O excesso de colesterol no organismo, sobretudo da lipoproteína de baixa densidade (LDL-C) —o “colesterol ruim”, como costuma ser chamado—, é um dos principais fatores de risco para a ocorrência de eventos cardiovasculares graves e possivelmente fatais, como infarto agudo do miocárdio e AVC (acidente vascular cerebral).
O controle é essencial para prevenir infarto e AVC, mas esbarra na falta de adesão à terapia medicamentosa e no acesso restrito às medicações mais modernas.
Daí a recomendação de diversas sociedades médicas para manter concentrações baixas dessas partículas. No Brasil, a indicação para quem tem risco cardiovascular muito alto —pessoas que já sofreram infarto ou AVC, colocaram pontes de safena ou stents coronários e têm obstruções nas artérias das pernas —é de abaixo de 50 mg/dL.
Esse número é bem menor do que os limites estabelecidos para quem apresenta baixo risco cardiovascular (abaixo de 150 mg/dL) ou tem risco alto (abaixo de 70 mg/dL) em razão de doenças crônicas, como diabetes, ou fatores de risco associados, a exemplo de hipertensão e tabagismo.
Geralmente, o tratamento para o colesterol alto tem como base o uso das estatinas, grupo de fármacos que inclui atorvastatina, rosuvastatina, sinvastatina, pravastatina e pitavastatina.
Elas atuam diminuindo a produção de LDL ao bloquear a ação de uma enzima chamada HMG-CoA redutase. No entanto, somente com esses medicamentos, grande parte das pessoas não consegue atingir a meta de 50 mg/dL e precisa recorrer à combinação com outros remédios, como a ezetimiba.
Essa necessidade de múltiplos fármacos leva a um problema de adesão ao tratamento pelos pacientes, tanto que não é incomum ouvir relatos de pessoas que se recusam a tomar os remédios como deveriam ou mesmo que interrompem o cuidado por conta própria, sem qualquer aconselhamento médico.
Ainda existe um problema relacionado aos custos: no Brasil, as estatinas estão disponíveis gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas os demais medicamentos geralmente precisam ser adquiridos de maneira privada, e seus valores não são acessíveis a todos.
Estratégia baseada em educação e motivação.
Foi pensando nos desafios de combater o colesterol alto que surgiu o estudo SAPPHIRE-LDL, conduzido pelo Einstein em colaboração com a farmacêutica Novartis e a empresa epHealth.
A ideia era investigar se a adoção de uma estratégia de melhoria da qualidade do tratamento, utilizando uma plataforma digital desenvolvida pela epHealth, poderia aumentar o número de pacientes de alto risco cardiovascular com o colesterol controlado.
O ensaio clínico contou com 1. 465 pacientes, tratados em 28 centros de pesquisa no Brasil, tanto particulares quanto públicos. Os profissionais de saúde contavam com o aplicativo epScience, enquanto os pacientes utilizavam o epYou, que se comunicavam entre si.
Por meio do epScience, o médico podia registrar o tratamento prescrito e receber recomendações, de acordo com o nível atual de colesterol dos participantes.
Esses dados eram recuperados de maneira inovadora por meio de coleta em ponta de dedo com resultados transmitidos automaticamente para a plataforma em cerca de sete minutos.
Já para os pacientes, o epYou oferecia lembretes para a tomada dos remédios e conteúdos educativos, além de permitir a comunicação com a equipe de saúde e, se necessário, realizar consultas por telemedicina.
Metade dos centros foi sorteada para testar a estratégia, enquanto a outra parte manteve o cuidado usual oferecido nas clínicas.
Os resultados foram descritos em um artigo publicado em julho na revista JAMA Cardiology. Os autores verificaram que, após seis meses em atividade, a concentração média de LDL-C foi de 76,3 mg/dL no grupo de intervenção e 85,6 mg/dL no controle.
Além disso, os pacientes que receberam a intervenção também apresentaram maior probabilidade de atingir uma concentração de colesterol inferior à meta de 50 mg/dL (23,5% ante 13,4%).
Os medicamentos mais promissores no tratamento do colesterol alto são os inibidores de PCSK9. Agem inibindo a ação da proteína PCSK9, que normalmente favorece a degradação dos receptores de LDL no fígado.
Sem ela, mais desses receptores permanecem disponíveis para retirar as partículas de LDL do sangue e levá-las para dentro das células hepáticas, onde são processadas.
No Brasil, a classe é representada por dois fármacos: o evolocumabe, um anticorpo monoclonal, e a inclisirana, um pequeno RNA de interferência.
000 por mês. “Houve uma tentativa de incorporação dos inibidores de PCSK9 pelos planos privados junto à Agência Nacional de Saúde Suplementar, mas ela não foi aprovada.
Ainda se discute a possibilidade de um regime especial, talvez com coparticipação do paciente, que poderia viabilizar o acesso, no entanto, isso ainda não é a realidade”, afirma Raul Santos.
Em meados de julho, a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o uso do enlicitide no país. A substância é o primeiro inibidor de PCSK9 desenvolvido em comprimido oral, a ser administrado uma vez ao dia.
Por mais que esse formato reduza a vantagem do espaçamento das doses, acredita-se que possa representar um passo importante para o barateamento desse tipo de terapia.
Pessoas com histórico de eventos cardiovasculares que não seguem o devido tratamento para diminuição do colesterol LDL apresentam um risco 20% maior de recorrência em três anos, quando comparadas a quem mantém as taxas sob controle.
Os tratamentos farmacológicos são importantes independentemente de a pessoa mudar ou não seu estilo de vida. Mas adotar hábitos saudáveis é parte essencial do tratamento, sobretudo, para prevenir a recorrência de eventos cardiovasculares.
Praticar atividade física melhora a pressão arterial, reduz a inflamação no organismo, diminui o risco de formação de trombos e faz com que o coração utilize melhor o oxigênio.
Da mesma forma, por mais que não existam alimentos “milagrosos”, ter uma dieta balanceada, com abundância de vegetais e de alimentos integrais e minimamente processados, está associada a uma melhor saúde.
Outro ponto importante é o tabagismo. “Estima-se que, seis meses após parar de fumar, o risco de um evento cardiovascular cai pela metade. Por isso, recomendamos fortemente a cessação do consumo de tabaco, tanto para quem nunca teve problemas cardíacos quanto, principalmente, para quem já teve”, afirma Raul Santos.
Estresse excessivo, ansiedade e sintomas depressivos também são fatores de risco. Portanto, o cuidado com a saúde mental deve ser valorizado tanto quanto a saúde física.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Einstein. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.