As sugestões são normalmente benevolentes, como conexão, rede, união. Porém, a palavra onipresente que simboliza a cultura da empresa é "hack" ou "hacker". Vem de piratear, ou na tradução mais clássica, de golpear grosseiramente, estraçalhar.
Esse trabalho, feito anos antes do escândalo da Cambridge Analytica (que revelou como era possível fazer manipulação política em massa nas redes sociais), foi um dos que mais me impactou na minha carreira de jornalista.
Entrevistei o homem que liderava a equipe do algoritmo e me senti num Matrix. À minha frente, de boné, bebendo uma Coca-Cola, estava um homem que falava do poder incomensurável de escolher o que os utilizadores da maior nação do mundo viam nas suas timelines —e como ficariam a se sentir e que percepção do mundo guardariam depois de umas quantas horas a navegar—, com a mesma leveza de quem explicava uma opção estética.
Ficou à vista o potencial gigantesco dos algoritmos das grandes plataformas: tanto podiam informar, construir e conectar como criar realidades alternativas e fazer colapsar os nossos valores e chão comum.
Desde então, tenho acompanhado com misto de deslumbramento, pasmo e horror a voragem digital que assolou o mundo e que resultou na inteligência artificial. Umas vezes sinto-me num Admirável Mundo Novo; em outras, vejo o planeta numa irreversível descida ao abismo, sob a contagem regressiva: "esta civilização vai autodestruir-se em 5, 4, 3.
Fica, mais uma vez, claro que, quando o serviço é gratuito, o produto somos nós —com todo o mal que isso pode causar na saúde mental, nas nossas escolhas diárias, mas também na economia e na democracia.