## Reforma ministerial, acordos e emendas ajudaram o petista a manter partidos neutros.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem construindo desde 2023 uma relação com partidos do Centrão que não dependesse de uma adesão formal à sua candidatura.
A estratégia combinou cargos na Esplanada, liberação de emendas e negociações nos Estados.
Lula abriu espaço e, ao mesmo tempo, negociou alianças regionais que ajudaram a manter essas siglas sem compromisso nacional com seu principal adversário na disputa presidencial.
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O resultado aparece com as convenções partidárias concluídas. Flávio chega à eleição sem o apoio nacional do bloco que reúne parte das maiores bancadas do Congresso.
Lula não conseguiu transformar a aproximação em uma coalizão homogênea, mas manteve formalmente o Centrão neutro no pleito.
A neutralidade vale quase tanto quanto um apoio formal. Sem parte relevante dos partidos do Centrão, Flávio tem menos tempo de propaganda na TV e no rádio e menos palanques estaduais.
A negociação começou antes de a eleição de 2026 entrar no calendário. Em setembro de 2023, depois de 2 meses de tratativas, Lula ampliou a Esplanada para acomodar partidos que haviam entrado na base do governo.
Márcio França (PSB) assumiu o recém-criado Ministério do Empreendedorismo para que Silvio Costa Filho (Republicanos) ficasse com Portos e Aeroportos. André Fufuca (PP) foi para o Esporte.
A Esplanada chegou a 38 ministérios, perto dos 39 do governo Dilma Rousseff (PT).
O movimento ganhou outra dimensão no fim de 2024. Durante a tramitação do pacote de corte de gastos, PSD e União Brasil cobraram mais espaço no governo e a liberação de emendas em troca de apoio às medidas.
O PSD mudou de posição sobre a tramitação do pacote depois de uma reunião de última hora com os então ministros Rui Costa (PT), da Casa Civil, e Alexandre Padilha (PT), das Relações Institucionais, em 3 de dezembro de 2024.
O episódio estabeleceu o padrão que Lula levaria para 2026: os partidos de centro poderiam ocupar espaço no governo e receber recursos, mas isso não significava controle sobre suas bancadas.
A partir dali, a negociação passou a ter 2 objetivos.
manter uma maioria suficiente para aprovar projetos no Congresso.
evitar que o Centrão se transformasse na estrutura partidária de uma candidatura de oposição.
Esse cálculo ganhou importância ao longo de 2025, quando os principais partidos de centro ainda discutiam seus caminhos para a eleição presidencial. No União Brasil, Ronaldo Caiado, então governador de Goiás, trabalhava para viabilizar sua candidatura.
No Republicanos, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, era um dos nomes considerados para a disputa. O PSD, por sua vez, ventilava um nome próprio.
As candidaturas só foram definidas em 2026. Caiado deixou o União Brasil e se filiou ao PSD para disputar a Presidência. Tarcísio decidiu concorrer à reeleição em São Paulo.
O Republicanos, assim como outras siglas do Centrão, acabou optando por não apoiar nenhum nome à Presidência.
Lula não precisava necessariamente levar esses partidos para sua chapa. Bastava impedir que fossem para a oposição.
Essa lógica também apareceu na discussão sobre a vice-presidência. O governo avaliou oferecer a vaga ao MDB como forma de ampliar o arco de alianças. Renan Filho (MDB) era uma possibilidade aventada em Brasília.
A hipótese não avançou. Lula manteve Geraldo Alckmin (PSB) como vice e oficializou a reedição da chapa de 2022. Na última eleição, a escolha do ex-tucano fez parte justamente da estratégia de ampliar a interlocução do PT com o centro e a centro-direita e formar uma frente ampla contra Jair Bolsonaro (PL).
A negociação com o Centrão ganhou forma mais explícita em 22 de dezembro de 2025. Naquele dia, Lula recebeu Ciro Nogueira (PP-PI) e Hugo Motta (Republicanos-PB) na Granja do Torto.
O encontro tratou das relações entre o governo e parte do Centrão no ano eleitoral. A reunião, porém, vazou. Depois, Ciro disse ao Poder360 em 8 de fevereiro de 2026 que o apoio do PP a Flávio “só depende dele”.
O episódio mostrou o risco da estratégia de Lula. Quanto mais explícita a tentativa de dividir o Centrão, maior a possibilidade de os partidos usarem a negociação para elevar o preço do apoio.
Ainda assim, a articulação prosseguiu. Em fevereiro de 2026, o presidente do PT, Edinho Silva, disse que mantinha conversas com MDB, PP, PDT e União Brasil sobre a reeleição de Lula.
Baleia Rossi (MDB-SP) era um dos interlocutores frequentes.
A partir de meados do ano, Edinho e José Guimarães (PT-CE) intensificaram as tratativas com União Brasil, PP e Republicanos. Parte dos acordos passou a ser negociada nos Estados.
O Ceará é um exemplo. A construção da chapa governista reuniu PT, PSB, PSD, MDB e Republicanos em torno da reeleição de Elmano de Freitas (PT) e de 2 vagas ao Senado.
A articulação ajudou a criar uma solução para as direções nacionais das siglas.
neutralidade na disputa presidencial.
liberdade para os diretórios regionais.
O desenho ficou claro nas convenções partidárias. A federação União Progressista, formada por PP e União Brasil, decidiu não apoiar nenhum candidato à Presidência e liberou os diretórios estaduais para fazer alianças próprias.
O Republicanos adotou posição semelhante. Os partidos liberaram os diretórios estaduais para definir suas alianças, assim como MDB, Solidariedade e PRD.
Em evento com empresários em São Paulo, em 13 de agosto, Kassab afirmou que o Centrão não está neutro na eleição, mas com Lula. “Eu discordo de que os partidos de centro estejam neutros.
Eu acho que eles estão com o Lula”, disse.
O PSD foi a exceção entre os partidos do Centrão. A sigla oficializou Ronaldo Caiado como candidato à Presidência e Gilberto Kassab como vice, mas não transformou a candidatura em uma orientação nacional para os palanques estaduais.
A neutralidade não significa apoio a Lula. Em vários Estados, os partidos de centro estarão em palanques adversários. O que Lula conseguiu foi evitar que essas alianças fossem organizadas em torno de Flávio.
Esse é o principal ganho eleitoral da estratégia.
Em comparação com 2022, a família Bolsonaro chega à disputa com menos partidos do Centrão dispostos a oferecer estrutura nacional.
Para o cientista político Emerson Cervi, professor e doutor em Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), a neutralidade dessas siglas é um obstáculo para a candidatura de Flávio, porque reduz o número de candidatos dispostos a levar o nome do senador a eleitores que não são seus apoiadores tradicionais.
Há, porém, um custo para o PT. A neutralidade também permite que candidatos de centro disputem o eleitorado de Lula nos Estados em que o presidente tem maior força.
Em vez de transferir votos para candidatos petistas, essas siglas podem usar a popularidade do presidente para fortalecer suas próprias chapas.
O caso de Hugo Motta resume a lógica da negociação. Em 10 de agosto de 2026, o presidente da Câmara declarou apoio à reeleição de Lula e disse que o diretório do Republicanos na Paraíba caminharia com o petista.
A direção nacional do partido, porém, havia escolhido a neutralidade. O presidente da sigla, Marcos Pereira (SP), mantinha apoio pessoal a Flávio.
A diferença entre a posição da direção nacional e os acordos nos Estados também ajuda a explicar por que o Centrão evita se comprometer com um candidato presidencial no 1º turno.
Cervi afirma que as lideranças temem perder o controle dos partidos caso contrariem os interesses das bases estaduais. “Porque a base do partido vai fazer campanha para quem for mais viável no seu território”, disse.
Cervi também relaciona essa autonomia à forma como os recursos chegam aos partidos: com o dinheiro fluindo mais de baixo para cima, líderes regionais ganharam mais independência dentro do Congresso.
Assim, uma adesão nacional também pode limitar os acordos locais.
A lógica pode mudar no 2º turno. Depois do 1º, candidatos e partidos deixam de depender da mesma forma das alianças construídas para a eleição estadual. As direções nacionais ganham mais liberdade para escolher um candidato à Presidência.
A diferença entre as posições nacional e estadual mostra o desenho produzido pelo Planalto. Lula não precisa controlar o partido inteiro. Precisa construir maiorias suficientes em cada Estado e manter as direções nacionais longe de seu adversário.
Em contrapartida, o petista se comprometeu a apoiar a reeleição de Motta para a presidência da Câmara em 2027. O acordo foi costurado com Ciro Nogueira, padrinho político do deputado.
A negociação eleitoral, portanto, não termina na eleição presidencial. Ela também antecipa a disputa pelo comando do Congresso no próximo governo.
Veja no infográfico abaixo algumas das barganhas.
O montante, porém, não produziu fidelidade automática. O histórico de votações mostra que a relação entre dinheiro e voto é menos linear do que a estratégia sugere.
O caso de Jorge Messias foi o exemplo mais claro desse limite. O resultado é uma relação ambígua.
A dificuldade para formar maioria levou Lula a transformar a eleição de senadores em uma prioridade política para 2026. Em diferentes discursos, o presidente afirmou que a esquerda precisa ampliar sua bancada no Senado e defendeu a eleição de uma maioria alinhada ao governo para facilitar a aprovação de projetos.
Para um eventual novo mandato, Lula propõe rever o modelo de pagamento aos congressistas. O plano de governo critica o peso das emendas no Orçamento e afirma que elas reduziram o espaço de decisão do Executivo.
Na convenção do PT, em 2 de agosto, Lula também prometeu enfrentar o poder do Congresso sobre o Orçamento. “Vai ter briga com emenda parlamentar”, disse.
A discussão, porém, ficou para depois da eleição. Na recente reunião com Davi Alcolumbre (União-AP), o tema não foi tratado.
Agora, o PT trabalha para obter o apoio oficial do Centrão no 1º turno.
Em números
- Niu PT, PSB, PSD, MDB e Republicanos em torno da reeleição de Elmano de Freitas (PT) e de 2 vagas ao Senado
Fontes
Informação baseada em material público de Poder360, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.