O trabalho de MPB explora o melhor das referências musicais brasileiras do compositor, uma parceria com Luedji Luna e uma forma única de manifestar suas inquietações sobre a indústria musical.
Há quase dois meses, uma entrevista com o músico e apresentador Chinaina para o TMDQA! mudou minha forma de ouvir novos artistas. Ele disse que a indústria vive em busca do próximo grande ícone da MPB, mas a obsessão por números e algoritmos muitas vezes soterra o talento e a novidade.
A gente quer descobrir o próximo Gil, o próximo Caetano. Não existe bola de cristal, mas ao mergulhar na arquitetura musical criativa de Pedro Emílio, é difícil não ver nele um futuro grandioso.
No presente, em tempos de lançamentos descartáveis e pressa nas redes sociais, escolhi o caminho oposto. Mastiguei lentamente as faixas deVende-se Lembrança. O disco é sucessor de Enquanto os Distraídos Amam (2025), o meu segundo álbum mais ouvido no ano passado, e daqueles que não tem como pular música porque não tem nenhuma ruim.
Deixo aqui um convite [quase obrigatório] para ouvir a parceria com Paulo Novaes. Apreciem todas as linhas de baixo desse disco.
Uma hora de bate-papo foi pouco para percorrer o salto e as diferenças entre o trabalho que o levou à indicação de Melhor Álbum de Engenharia de Gravação no Grammy Latino 2025.
A categoria é uma das mais técnicas e avalia a qualidade sonora, a clareza, a fidelidade e a criatividade na produção. Pedro entrega agora outro forte candidato às categorias da premiação neste ano.
Se o primeiro álbum nos apresentava um artista detalhista que sonhava em viver de música, ele o fazia por meio de letras marcantes e um trânsito elegante entre MPB, forró e R&B.
Era uma construção sonora leve, mas sustentada por um baixo marcante e cheio de groove — uma estreia surpreendente e cheia de balanço que deixou o público curioso para saber qual seria o próximo passo de sua carreira.
O novo projeto parte de uma outra maturidade musical, uma evolução natural e exaustiva na busca pela melhor versão.
O que diferencia esses trabalhos, eu acho que é com certeza um Pedro criativamente mais afiado também, eu me vejo nesse lugar. Eu considero Vende-se Lembrança talvez a minha figurinha cromada do meu álbum porque eu cansei pra fazer esse disco, e eu cansei criativamente.
Eu queria entregar o melhor, eu queria entregar algo ainda melhor do que foi ‘Enquanto os Distraídos Amam’.”.
A composição sempre conversou intimamente com a direção de arte, o figurino, a fotografia e a comunicação. Nada existe aleatoriamente. No ano passado, esse cuidado culminou na criação da ‘P.r.é.s.a.v.e.’ — uma empresa fictícia e brilhantemente satírica que ele inventou para representar a pressão sufocante de ter que viralizar no mercado musical.
Seu uniforme era um macacão com a logo da ‘P.r.é.s.a.v.e.’, tornando-o um funcionário da indústria.
Mas como não ficar refém da própria marca? O artista confessa que rolou um medo de ficar preso ao icônico macacão e à persona corporativa para sempre.
A saída que ele encontrou não foi apagar o passado, mas ressignificá-lo por meio de uma narrativa com começo, meio e fim. No universo visual que introduz Vende-se Lembrança, o cantor conecta as duas eras.
Ele liga para o número da ‘P.r.é.s.a.v.e.’ que estava no fundo de uma caixa. O roteiro ironiza exatamente a frieza do algoritmo e da indústria que trata a arte como produto de esteira.
Em vez de fugir, Pedro desmonta aquele escritório corporativo que não serve mais e, naquele mesmo espaço abandonado, ergue cenários com tecidos e panos coloridos para gravar os novos visualizers e a capa do disco.
A quebra desse cenário dá vida ao selo e conceito “Feito por Humanos”. Pedro aparece de blazer e eu pergunto se ele foi aprovado no processo seletivo da vaga.
Eu não fui contratado por outra empresa, pelo contrário, abri a minha própria empresa, uma empresa humana e dedicada à música.”.
Mais do que apenas lançar um punhado de canções, ele entende que prender a atenção hoje exige a criação de ecossistemas instigantes, provando que sua visão criativa vai muito além do estúdio.
A gente vive nesse mundo atualmente tão algorítmico… você criar um universo bem estruturado, com uma narrativa forte, com bons roteiros, com símbolos marcantes, agrega no projeto.
Porque se a pessoa não lembrar de você pela música, ela lembra: ‘Pedro Emílio? Ah, aquele menino que tem um macacão e um fone verde'”.
A fadiga em ouvir tudo que já se disse.
Antes de ser cantor, Pedro é um criativo e um contador de histórias que pensa na canção como parte de um ecossistema maior. De distraído ele não tem nada, mas revelou que não tem a melhor das memórias.
Para não deixar as ideias escaparem, revelou que anota muitas delas em seu bloco de notas, nem que sejam palavras aleatórias. Muitas delas viram música.
Talvez por saber que eu não tenho uma boa memória eu não deixo nada passar quando eu vejo que é bom. A gente não dá tempo pra nossa cabeça parar e estruturar memórias.
Isso é tão sutil e eu vivo nessa época, eu passo por isso também. Inúmeras as vezes que eu acordei de madrugada gravei um áudio de uma melodia ou anotei uma frase que me veio em um sonho, às vezes.
Anotei mesmo. Então, meu bloco de notas é uma loucura com frases soltas.”.
Por trás dessa mente inquieta, existe um esforço metódico para fugir de fórmulas saturadas. O distanciamento poético que Pedro aplica em suas letras é uma resposta direta à repetição da indústria.
Ele explica que essa inquietação nasce de uma fadiga com o clichê, e cita de forma brilhante exemplos que vão do compositor e cantor sertanejo Tierry à genialidade atemporal de Gilberto Gil para ilustrar como uma música sobrevive ao tempo.
Esse deslocamento de mim mesmo em outros lugares talvez aconteça por conta do meu cansaço na mesmice, o cansaço no clichê, a fadiga em ouvir tudo que já se disse, sempre me desloca pra procurar alguma coisa nova.
Eu lembro quando descobri o Tierry em 2020… eu falei: ‘como esse cara conta uma história pra uma massa dentro de um campo que não soa clichê e soa novo, fresco?’ A gente canta as músicas do Gilberto Gil até hoje porque ela buscou frescor na época onde ela nasceu.
Eu acho que as ideias frescas tendem a ter mais longevidade, mais tempo pra marinar na cabeça das pessoas, mais tempo pra serem descobertas.”.
Sonoramente, o disco traz baterias acústicas gravadas e arranjos de metais que abraçam a percussão —presente em todas as faixas. Assinando a produção musical junto com Matheus Stiirmer, Pedro construiu um espaço rico onde homenageia os maiores nomes da música brasileira.
Uma das maiores pianistas e compositoras de jazz brasileira, Tânia Maria, aparece de primeira em “Tanto Você”, quando Pedro cita “Come With Me Now”, sucesso internacional de 1983.
A maioria das músicas tem metal, isso também é muito presente na MPB. A gente colocou mais símbolos da música popular brasileira porque pra além do que o título do álbum significa, a ideia do projeto era fazer com que as pessoas, de fato, lembrassem de alguma música brasileira que elas conhecessem.
A minha ideia foi atingir, de fato, um museu de memórias que existe dentro de cada pessoa. E se esse projeto conseguiu fazer isso com alguém, teve êxito. De fazer a pessoa falar: ‘nossa, eu revisitei várias memórias, vários lugares, momentos, pessoas, situações.”.
Também há ecos maravilhosos de Djavan, Jorge Vercillo e Ed Motta homenageados na excelente “Era Pra Ser”. Lenine, Sandra Sá e o príncipe do soul Carlos Dafé também aparece ao longo do disco.
As colaborações também mostram o esmero com as canções. A elegância inconfundível de Luedji Luna engrandece o samba ‘alcionístico’ em “Reticente”. Ryan Fidelis distribui seu R&B em “Você Foi”.
Outro segredo é a sensível e íntima “Gília”, uma espécie de planta com flor, mas que nasceu de uma brincadeira com o nome da esposa do arista, Lígia Agreste, que também faz parte da ficha técnica de compositores.
Nas letras, o conceito do disco é um convite aberto para acessar nossas emoções mais profundas através do repertório de memórias e da vida do artista.
Para quem quiser levar e viver essa lembrança, basta apertar o play.
Liz Sacramento é jornalista há mais de 10 anos e cantora. No TMDQA!, entrevista artistas e cobre shows, festivais e lançamentos, com foco em R&B, MPB, pop e música preta brasileira.
Fontes
Informação baseada em material público de Tenho Mais Discos Que Amigos, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.