Quase seis décadas depois de Geraldo Vandré transformar Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores em um dos principais símbolos da resistência política e social brasileira, a frase ganhou novos sentidos na música baiana.
É a partir dessa memória que a banda Sons de Mercúrio, de Feira de Santana, no interior da Bahia, batizou seu novo EP como Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores.
Longe de ser apenas um trocadilho, a escolha do título estabelece a proposta central do material que fala de sentimentos, vínculos e vulnerabilidades em um tempo marcado pela hiperconectividade e, paradoxalmente, por relações cada vez mais distantes.
A apropriação do verso de Vandré desloca a ideia de resistência para o campo dos afetos. Nos anos 1960, a canção se tornou uma expressão de enfrentamento político e, agora, a Sons de Mercúrio encontrou na exposição dos sentimentos uma forma de transgressão moderna.
Sob a distorção das guitarras, o grupo tornou experiências íntimas matéria-prima para canções que refletem sobre o amor, o tempo e as relações humanas. A escolha também dialoga com o lugar de onde a banda fala.
A Bahia ocupa historicamente uma posição de destaque na música brasileira, tendo ajudado a moldar diferentes movimentos e linguagens, do axé às mais recentes aproximações entre ritmos afro, música urbana e pop.
Diante do cenário multifacetado, a Sons de Mercúrio seguiu por uma vertente própria, reafirmando a presença do Rock produzido no Nordeste. O grupo construiu no compacto uma sonoridade visceral, marcada pela energia do Rock e atravessada por um lirismo intimista.
As guitarras funcionam como sustentação para histórias sobre afeto, memória e intimidade, revelando uma cena musical baiana que também encontra no gênero musical muitas vezes considerado rebelde uma maneira de falar sobre sentimentos.
EP da Sons de Mercúrio fala sobre o tempo e os afetos A proposta se manifesta já na faixa de abertura, "Estar é Sobre Instantes". A canção parte de uma reflexão sobre a desaceleração e coloca em contraste a urgência característica do Rock com a necessidade de observar e valorizar os pequenos acontecimentos do cotidiano.
A letra encontra significado em situações aparentemente banais: o olhar perdido pela janela, o silêncio compartilhado dentro de um carro e a descoberta de antigas cartas de amor.
São imagens que apontam para uma compreensão mais paciente dos vínculos, sintetizada na ideia de um afeto que precisa de tempo para se construir e amadurecer. Tal perspectiva também estabelece um contraponto com a velocidade das relações na modernidade.
Ao mencionar o desejo de “imprimir mais fotos, comprar outros livros”, a canção recupera objetos e hábitos associados ao universo analógico para propor uma experiência menos imediata e descartável.
Ouça Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores logo abaixo! https://open.spotify.com/intl-pt/album/5itTbEoapcu0dIARfuJnKc.
EP da Sons de Mercúrio fala sobre o tempo e os afetos.
Ouça Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores logo abaixo.
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