerca de 70 políticos, a maioria deputados, além de quatro partidos. Ao lado dos nomes aparecem valores.
Entre os citados na lista está o ex-governador Cláudio Castro (PL).
A reportagem ligou para o escritório que faz a defesa de Adilsinho e deixou o contato na segunda-feira (17), mas não houve resposta até a publicação deste texto.
Em julho, o advogado Ricardo Braga disse que o cliente "rechaça a alegação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos.
A defesa de Castro disse em nota que "é mentirosa qualquer ilação de que ele tenha recebido pagamento, doação ilegal, vantagem indevida ou qualquer repasse de recursos" atribuído ao bicheiro.
Afirmou também que "a simples citação de um nome em lista ou anotação produzida por terceiro não comprova recebimento de valores, irregularidade eleitoral ou prática de qualquer ato ilícito.
A planilha foi encontrada na casa de Adilsinho durante mandado de busca e apreensão. O contraventor foi preso em fevereiro, em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro.
Ele tinha dois mandados de prisão em aberto. Era suspeito de contrabando de cigarro e de ser mandante de um homicídio em 2022.
A investigação da PF indica que a lavagem de dinheiro se dava via empresas de serviços gráficos, postos de combustíveis e companhias de táxi aéreo.
Fechada neste ano, a editora consta na prestação de contas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) da maioria dos candidatos de 2022 listados na planilha.
A reportagem ligou e mandou mensagem tanto para o sócio da editora mencionado na investigação quanto para o homem apontado pela PF como verdadeiro dono da empresa, mas nenhum dos dois respondeu.
Uma das hipóteses investigadas pela PF é que a planilha fosse um "mapa de circulação" de dinheiro: a organização de Adilsinho financiaria campanhas e, em troca, teria acesso ou influência sobre os eleitos.
Outra hipótese, que reduz a participação dos agentes políticos no esquema, é de que a planilha seja apenas a contabilidade das gráficas.
A divulgação da existência da lista, no dia 2 de julho, gerou movimentação nos bastidores para entender a origem das menções. Com a investigação sob sigilo, políticos afirmam ter recorrido a desembargadores, agentes da PF e advogados para descobrir se e por que apareciam na lista.
Parte dos citados, ouvida pela reportagem sob condição de reserva, vê a existência da lista com descrédito. Eles consideram que a relação entre nomes e valores é falsa.
Advogados de três deles sugerem que a lista foi plantada por investigados ligados a Adilsinho para embaraçar as eleições.
Os candidatos afirmam temer contratos com gráficas da região metropolitana para imprimir material de campanha, já que os que não possuem fornecedora de confiança costumam recorrer às grandes gráficas indicadas por partidos ou por candidatos majoritários.
Um dos candidatos ouvidos pela reportagem afirmou que vai recorrer a gráficas do interior, mesmo que essas cobrem mais caro. Outro afirmou que vai pesquisar sobre o sócio antes de fechar contrato.
Um terceiro candidato pretende rejeitar materiais em conjunto com outras campanhas, as chamadas "dobradas.
A minha empresa roda serviço político e quem paga é o próprio candidato, faturo ao próprio, nunca a partidos ou a terceiros. Essa é a maneira que eu faço, e como presidente do sindicato, oriento os meus companheiros a também fazer assim.
Se existe ou não existe [lavagem de dinheiro], se alguém faz ou não faz, não sei", afirma Carlos Di Giorgio, presidente da regional carioca da Abigraf (Associação Brasileira de Indústria Gráfica).